Por que praia lotada choca, mas trem cheio passa batido? No Brasil, pandemia escancara elitismo

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Pessoas se juntam para entrar em um trem São Paulo (Foto: Reuters/Amanda Perobelli)
Pessoas se juntam para entrar em um trem São Paulo (Foto: Reuters/Amanda Perobelli)

Em maio deste ano, a estagiária Graziele Amorim Silva, 22, teve que deixar de cumprir o isolamento social em meio a pandemia do novo coronavírus para voltar ao trabalho. Moradora de Itaquaquecetuba, na Grande São Paulo, a estudante de Tecnologia da Informação passou a utilizar o metrô e os trens da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) para se locomover até a empresa onde trabalha, a 40 quilômetros de distância de sua casa.

“Acho errado os trens estarem lotados. No início, em maio, estava vazio, mas agora já voltou a rotina normal. Às vezes sinto mais segurança dando uma volta bem maior para escapar da multidão, mas nem sempre funciona. Tenho consciência que apenas a máscara de pano, em uma situação de trem lotado, não é eficaz”, diz Amorim.

Não foi só a estudante que se encontrou nesta situação. Segundo levantamento da CPTM, que atende as periferias da cidade de São Paulo e região metropolitana, nos primeiros meses da pandemia a demanda chegou ao patamar de 20% do normal e hoje está em torno de 53% da média na Companhia, que antes da Covid-19 transportava cerca de 3 milhões de passageiros por dia. Ou seja, hoje circulam cerca de 1,6 milhões de pessoas apenas nos trens da CPTM.

O aumento coincide com a reabertura de parte do comércio de São Paulo em horários especiais, como medida de flexibilização da quarentena imposta pelo governo estadual e pela prefeitura por causa do coronavírus.

Na mesma época em que Amorim voltou ao trabalho, imagens de trens, metrôs e ônibus passaram a circular nas redes sociais. Uma famosa foi a do BRT, no Rio de Janeiro, lotado feita por um fotógrafo morador da favela Rio das Pedras quando retornava do trabalho.

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As cenas, no entanto, parecem não ter causado uma revolta tão grande quanto outras imagens de pessoas “furando a quarentena”, como registrado no feriado prolongado de 7 de setembro. Na semana passada, por exemplo, uma série de imagens de jovens em bailes funk e festas particulares em sítios causou diversas reações dos internautas. A maioria, eram críticas e mensagens de ódio.

“Esses desgraçados não morrem, mas continuam disseminando a doença e levando inocentes ao óbito”, escreveu um usuário do Twitter, sem citar pesquisas que comprovem sua afirmação, em resposta a uma matéria do G1 que dizia que a Polícia Militar interrompeu uma festa de jovens em um sítio.

Ainda não há vacina para o coronavírus. Tanto o trabalho quanto o lazer devem ser práticas a serem exercidas com segurança evidenciadas por taxas mínimas de contaminação, conforme recomendam autoridades de Saúde, respeitando protocolos de cada município e estado. Em diversos estados e cidades brasileiras, o uso da máscara é obrigatório podendo acarretar multas.

O trabalho e o lazer

People enjoy the Ipanema beach amid the new coronavirus pandemic in Rio de Janeiro, Brazil, Sunday, Sept.6, 2020. Brazilians are packing the beaches and bars this weekend, taking advantage of a long holiday to indulge in normal life even as the COVID-19 pandemic rages on. (AP Photo/Bruna Prado)
Pessoas aproveitam a praia de Ipanema em meio à nova pandemia de coronavírus no Rio de Janeiro, no domingo (6) (Foto: AP Photo/Bruna Prado)

O mestre em Ciências Sociais Ronaldo Bispo dos Santos avalia que a pergunta “por que prais cheias chocam mais do que trens lotados” remete necessariamente às questões ideológicas entre os significados do trabalho e do lazer na nossa sociedade. Para ele, esses dois elementos aparecem historicamente para a sociedade como práticas opostas.

“Em uma sociedade com histórico escravocrata como o nosso, onde o trabalho é praticamente uma obrigação para as classes mais desfavorecida, essa atividade vale o preço da sobrevivência, mas também o preço da sua imagem perante a sociedade”, afirma.

Dos Santos ainda diz que há um julgamento social que pesa sobretudo a parte da população mais pobre. “Isso significa dizer que vivemos em uma sociedade que repete continuamente aos nossos ouvidos ‘quem não trabalha, não come’, mas principalmente, ‘quem não trabalha é vagabundo’. Para os trabalhadores mais pobres isso tem um peso muito importante”, destaca ele, que também é professor de filosofia e sociologia.

Na o opinião da estagiária Amorim, as pessoas que se veem obrigadas a utilizar o transporte público durante a pandemia “estão sobrevivendo” e, por esse motivo, o “‘baile’ segue”.

“De alguma forma inconsciente, acredito que as pessoas se sentem seguras por estarem de máscara. Além disso, muitos valorizam a economia e isso faz com que elas saiam de casa para trabalhar. Porém, acredito que todos se incomodam com o trem lotado”, diz.

‘Nos vemos na obrigação de trabalhar’

Fábio Silva acredita que seus conhecimentos sobre o vírus dão uma sensação de segurança (Foto: Facebook/Reprodução)
Fábio Silva acredita que seus conhecimentos sobre o vírus dão uma sensação de segurança (Foto: Facebook/Reprodução)

Quem concorda com parte das opiniões de Amorim é o bombeiro civil e técnico em Segurança do Trabalho, Fábio Silva, de 30 anos. Silva, que atua como autônomo, diz que “nunca parou de trabalhar”, mesmo em meio a pandemia do novo coronavírus.

“Na minha visão, as pessoas têm uma falsa ilusão de que em ambientes abertos como praias, parques e praças, elas estão seguras devido a circulação de ar, diferente de quanto se está em um trem, que é um ambiente fechado”, afirma ele, que utiliza os trens da CPTM aos finais de semana partindo de Mogi das Cruzes, na Grande São Paulo, até a capital paulista, a cerca de 60 quilômetros de distância.

Um dos medos do bombeiro civil é com sua família. No entanto, ele acredita que seus conhecimentos sobre o vírus dão uma sensação de segurança.

“Em casa, somos em quatro. Tenho medo, porém, como tenho conhecimento específico sobre o assunto me sinto mais seguro. Eu só saio de casa utilizando máscara PFF2 e óculos de proteção”, revela. “Todos nós nos vemos na obrigação de trabalhar”.

Dos Santos, professor de filosofia e sociologia, diz que quando esse complexo de ideias é pensado dentro de uma crise sanitária onde o encontro está interditado ou pelo menos restrito, “a crítica mais contundente que temos é na direção do lazer ou prazer e não exatamente do trabalho”.

“As forças que neste momento gritam ‘a economia não pode parar’ não são as mesmas que estão dizendo que a vida não pode parar. Porque é quase dizer que podemos nos sacrificar pela economia, pelo trabalho, mas não pelos nossos lazeres/prazeres”, aponta.

Flexibilização da quarentena

A cidade de São Paulo, onde Amorim e Silva trabalham, está na fase amarela flexibilização da quarentena. Ou seja, de acordo com o Plano São Paulo, podem reabrir salões de beleza, bares, restaurantes, academias, parques e atividades culturais com público sentado podem funcionar, mas com restrições.

A Prefeitura de São Paulo, porém, já definiu as regras do protocolo sanitário para a fase verde da flexibilização, que contará com a reabertura dos cinemas na capital paulista.

Os critérios que baseiam a classificação das regiões são: taxa de ocupação de leitos de UTI, total de leitos por 100 mil habitantes; variação de novas internações, variação de novos casos confirmados e variação de novos óbitos. Para mudança para a fase verde também são considerados óbitos e casos para cada 100 mil habitantes.

Acontece que o transporte público não parou durante a quarentena, pois é considerado um serviço essencial, sobretudo em fases como a vermelha e a laranja, onde abriram escritórios, comércio e shoppings.

A gestão municipal do prefeito Bruno Covas (PSDB) se baseou em uma pesquisa que aponta que a contaminação entre pessoas que usam transporte público é de 10%. O número é muito próximo se comparado aos 11% daquelas que tiveram contágio por transmissão familiar.

“Essa pesquisa somada à pesquisa anterior possibilitou que a prefeitura alegasse o primeiro ambiente – o lar – como o principal fator de contaminação. Mas em momento algum isso quer dizer que o transporte público é seguro. Entretanto, como ele é alçado como mais seguro que o lar, ele pode funcionar com restrições básicas”, avalia Dos Santos, referindo-se ao inquérito sorológico da capital paulista de agosto.

Ele ainda destaca que a taxa de contaminação entre as classes D e E é pelo menos quatro vezes maior que as classes A e B e que entre negros e pardos a taxa de contaminação é duas vezes maior que a de brancos.

“Mesmo assim foi preferível localizar a origem da contaminação distante das relações produtivas. Obviamente que se a contaminação está distante do contexto produtivo então ela terá que ser encontrada nas relações de lazer. Entretanto, não há planos seguros de controle do vírus, ele simplesmente circula, e dentro dessa perspectiva ele incomoda mais quando circula em razão do lazer/prazer dos indivíduos”, conclui.

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