Por que Rodrigo Garcia virou alvo principal da 'dupla' Haddad e Tarcísio no debate?

Brazil's Sao Paulo state governor Joao Doria and vice-governor Rodrigo Garcia raise hands at Palacio dos Bandeirantes, the seat of the Sao Paulo State Government in Sao Paulo, Brazil March 31, 2022. REUTERS/Amanda Perobelli
João Doria e seu sucessor, Rodrigo Garcia, cadidato do PSDB ao governo de SP. Foto: Amanda Perobelli/Reuters

O ex-presidente Lula não perde a chance de dizer o quanto sente falta dos bons e velhos tempos em que a polarização política no Brasil tinha numa ponta o seu partido, o PT, e na outra, o PSDB.

Quem acompanhou o debate da TV Cultura com os candidatos ao governo de São Paulo percebeu que na teoria a prática é outra quando a barata eleitoral começa a voar.

A princípio, soa estranho que tanto Fernando Haddad (PT) quanto Tarcísio de Freitas (Republicanos) tenham focado os ataques no adversário tucano, o atual governador Rodrigo Garcia. Um, afinal, já mostrou que tem mais chance de vencer o outro em um mais que provável segundo turno.

Terceiro colocado nas pesquisas, o candidato à reeleição virou vidraça ao ser questionado sobre obras paradas, o irmão investigado por corrupção, sua trajetória política inconsistente e até a parceria com João Doria (PSDB), de quem foi vice-governador e de quem tenta se afastar para isolar a rejeição.

O PSDB não sabe o que é perder uma eleição para governador no maior colégio eleitoral do país desde 1994. Haddad e Tarcísio sentiram que a hora é essa e parecem unidos, ao menos no bullying, para destronar os tucanos em São Paulo.

A dobradinha inesperada, com direito a sorrisos e cumprimentos amistosos ao longo do debate, se desdobra por razões difusas.

Uma delas é a própria nacionalização da pauta, uma marca nas disputas regionais e intensificada em um contexto marcado pela disputa entre Lula e Jair Bolsonaro (PL). Quem não for um nem outro, sobra.

Os dois candidatos à frente nas pesquisas precisam colar nos padrinhos políticos para alavancar as chances de vitória. Garcia entrou em campo sem essa figura, e o que poderia ser uma vantagem virou lacuna.

Essa lacuna não é estratégica, mas resultado da perda de protagonismo tucano a partir da ascensão do bolsonarismo a partir de seu quintal.

As brigas fratricidas que marcaram o ninho tucano nos últimos anos fizeram com que o partido chegasse à guerra para defender seu maior enclave com um exército abatido, ferido e descoordenado.

Talvez fosse diferente se no lugar de Garcia estivesse João Doria. Ele, melhor do que ninguém, poderia defender por si o próprio legado para diminuir sua rejeição. Poderia fazer isso mostrando que, não fosse ele, parte dos brasileiros levaria mais alguns meses para receber a primeira dose da vacina contra a Covid-19. Ele preferiu saltar em direção ao Planalto, sem perceber que as molas da sua alavanca partidária estava rachada.

Tudo isso levou o partido a entrar em campo com um candidato frágil e sem nenhuma marca para chamar de sua.

Como Tarcísio explorou a certa altura, Garcia parece perdido num papel em que uma hora diz ser governador há pouco tempo e não tem a ver com os erros do antecessor; em outra, fala das realizações do governo na terceira pessoa do plural.

Recém-filiado ao PSDB, Garcia virou alvo fácil de Haddad em uma discussão sobre apadrinhamento político. O petista lembrou que o atual governador era considerado um traidor por Mário Covas (PSDB), fez campanha para Celso Pitta, de quem foi secretário na Prefeitura, mais tarde de Doria, e durante anos viveu à sombra do também ex-prefeito Gilberto Kassab (PSD).

Ou seja: os tetos de vidro tucano eram frágeis demais para que os adversários perdessem a oportunidade, ainda mais quando o rival tem a máquina do estado na mão e pode mostrar alguma reação se chegar ao segundo turno. Melhor tirá-lo antes da peleja, pensaram os concorrentes de forma quase unânime — até o candidato do PDT, Elvis Cezar, tirou a sua casquinha ao listar o aumento de impostos para leite, carne, remédios e automóveis promovidos pelo governo paulista.

Um outro fator a explicar a estratégia de petistas e bolsonaristas é que seus grupos estão certos de que, caso não vençam a disputa, farão melhor o papel de oposição se os outros forem os vencedores. O PT, desorientado desde o impeachment de Dilma Rousseff, aglutinou as forças de oposição em torno de sua candidatura porque descobriu que o antibolsonarismo é uma força política ainda maior que o antipetismo. E o bolsonarismo vai viver por anos do discurso antipetista para se manter nas cabeças das disputas políticas, seja onde for.

O que estiver no meio, ou à margem, perece por inanição.

Garcia parece tomar esse caminho, e a tendência só pode mudar se Tarcísio não souber se posicionar contra o aliado aloprado que decidiu atacar uma jornalista no meio do debate.

O candidato do Republicanos corria para terminar o dia como um bolsonarista que, para fins eleitorais, defende apenas até a segunda página da cartilha bolsonarista. Isso significa que ele é capaz de defender a liberdade do cidadão que não quer se vacinar, mas não chega ao extremo de espalhar mentiras sobre as urnas eletrônicas ou pregar fuzilamento de rivais.

A estratégia parece fazer sentido num momento em que tenta atrair os eleitores moderados que, neste momento, se afastam de seu padrinho político. O debate para ele era favorável neste sentido.

Faltou combinar com Douglas Garcia, deputado estadual que foi expulso do debate por seguranças após agredir verbalmente Vera Magalhães, do jornal O Globo e da TV Cultura –como, aliás, já tinha feito Bolsonaro no debate com os presidenciáveis.

Ao fim da confusão, Tarcísio precisou vir a público dizer que o deputado não é mais bem-vindo em sua campanha.

No meio do debate, a repórter Cátia Seabra, da Folha de S.Paulo, mostrou que os coordenadores da campanha de Bolsonaro deixaram o local ainda no primeiro bloco, insatisfeitos com a postura do ex-ministro –provavelmente porque ele se mostrou menos aloprado do que manda a cartilha presidencial.

Tarcísio correu o risco e desagradar a base mais fiei e radicalizada do bolsonarismo. Já deve ter percebido que ela, sozinha, não ganha jogo.

Se não conseguir se desvencilhar do aliado incômodo, é provável que a campanha mude de rumo a partir de agora. Garcia, alvo de todos até ontem, agradece.