Por que reinventar o Atlético de Madrid virou uma necessidade para Simeone

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Não há qualquer dúvida de que Diego Simeone é rei em Madri. Ídolo do Atlético de Madrid da época de jogador ao retorno como técnico, em 2011, o argentino elevou os colchoneros ao patamar de terceira força de La Liga e os tirou de uma seca de títulos que durava 37 anos em 2014. A moral do técnico no Wanda Metropolitano ainda é grande, e boa parte das suas decisões à frente da equipe têm apoio de torcedores e diretoria. Mas isso nunca o isentou de críticas.

O torcedor que acompanhou o futebol espanhol na última década sabe bem o estilo do Atletico. Simeone implementou uma ideia de jogo físico, com marcação dedicada e intensa, além de uma espera por brechas dos adversários para contra-atacar. As clássicas linhas de três ou quatro defensores e quatro meio-campistas compactas e próximas são visíveis em qualquer partida dos colchoneros, mesmo a olhos desatentos.

— Ele tem uma forma de jogo estabelecida, é um personagem central. O Atlético é uma equipe que evoluiu muito em estrutura e receitas, e o Simeone é um cara que dá suporte para essa mudança dentro de campo — afirma Paulo Calçade, jornalista e comentarista dos canais Disney.

O estilo surpreendeu adversários e garantiu o sucesso competitivo do Atlético no início da última década. O clube não só conseguiu a façanha de arrancar um título nacional das mãos de Real Madrid e Barcelona, como não termina La Liga abaixo da terceira colocação desde 2012. Na Champions, levou o clube a duas finais, ambas perdidas de forma trágica para o rival Real Madrid. Mas como toda ideia que inicialmente surpreende adversários no futebol, a proposta de Simeone começou a apresentar falhas. As três últimas eliminações na Champions mostraram isso, segundo o jornalista e comentarista do Grupo Globo Fernando Kallás.

— O perfil do elenco começou a mudar, só que o perfil do Simeone nao evoluiu junto. Ele mantém mesmo discurso, a mesma tática. Na Champions, jogou de forma ultradefensiva, como time pequeno, e acabou eliminado. São três anos consecutivos sendo eliminado da mesma maneira — aponta.

Com contrato até junho de 2022, o técnico nunca pareceu em grande perigo de demissão por parte da diretoria do clube, mas a falta de novas conquistas e a dificuldade em extrair mais da equipe, que temporada após temporada qualificava ainda mais seu elenco com contratações milionárias, começou a incomodar. A surpreendente campanha do título na liga aplacou brevemente essas desconfianças.

Efeito Suárez

Em 2020/21, o Atletico mudou, ainda que nem tanto assim. A marcação firme e as linhas de marcação estão lá. Mas hoje, Simeone ampliou seu leque ofensivo e explora um pouco mais a efetividade quando consegue chegar ao ataque. E isso tem tudo a ver com a chegada de Luis Suárez, autor de 21 gols na temporada.

Ex-Barcelona, o uruguaio de 34 anos deixou o Camp Nou sob críticas pelo baixo rendimento. No Wanda Metropolitano, recuperou as características que o colocaram entre os melhores centrovantes do mundo na última década. Luisito não apenas ostenta oportunismo e marca gols decisivos. Sua presença na grande área permite que o Atlético explore zonas ofensivas até então inóspitas, especialmente pelos lados do campo.

— O Atletico estava há duas temporadas com problema seríssimo no ataque. Se tem uma coisa que o time sempre foi especialista é em substituir atacantes, de Kun Aguero a Griezmann — diz Kallás.

Se o uruguaio é um atacante um pouco menos veloz do que o comums, seu posicionamento e movimentação são armas poderosas para abrir espaços em defesas. Nesse cenário, jogadores como o lateral-direito Trippier e o ponta Corrêa e Carrasco, bem como o ofensivo lateral-esquerdo Renan Lodi — que vem alternando a titularidade com o zagueiro Hermoso — encontram facilidade para repetir uma das jogadas que mais têm rendido gols à equipe na temporada: a infiltração na linha de fundo e o cruzamento rasteiro para a área. Foi em uma dessas jogadas que Suárez virou a partida contra o Osasuña, na penúltima rodada.

— No começo da temporada, ele descobriu que colocando o Mario Hermoso de terceiro zagueiro, os jogadores de meio conseguiram ter mais liberdade para atacar — afirma o jornalista, que ressalta a resistência do técnico em utilizar jogadores como Lodi, destaque da última partida.

Simeone aposta muito em movimentos automatizados. Polir seus jogadores de forma que naturalizem esse expediente, e outros como a centralização a partir da ponta e as tabelas rápidas na entrada da área, deixaram a equipe da capital espanhola mais produtiva. São 67 gols em 38 jogos, o segundo melhor ataque da Espanha.

Mas não são todos os casos em que o expediente do técnico argentino funcionará. O principal caso negativo talvez seja o de João Félix. Maior contratação da história do clube — o Atletico pagou 126 milhões de euros ao Benfica em 2019 —, o atacante português vive uma segunda temporada ainda com muitas dificuldades de se adaptar à proposta do técnico. O jogador de 21 anos tem 10 gols na temporada, mas não é dos mais queridos por Diego. Sem conseguir manter a consistência, perdeu a vaga de titular em algumas oportunidades.

— No projeto de vitória na liga nesta temporada, o João Félix é coadjuvante, banco. Não é protagonista. Llorente e Suárez são jogadores emblemáticos deste Atlético. Tudo isso dentro do "molde" do clube — analisa Calçade, que complementa sobre as mudanças de mentalidade pelas quais passou o técnico ao longo dos anos:

— As coisas mudam quando o Simeone passa a usar Koke de volante. Ele já foi um jogador mais de beirada, hoje ele é um volante. Essa é uma concessão de Simeone a um jogo mais solto — explica.

Irregularidade no fim

Mesmo com o bom desempenho, o time se fragilizou na segunda metade da temporada, tropeçou quando não podia e chegou perto de perder a liderança por diversas vezes para Barcelona ou Real Madrid. A "gordura" no topo da tabela se foi, junto com a esperança de um título antecipado. Gerir essas turbulências foi uma das lições do Cholo ao longo do ano.

— Nessa temporada, o primeiro turno foi brilhante. Foram 60% dos pontos conquistados no primeiro turno. Dá a impressão de queda, mas você tem outras disputas, como Champions e Copa do Rei (na segunda metade da temporada). Não dá para dizer que eles foram mal. Se ele foi melhor que a concorrência no primeiro turno, os pontos corridos funcionam para isso, ter a melhor performance te ajudando no final — pondera Calçade, relembrando os tropeços que Barça e Real tiveram quando puderam ameaçar os colchoneros, equipe há mais tempo na liderança.

Em meio a essa administração de datas e competições, o Atlético sofreu eliminação precoce para o modesto Cornella, na segunda fase da Copa do Rei, em janeiro. O resultado incomodou, e este talvez tenha sido o momento que mais mexeu com Simeone na temporada. Na época, o técnico chegou a adotar tom misterioso sobre seu futuro.

— Vamos procurar por soluções se estivermos aqui no próximo ano. O futebol muda muito, você tem que estar aberto a todas as possibilidades. Temos que estar abertos a qualquer coisa que o clube decida — disse, após a partida.

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