Por que você não deveria se importar com o Oscar

Hildur Guonadottir recebe prêmio pela trilha musical de "Coringa". Foto: AP/Chris Pizzello

A 92ª edição dos prêmios da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas dos Estados Unidos - o Oscar 2020, como o chamamos carinhosamente - tinha tudo para ser mais uma edição previsível e preguiçosa. E foi exatamente isso até o final, quando, em uma reviravolta digna de M. Night Shyamalan, 'Parasita’ levou a estatueta de melhor filme.

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Foi a primeira vez que um filme de língua não inglesa ganha a principal estatueta do evento. Isso no mesmo ano em que a marginalizada categoria de "melhor filme estrangeiro" foi rebatizada como "melhor filme internacional", numa tentativa da Academia de se dar melhor com suas novas fileiras de membros de fora dos EUA.

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Em 2020, o Oscar fez algo estranhamente raro para uma organização que se propõe a premiar a excelência em cinema: premiou a excelência em cinema. ‘Parasita' foi, de fato, o filme mais comentado do último ano, seja por sua temática antiburguesa, sua estética milimetricamente arrojada ou sua linguagem diferente daquilo a que estamos acostumados.

A vitória do filme de Bong Joon Ho é histórica porque raramente o vencedor da categoria "melhor filme" é, de fato, o melhor filme do ano no cinema mundial para público e crítica. Via de regra, o Oscar é um concurso de popularidade em que produtores e empresários de Hollywood prestigiam amigos e sócios votando em filmes que sequer viram.

Eis um exercício: tente se lembrar, sem pesquisar na internet, qual foi o vencedor de 2019. Se você não falou 'Green Book', não se sinta mal. No ano em que 'Pantera Negra’, 'Roma' e ‘Infiltrado na Klan' fizeram muito mais sucesso com público e crítica, o grande vencedor do concurso da Academia caiu no esquecimento dias após a cerimônia do Oscar.

Foto: Jordan Strauss/Invision/AP

Stanley Kubrick, François Truffaut, Ingmar Bergman, Alfred Hitchcock… Todos grandes diretores que revolucionaram o cinema e são lembrados até hoje por suas obras, certo? Agora, tente adivinhar quantos deles ganharam ao menos um Oscar como diretores. Acertou quem disse "nenhum".

E o que dizer do ano (1941) em que 'Cidadão Kane’, um clássico indiscutível do cinema americano, foi ignorado pela Academia, que preferiu premiar ‘Como Era Verde o Meu Vale’ com o Oscar de melhor filme? Sem desmerecer este último, a importância do primeiro é indiscutível

A lista de esnobados tem nomes ainda mais famosos, como 'Matrix' (1999), ‘Cantando na Chuva' (1953) e o revolucionário 'O Cantor de Jazz’ (1927), primeiro filme falado da história e que foi barrado da primeira cerimônia do Oscar de todos os tempos, em 1929, por ter uma "vantagem" sobre os concorrentes mudos.

Enquanto isso, a lista de vencedores tem nomes questionáveis como 'Argo' (2013), 'Crash: No limite’ (2004) e 'Shakespeare Apaixonado' (2000), só para citar alguns exemplos. Às vezes, bons filmes como 'Parasita' são, de fato, premiados, mas não significam uma mudança de rumo para a Academia - são apenas a exceção à regra.

A origem errada

O Oscar nasceu pelos motivos errados. A Academia, responsável por distribuir os prêmios, foi fundada em 1926 por Louis B. Mayer, o magnata que comandava um dos estúdios de cinema mais poderosos de Hollywood (e que levava, entre outros, o seu nome), o Metro-Goldwyn-Mayer - também conhecido como MGM, aquele que tem como vinheta o rugido de um leão.

Louis B. Mayer, 1943. Foto: AP

Mayer criou a Academia como uma forma de atrair profissionais da indústria do cinema que estavam começando a se organizar em sindicatos. Antes que atores, atrizes, diretores e roteiristas se organizassem para pedir melhores salários e ficassem muito mais caros, ele fundou uma organização que seria responsável por representá-los.

Para dar legitimidade à Academia, nasceram os prêmios - que só passariam a ser chamados de "Oscars" em 1934, na sexta edição da cerimônia, embora a origem do apelido seja um mistério. O problema é que a organização nunca atuou como um sindicato de verdade, de modo que, ao longo dos anos, os artistas de Hollywood fundaram suas próprias entidades de classe.

Era tarde demais para deslegitimar a Academia como a representante não oficial de Hollywood. "Eu descobri que o melhor jeito de lidar com [cineastas] era pendurar medalhas sobre eles. Se os desse troféus e prêmios, eles se matariam para produzir o que eu quisesse. É por isso que o prêmio da Academia foi criado", disse Mayer a seu biógrafo Scott Eyman, autor do livro "Lion of Hollywood".

Receita de bolo

Décadas após nascer pelos motivos errados, o Oscar foi pouco a pouco se tornando um clubinho previsível. Entre 1928 e 2010, 89% dos vencedores de "melhor filme" foram dramas - pouco espaço foi dado a outros gêneros, como comédia e ação. Filmes de guerra, históricos e biografias são os principais vencedores nesse período.

A receita é tão batida que a indústria se adaptou a ela e criou o conceito de "Oscar bait" - "isca de Oscar", em tradução livre. Trata-se de um conjunto de regras e elementos introduzidos em um filme de modo a "atrair" os membros da Academia e conquistar o maior número possível de indicações. Se seu filme for um drama histórico biográfico sobre um herói de guerra patriota, é quase certo que conquistará ao menos uma indicação.

Oscar 2004. Foto: AP/Kevork Djansezian

“Filmes de Oscar”, como filmes da Marvel e de franquias, têm até seu próprio calendário. Nos EUA, longas com potencial para ganhar prêmios geralmente chegam aos cinemas no segundo semestre do ano, de modo que fiquem mais “frescos” na memória dos membros da Academia - caso dos 10 filmes indicados ao prêmio máximo neste ano, por exemplo.

Já no Brasil, as distribuidoras tentam segurar o lançamento desses filmes para até janeiro ou fevereiro do ano seguinte, após a divulgação da lista de indicados. Desse modo, os filmes podem chegar aos cinemas com a famosa frase “indicado a tantos Oscars” estampada nos pôsteres e trailers - e, assim, atrair um público maior às sessões.

Alternativas

Ignorado pelo Oscar, o ator Adam Sandler recebeu o reconhecimento do Independent Spirit Awards, badalada premiação do cinema independente nos Estados Unidos, por sua atuação no filme 'Joias Brutas’, no último sábado (8). Em seu inspirado discurso, o intérprete aproveitou para alfinetar sua ausência na mais famosa festa de Hollywood.

“Há algumas semanas, fui ‘esnobado’ pela Academia [do Oscar]. Isso me lembrou quando cursei o Ensino Médio e fui esquecido na cobiçada categoria ‘Mais Bonito’ no anuário do colégio. Mas meus colegas me honraram com o prêmio menos prestigiado de ‘Melhor Personalidade’. E hoje, enquanto eu olho para esta sala, eu percebo que o Independent Spirit Awards é o prêmio de ‘Melhor Personalidade’ de Hollywood”, provocou.

Adam Sandler discursa após ser premiado no Independent Spirit Awards de 2020. Foto: AP/Chris Pizzello

O Oscar é importante para a indústria do cinema. Dá visibilidade a filmes e cineastas que, de outro modo, não seriam vistos pelo grande público. Influencia as novas gerações de diretores e roteiristas que farão os filmes premiados do futuro. Move a economia criativa e levanta discussões importantes, como sobre representatividade. Sem falar dos memes.

Mas o Oscar não é o único prêmio do cinema, nem deveria ser um termômetro confiável para o público. Se você for ao cinema apenas para ver os filmes que têm o "selo de qualidade" da Academia, deixará de ver produções brilhantes como o 'Joias Brutas’ de Adam Sandler ou o genial e genuinamente brasileiro 'Bacurau’, por exemplo. Dois filmes que vão durar muito mais no imaginário coletivo do que '1917' e 'Ford vs Ferrari', posso apostar.

Para a Academia, obras de arte como '2001 - Uma Odisseia no Espaço' e 'Psicose' não são tão importantes quanto ‘Conduzindo Miss Daisy' (prêmio máximo de 1990) e ‘Babe, o Porquinho Atrapalhado' (indicado a melhor filme em 1996). Mas dois desses filmes são estudados até hoje nas faculdades de cinema, e os outros dois são, no máximo, exemplos do que não fazer em um set de filmagem.

Você pode gostar do filme que quiser, achá-lo o melhor de todos os tempos, e ele não precisa vencer um concurso para que sua opinião seja legítima. Você não precisa da bênção da Academia para defender a qualidade de um filme que te marcou de alguma forma. Nem precisa esperar que um filme que ganhou uma estatueta seja o melhor do ano.

Muitos filmes causam uma impressão errada no público justamente por conta desse “Oscar buzz”, o burburinho gerado em torno de suas indicações e a expectativa criada por elas. Nem sempre você vai concordar com o prêmio, e não tem problema. A sua opinião não vale menos do que a da Academia. O cinema não é menor do que o Oscar.