Por que os taxistas reclamam da UBER?

Núcleo Editorial/Flickr

A startup UBER foi criada em 2009 nos Estados Unidos, cresceu e expandiu as operações para mais de 70 países, se tornou uma das mais valiosas do mundo e em 2016 superou US$ 60 bilhões em valor de mercado, acima de empresas centenárias como Ford e General Motors. Mas o crescimento da popularidade da startup de tecnologia veio com uma série de polêmicas, debates, ações proibitivas e protestos nas ruas. Os principais prejudicados com a concorrência foram os taxistas.

“O prejuízo está em torno de 60%”, considerou o motorista de táxi há 16 anos, Carlos Laia. A UBER começou a operar no Brasil em 2014 e, na opinião do taxista Nariomar Dias, a empresa veio para tirar a referência do trabalho profissional da classe, “colocando em risco a qualidade do serviço de transporte e a vida do passageiro”. Segundo Dias, a falta de controle sobre as condições do veículo e alvará para circulação, além de exigências de documentos para motoristas, como antecedentes criminais, são pontos que precisam ser reavaliados.

A falta de regulamentação do serviço prestado pela UBER e isenção do recolhimento de taxas e impostos aplicados a taxistas é a principal reclamação dos motoristas. “Eu não posso comprar um avião e cobrar R$ 100 via app para levar passageiros ao Recife sem autorização da ANAC. Não posso vender carnes via aplicativo sem aprovação da ANVISA. Dizem que táxi é caro? Por que não diminuir ou isentar a tributação em alguns insumos para tornar o preço mais acessível”, argumentou Vagner Araújo Silva, taxista há seis anos.

Silva afirmou que o dumping causado no mercado pelas baixas tarifas cobradas pela UBER obrigaram colegas de trabalho a abandonarem a profissão. “Ficou desmotivante. Tenho muitos amigos com nivel superior que estão no táxi por opção e dão atendimento de alta qualidade. Ver profissionais assim terem que concorrer com pessoas que usam seus carros para subemprego é triste”, acrescentou Fabiano Martin, motorista de táxi há 20 anos.

A UBER oferece flexibilidade de trabalho e se isenta de qualquer vínculo empregatício com o motorista; o próprio anúncio para atrair novos prestadores de serviço enfatiza a possibilidade de atuar na empresa nas horas vagas e como uma fonte de renda extra. Acontece que o aumento do número de desempregados no Brasil abriu uma janela de oportunidade para “exploração” de motoristas de carro particular, afirmou Laia. Martin comparou a porcentagem da tarifa que sobra para o trabalhador a “migalhas”.

Motorista da UBER há quase dois anos e meio, Alex G. acredita que as principais queixas dos taxistas contra a UBER sejam relacionadas a preço baixo e quantidade de carros nas ruas. “Talvez para as coisas ficarem melhores, tanto para um como para o outro, seria a UBER seguir algumas regras, como limitar o número de carros e ter um preço mais competitivo para deixar ao usuário a escolha do que ele acha melhor”, disse.

Gabriel Ribeiro atende pelo aplicativo UBER nas horas vagas há um ano e já teve que cancelar viagens por identificar a presença de pontos de táxi na região solicitada, evitar aeroportos e rodoviárias. Para ele, “a tecnologia de mobilidade urbana chegou e é preciso se adaptar (…) Existe mercado para todos”. Laia, que reúne debates e informações sobre taxistas no site e programa de rádio A Voz do Taxista, é a favor de aplicativos que conectem passageiro e motorista, ele mesmo é usuário do 99 Táxi e do Easy, mas os apps só são justos se há uma regulamentação para evitar concorrência desleal, segundo enfatizou o taxista.
Por Thaís Sabino (@thaissabino)