Por que técnicos estrangeiros têm durado tão pouco no Brasil

Vitor Seta
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Uma história que começou com tom de conto de fadas na Vila Belmiro acabou de forma abrupta na segunda-feira. Contratado para desenvolver as categorias de base e montar um projeto de baixo custo em momento de crise financeira e com uma proibição de contratações em vigor — retirada apenas no último sábado —, o argentino Ariel Holan pediu demissão após a derrota por 2 a 0 para o Corinthians, no domingo, pelo Campeonato Paulista.

Entre pressão de parte da torcida, a transferência de Soteldo, um dos principais jogadores da equipe, e um episódio — posteriormente resolvido — de desentendimento do atacante Marinho, o argentino de 60 anos, campeão da Sul-Americana de 2017 com o Independiente, viveu todo o tipo de experiência que o dia a dia do futebol brasileiro pode proporcionar em apenas dois meses no cargo.

Holan, agora, é parte da estatística recente de técnicos estrangeiros que se depararam com o insucesso em breves passagens por clubes da Série A do Brasileirão. Com 12 jogos disputados à frente do clube, aproximou-se da passagem relâmpago do venezuelano Rafael Dudamel, que em fevereiro do ano passado comandou o Atlético-MG em apenas dez partidas.

— Um clube quando contrata um estrangeiro, tem que saber a forma de jogar, o comportamento, um acompanhamento do trabalho por onde passou. Ver se as ideias vão se adequar aos atletas, se a estrutura do departamento de futebol está adequada — explica Paulo Pelaipe, diretor executivo do Botafogo-SP.

Pelaipe, que atuava como gerente de futebol do Flamengo quando o clube trouxe Jorge Jesus, aponta algumas diferenças de se lidar com um estrangeiro no comando de uma equipe brasileira.

— Jesus implementou sua maneira de trabalhar. Treinamento em dia de jogos, por exemplo. Quando as partidas eram à noite, tinha treinamento às 11h. Quando eram à tarde, tinha sessão de alongamento. É uma forma diferente do que a gente tinha aqui. Coisas que você pode achar simples, como o café da manhã. Geralmente, o jogador brasileiro não toma café. Com o Jorge Jesus, o café passou a ser obrigatório — lembra ele, que alerta para os riscos de trazer estrangeiros em meio a um “modismo”.

Boom de estrangeiros

De fato, o sucesso de Jorge Jesus à frente do Flamengo coincidiu com uma leva de treinadores internacionais que desembarcaram no Brasil nos meses seguintes, sob a égide de refrescar as visões do futebol nacional.

No fim de 2019, o Santos anunciou o português Jesualdo Ferreira, e em outubro do ano seguinte, o Vasco, na luta para fugir do rebaixamento, anunciou um compatriota, Ricardo Sá Pinto. Ambos duraram exatamente 15 jogos no comando das equipes.

No Botafogo, em novembro, houve experiência ainda mais rápida. Recuperando-se de cirurgia de emergência, Ramon Díaz foi desligado após três jogos, sem comandar a equipe uma vez sequer — a tarefa ficou a cargo do filho e auxiliar, Emiliano Díaz.

Mas há outros casos de sucesso. O argentino Jorge Sampaoli, popularíssimo no futebol sul-americano, desembarcou no Santos em 2018, após fracasso com a Argentina na Copa do Mundo. O técnico deixaria uma limitada equipe do Peixe com o vice-campeonato brasileiro, antes de rumar ao Atlético-MG.

— A longevidade que ele teve se deve a ter conseguido entrar na mente dos atletas e ter conseguido vender o conceito. Quando esse conceito é comprado e eles percebem que estão melhorando como atletas e como pessoas, isso faz que com se abrace a ideia — diz Júnior Chávare, gerente de futebol do Bahia.

Para Chávare, que trabalhou diretamente com Sampaoli (hoje no Olympique de Marselha, da França) durante a passagem pelo Galo, os clubes brasileiros têm condições de sustentar projetos e conceitos inovadores trazidos por técnicos estrangeiros. Mas é preciso um entendimento profundo para que estes funcionem.

—É muito importante que isso aconteça de uma forma cronológica, entendendo bem como fazer, por que fazer e quando fazer. Quando se ter uma sinergia entre as partes, com certeza o resultado final será atrativo para ambos os lados.

Pelaipe ressalta um fator importante: o apoio da torcida. Entre as reações à saída de Holan do Santos nas redes sociais, houve quem estivesse indiferente ao trabalho do argentino.

— Tem que ter comprometimento e a compreensão do torcedor, que é muito importante. Se você não tem os resultados, a torcida pressiona. É importante que o torcedor compre, e diretoria e atletas têm que acreditar.

Além de indiferença, houve protestos contra Holan após a derrota para o Corinthians no domingo à noite.

— Não era o que eu queria. Ponderamos e de comum acordo aceitamos essa situação. Tentei reverter, não teve jeito. Houve até caso de fogos no apartamento dele. Soltaram rojão. Isso o deixou de uma maneira pouco confortável — explicou o presidente do Santos, Andrés Rueda.