Por trás dos números: coronavírus vitimou dezenas de brasileiros com mais de 100 anos

Gabriela Oliva
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Yvonne Martins Teixeira, de 103 anos, que morreu vítima da Covid-19

Quando um quarto da população mundial foi acometida pela gripe espanhola, no início do século XX, eles sobreviveram. Viram a primeira vacina contra a gripe chegar e, há 10 anos, passaram incólumes pela epidemia do H1N1. Mas, diante do novo coronavírus, muitos dos que já viveram mais de um século de histórias sucumbiram. Segundo o Ministério da Saúde, até o dia 28 de maio, 61 pessoas com mais de 100 anos — entre os cerca de 24 mil desta faixa etária, segundo o último censo do Instituto Brasileiro de Geografia Estatística (IBGE) — morreram em decorrência da Covid-19.

Do Nordeste ao Sudeste, as perdas se repetem. No Rio de Janeiro, Severino Cavalcanti Limão, um paraibano arretado, que adorava contar histórias sobre o cangaço, morreu no dia 22, poucos meses depois de ter comemorado seu centenário. Em janeiro, ele celebrou a data na companhia de seus 11 filhos, 39 netos, 51 bisnetos e 24 tataranetos. Apaixonado pela história do Brasil, Severino adorava reunir a família para contar ‘causos’ envolvendo Maria Bonita e Lampião. Testemunha de várias fases da política brasileira e mundial, ele também gostava de relembrar a Era Vargas e a Segunda Guerra Mundial.

Sebastião saiu do Nordeste ainda jovem e se estabeleceu na Penha, na Zona Norte do Rio, para trabalhar como pedreiro. Atualmente, vivia no Jardim Paulista, em Campo Grande, com a filha caçula.

— Sua principal característica era o bom humor. Era um homem forte e independente. Mesmo idoso, adora caminhar sozinho e fazer a barba sem ajuda — lembra a filha Severina Silva, de 58 anos.

Religioso e de família evangélica, o paraibano ensinou o amor ao próximo como uma das principais virtudes. Adorava as comemorações em família e, com a idade avançada, vivia na expectativa de poder celebrar mais um ano de vida.

— Ele não fazia cerimônia quando o assunto era celebrar a vida. Nas reuniões de família, pedia para festejar com as pessoas queridas, sempre com um e churrasco na brasa — lembra a filha.

Severino também gostava de assistir a jogos de futebol sentado no sofá. Era apaixonado pelo Vasco, clube que torceu ao longo de décadas de vida.

— Ele nos amou e foi muito amado durante esses anos. Tenho certeza de que essa rede de afeto familiar foi essencial para ele ter ficado conosco por tanto tempo. É uma pena ter ido embora agora, ele estava ainda forte — diz Severina.

Do bonde à tecnologia

O novo coronavírus também foi fatal para a carioca Yvonne Martins Teixeira, que morreu há três semanas. Com 103 anos, ela não havia perdido a vitalidade e era conhecida pelo alto astral. Animada, adorava passear e sempre que possível frequentava teatros e cinemas de Botafogo, bairro da Zona Sul onde vivia. Outro programa que ela considerava imperdível era tomar café da tarde com as vizinhas. Sua fama de boa conselheira fazia com que sempre fosse procurada pelas amigas.

Yvonne também gostava de falar das mudanças estruturais no cenário da cidade. Nascida na época em que os bondes transportavam boa parte dos cariocas, ela comentava sobre os benefícios no cotidiano trazidos pela revolução tecnológica.

Nascida em Ricardo de Albuquerque, na Zona Norte da cidade, a idosa morou praticamente a vida toda em Madureira, onde criou seus filhos e netos. Ela costumava dizer que sua casa era o seu palácio, e o Mercadão, o quintal.

Quando nova, ela trabalhou em uma fábrica de tecidos, mas logo virou dona de casa. Mesmo tendo passado por dificuldades financeiras, Yvonne sempre lutou para que seus filhos tivessem vagas nas melhores escolas. Sempre acreditou que estudar e ler eram passaportes para uma vida melhor.

À frente do seu tempo

Amante de MPB e pagode, ela não se cansava de repetir o refrão da canção “É preciso saber viver”, de Roberto Carlos, sempre que podia. Era seu mantra. Outro que fazia parte da trilha sonora que embalou a vida de dona Yvonne era Zeca Pagodinho. Nas reuniões familiares, karaokês e pistas de dança eram corriqueiros.

— Era uma mulher à frente do seu tempo. Ela me ensinou desde cedo que as pessoas merecem ser respeitadas igualmente— diz a neta Claudia Teixeira Cursino, de 51 anos.

Mesmo presente na vida de seis filhos, nove netos, cinco bisnetos e diversos amigos que conquistou, ela ainda encontrava tempo para cultivar hobbies. Um dos principais era cuidar de plantas, com as quais ela conversava com gosto. Dona Yvonne tinha pés de cajá, manga, abacate, limão, pitanga e acerola, que, volta e meiam, iam parar em quitutes. ELa gostava de inventar na cozinha, fazendo sucos, geleias e sorvetes das frutas.

A idosa também participava de um grupo para a terceira idade na Casa Pedro Velloso, no Morro Dona Marta. Fazia questão de chegar sempre bem arrumada, com batom rosado e blush. Dizia, rindo, que “velho não pode se descuidar, senão mofa”.

Cláudia conta ainda outros ensinamentos da avó:

— Para ela, era fundamental muita atenção na maneira de falar, ser flexível como bambu, ter sempre uma válvula de escape, aceitar as diferenças, nunca perder a fé em Deus e, o mais importante, sorrir muito, pois achava a vida bela.

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