Por que ter uma visão negativa sobre o envelhecimento prejudica a saúde

A cada outono, Becca Levy pede aos alunos de sua turma de saúde e envelhecimento na Escola de Saúde Pública de Yale que imaginem uma pessoa idosa e compartilhem as cinco primeiras palavras que vêm à mente. Não pense muito, ela diz a eles.

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Ela escreve suas respostas no quadro. Isso inclui palavras de admiração como “sabedoria” e “criativo” e papéis como “avó”.

— Mas "senilidade" aparece muito e muitas enfermidades físicas também: "curvado", "doente" — conta.

Robert N. Butler, psiquiatra, gerontologista e diretor fundador do Instituto Nacional do Envelhecimento, cunhou o termo “ageism” (etarismo, em português) há meio século. Ecoa “sexismo” e “racismo”, descrevendo os estereótipos e a discriminação contra adultos mais velhos.

Entre as lembranças no pequeno escritório de Levy em Yale está uma foto preciosa dela e Butler, que morreu em 2010. Pode-se argumentar que ela é herdeira dele.

Psicóloga, epidemiologista e professora na Universidade de Yale, Becca Levy demonstrou — em mais de 140 artigos publicados ao longo de 30 anos e em um novo livro, “Breaking the Age Code” (Quebrando o Código da Idade, traduzido do inglês), que o preconceito de idade resulta em mais do que sentimentos feridos causados pelo comportamento discriminatório. Afeta a saúde e o bem-estar físico e cognitivo de maneira mensurável e pode tirar anos de vida.

— Assim como aprendemos nas últimas décadas que as estruturas são tendenciosas contra mulheres e pessoas negras, levando a piores resultados de saúde, ela mostrou que sentimentos negativos sobre a velhice levam a maus resultados em pessoas mais velhas — afirma Louise Aronson, geriatra da Universidade da Califórnia, em San Francisco, e autora do livro best-seller “Elderhood” (Velhice, traduzido do inglês).

Outra lembrança no escritório da professora Levy é um cartão em seu quadro de avisos que diz: “Pergunte-me sobre 7,5”. A recordação veio de uma campanha anti-idade em Wisconsin e se refere ao seu estudo de longevidade de 2002, que por duas décadas acompanhou centenas de moradores com mais de 50 anos em uma pequena cidade de Ohio, nos Estados Unidos. O estudo descobriu que a sobrevivência média foi de sete anos e meio a mais para aqueles com as crenças mais positivas sobre o envelhecimento, em comparação com aqueles com as atitudes mais negativas.

— Uso isso em praticamente todas as palestras que dou porque é chocante. Ela foi realmente uma pioneira — conta Tracey Gendron, que preside o departamento de gerontologia da Universidade comunitária da Virgínia e credita o trabalho de Becca em "Ageism Unmasked" (Etarismo Desmascarado, traduzido do inglês), seu livro recente.

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Levy e sua equipe medem as atitudes em relação ao envelhecimento de várias maneiras. Eles usam questionários ou o mesmo exercício de cinco palavras que ela dá aos alunos e testam preconceitos subliminares usando programas de computador que exibem palavras negativas ou positivas sobre o envelhecimento tão rapidamente que os participantes inadvertidamente as absorvem. Eles usaram pequenas amostras experimentais de algumas dezenas de pessoas e rastrearam registros de saúde de milhares por meio de grandes pesquisas nacionais. Graças aos seus esforços, sabemos que além da redução da longevidade, o envelhecimento também está associado a:

Eventos cardiovasculares, incluindo insuficiência cardíaca, derrames e ataques cardíacos. Usando registros de saúde de quase 400 participantes com menos de 50 anos no Baltimore Longitudinal Study of Aging, “conseguimos acompanhar pessoas por 40 anos”, disse Levy em uma entrevista. “Eles tinham um risco duas vezes maior se, em idades jovens, adotassem estereótipos negativos sobre o envelhecimento.”

Função física. Entre 100 idosos (com idade média de 81 anos), aqueles expostos semanalmente a estereótipos positivos implícitos de idade durante um mês tiveram melhores resultados em testes de marcha, força e equilíbrio do que os grupos de controle. De fato, aqueles que receberam exposição positiva melhoraram mais do que um grupo experimental de idade semelhante que se exercitou por seis meses. Em um estudo com residentes de New Haven, em Connecticut, nos EUA, com mais de 70 anos, aqueles com crenças positivas de idade também eram mais propensos a se recuperar totalmente de deficiências graves do que aqueles com crenças negativas.

Doença de Alzheimer. Alguns participantes do estudo passaram por exames cerebrais regulares e alguns permitiram que seus cérebros passassem por autópsias. Aqueles que mantinham crenças de idade mais negativas em idades mais jovens exibiram um declínio mais acentuado no volume do hipocampo, a região do cérebro associada à memória. Eles também exibiram, após suas mortes, mais placas e emaranhados cerebrais que são biomarcadores de Alzheimer.

Outro estudo usou dados do National Health and Retirement Survey (Pesquisa Nacional de Saúde e Aposentadoria) dos Estados Unidos que incluiu se os participantes carregavam o gene APOE4, o que aumenta o risco de Alzheimer.

— Aqueles com o gene que tinham crenças positivas de idade tinham um risco tão baixo quanto as pessoas sem o gene — constata Levy.

A lista continua. As pessoas mais velhas com visões positivas do envelhecimento apresentam melhor desempenho em testes de audição e tarefas de memória. Eles são menos propensos a desenvolver doenças psiquiátricas como ansiedade, depressão, transtorno de estresse pós-traumático e pensamentos suicidas.

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Na verdade, Levy e seus colegas estimam que a discriminação por idade, estereótipos negativos de idade e autopercepções negativas do envelhecimento levam a US$ 63 bilhões (cerca de R$ 326 milhões) em gastos anuais em condições de saúde comuns, como doenças cardiovasculares, respiratórias, diabetes e lesões.

A pesquisadora, que tem 55 anos, credita seu foco no envelhecimento a um trabalho em um hospital psiquiátrico no subúrbio de Boston, uma bolsa de pós-graduação no Japão e uma caixa errante em um supermercado da Flórida. No hospital, ela trabalhava em uma unidade para idosos e, para sua surpresa, gostou.

— Isso me inspirou a querer entender a psicologia do envelhecimento — ela conta.

Mais tarde, ela planejou passar um semestre no Japão, investigando por que seus moradores têm a maior expectativa de vida do mundo.

— Percebi como as pessoas mais velhas eram tratadas de maneira diferente lá. Eles são muito celebrados. Centenários são estrelas do rock — relembra.

Antes de partir para o Japão, porém, ela visitou sua avó, uma septuagenária animada. Elas estavam fazendo compras juntas quando vovó Horty caiu sobre um caixote com cantos de metal irregular que havia sido deixado no corredor. O corte resultante em sua perna, embora sangrento, provou ser superficial. Mas quando a avó sugeriu ao dono da mercearia que não deixasse caixotes por aí, ele respondeu que os velhos caem o tempo todo, e talvez não devessem andar por aí.

— A mensagem ficou com ela e pareceu impactar seu comportamento — observa Levy.

Sua avó parecia questionar sua competência, pedindo à Levy que assumisse as tarefas que ela normalmente fazia sozinha. O incidente a levou a contemplar como os valores culturais e as próprias ideias das pessoas sobre a idade podem afetá-las.

Absorvemos esses estereótipos desde tenra idade, por meio de retratos depreciativos da mídia e contos de fadas sobre bruxas velhas e más. Segundo Levy, as instituições — empregadores, organizações de saúde, políticas habitacionais — expressam um preconceito semelhante, reforçando o que é chamado de “ idade estrutural ”.

— Reverter isso exigirá mudanças radicais, um movimento de liberação de idade — ela aponta.

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Mas ela encontrou motivos para otimismo: ideias preconceituosas sobre a idade podem mudar. Usando as mesmas técnicas subliminares que medem atitudes estereotipadas, sua equipe conseguiu aumentar o senso de competência e valor entre os idosos. Pesquisadores em muitos outros países replicaram seus resultados.

— Você não pode criar crenças, mas pode ativá-las — alerta Levy.

Ele propõe o uso de palavras como "ativo" e "cheio de vida", em vez de "rabugento" ou "indefeso", para descrever adultos mais velhos.

Poderia uma sociedade empreender tal missão? Quanto tempo podem durar os benefícios de tais intervenções? As pessoas precisariam de reforços regulares para ajudar a associar o envelhecimento com experiência e possibilidades em vez de piadas nervosas?

A pesquisa, feita por Levy e outros estudiosos, continua.

— Mesmo que as crianças já tenham estereótipos negativos sobre a idade, eles não são imutáveis. Eles são maleáveis. Podemos mudá-los — constata a pesquisadora.

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