Por que os casos muito raros de trombose depois das vacinas da AstraZeneca e da Johnson afetam mais as mulheres?

El País e agências internacionais
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RIO — Os raros casos de desenvolvimento de coágulos sanguíneos no cérebro e em outros órgãos após a administração das vacinas contra a Covid-19 de Oxford/AstraZeneca e da Johnson & Johnson parecem afetar muito mais mulheres com menos de 60 anos de idade. Os especialistas ainda não sabem exatamente por que isso acontece, mas existem alguns fatores que poderiam explicar parte do fenômeno.

Todos os seis pacientes que desenvolveram coágulos sanguíneos após receberem a vacina da Johnson nos Estados Unidos são mulheres. Depois de conhecer esses relatos, as autoridades farmacológicas dos EUA recomendaram pausar a vacinação com esse imunizante.

No caso da vacina da AstraZeneca, até o dia 4 de março, a Agência Europeia de Medicamentos (EMA) detectou 222 casos de trombose entre 35 milhões de vacinados, cerca de um caso a cada 175 mil imunizados, incidência baixíssima. Também neste caso, a maioria das pessoas afetadas são mulheres relativamente jovens.

Ainda não se sabe por que esses coágulos afetam mais as mulheres jovens, mas um dos aspectos relevantes é o fato de que as mulheres sofrem mais doenças autoimunes do que os homens e quanto mais jovens, mais ativos são seus sistemas imunológicos e mais suscetíveis a complicações como esta, afirma Rodrigo Rial, porta-voz da Sociedade Espanhola de Cirurgia Vascular.

O médico acrescenta outro fator de risco que afeta algumas mulheres jovens: a pílula anticoncepcional aumenta ligeiramente o risco de formação de trombos. O risco associado à pílula é muito maior do que o da vacinação. Aproximadamente uma em cada mil mulheres que tomam o anticoncepcional desenvolve um coágulo desse tipo, enquanto o risco entre as vacinadas é de um em 175 mil, segundo os últimos dados da EMA.

Em condições normais, a trombose venosa do seio cerebral, o tipo mais comum observado nos vacinados com imunizantes da AstraZeneca e da Johnson, é muito mais frequente em mulheres na faixa dos 30 anos, entre as quais se registram três em cada quatro casos, explica Martinón-Torres, chefe de pediatria do Hospital Clínico Universitário de Santiago de Compostela e membro do comitê consultivo de vacinas da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Somado a esses fatores está a tendência de quem estava recebendo a vacina da AstraZeneca na Europa, geralmente pessoas com menos de 60 anos.

Como ocorrem os coágulos sanguíneos

Duas equipes médicas da Alemanha e da Áustria identificaram como ocorrem os coágulos sanguíneos relatados em pessoas vacinadas com o imunizante da AstraZeneca. Em todos os casos, é uma reação em que o sistema imunológico se volta contra o próprio paciente e gera anticorpos que se ligam seletivamente a uma proteína da superfície das plaquetas, células sanguíneas responsáveis pela coagulação do sangue. Quando os anticorpos se ligam a essa proteína, as plaquetas são ativadas e começam a se ligar, produzindo coágulos sanguíneos.

Nove dos 11 pacientes analisados na Alemanha e na Áustria eram mulheres. A maioria tinha coágulos nos vasos sanguíneos do cérebro ou abdômen. Os primeiros dois casos nos dois países ocorreram em duas trabalhadoras de saúde com 49 e 37 anos, respectivamente.

Esse tipo de trombose é caracterizado por uma queda acentuada das plaquetas. O que se observa após a vacinação é muito semelhante a uma reação muito rara já observada em pacientes tratados com heparina, um anticoagulante.

Por enquanto, não se sabe o que causa a reação autoimune após a vacinação. Especula-se que isso possa ter relação ao tipo de tecnologia que as vacinas AstraZeneca e Johnson utilizam: ambas são baseadas em adenovírus. O primeiro usa um adenovírus de chimpanzé e o segundo um adenovírus humano.

Existem pelo menos duas outras vacinas contra a Covid-19 aprovadas que também usam adenovírus, a russa Sputnik V e a chinesa Cansino. Por enquanto não há avisos de que possam causar trombose, mas são imunizantes de países com pouca transparência sobre os dados de vacinação:

— Hoje não temos acesso a informações sobre os efeitos adversos dessas duas vacinas — explica Martinón-Torres.

Um dos problemas é que não há nenhum marcador conhecido que possa dizer quem terá o efeito colateral muito raro de formação de coágulos sanguíneos. O que existe é um possível tratamento que já é usado para pacientes que reagem mal com a heparina: parar de usar esse anticoagulante e usar gamaglobulina, um tipo de proteína do sangue.

Todos os especialistas consultados pelo El País concordam que o raro aparecimento desses trombos não deve afetar o processo de vacinação. Os riscos dessas complicações são muito menores do que os benefícios de se vacinar contra a Covid-19.

Novas limitações à vacina da AstraZeneca

As pessoas com menos de 60 anos vacinadas com a primeira dose do imunizante da AstraZeneca na Alemanha receberão a segunda dose de outra vacina, decidiram nesta terça-feira os ministérios da Saúde federal e regionais.

A Alemanha optou no mês passado por restringir o uso do imunizante em pessoas com menos de 60 anos, após o registro de casos de trombose na Europa. As pessoas dessa faixa etária irão concluir sua imunização com as vacinas da Pfizer/BioNtech ou da Moderna, também disponíveis no país, anunciou a agência de notícias DPA.

A Comissão Permanente de Vacinação (Stiko) do país recomendou que a segunda dose seja aplicada 12 semanas após a dose inicial da AstraZeneca. A França já havia optado por substituir a segunda dose do imunizante por uma vacina de RNA mensageiro. Já a OMS declarou que, por falta de "dados adequados", não poderia fazer recomendações sobre uma mudança de vacina contra a Covid-19 após a primeira dose.

Veículos de comunicação dinamarqueses também relataram nesta quarta-feira que a Dinamarca deixará de administrar a vacina da AstraZeneca completamente. A decisão, que remove o imunizante do esquema de vacinação do país, atrasará a campanha de imunização por algumas semanas, disse a TV 2.

A Dinamarca, primeiro país a suspender inicialmente o uso da vacina da AstraZeneca em março por questões de segurança, também colocou a da Johnson & Johnson em pausa enquanto aguarda novas investigações sobre a possível ligação com casos raros de coágulos sanguíneos.