Por trás dos números: sepultada no Dia das Mães, auxiliar de enfermagem deixou quatro filhos menores

Paula Lacerda
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Carla de Oliveira Obelar, auxiliar de enfermagem, foi vítima da Covid-19

No Dia das Mães, nem todos puderam abraçar as suas e trocar carinho. Foi o caso dos quatro filhos — de 5, 8, 10 e 17 anos — da técnica de enfermagem Carla de Oliveira Obelar, de 42 anos, vítima fatal da Covid-19, doença provocada pelo novo coronavírus. Ela foi sepultada no último domingo, no cemitério de Irajá, na Zona Norte do Rio de Janeiro.

Carla é uma das mais de 13 mil vítimas da Covid-19 no Brasil. Pessoas que não são estatísticas, que têm história e deixam enorme saudade. Ela trabalhava na UTI neonatal do Hospital Infantil Ismélia Silveira, em Duque de Caxias — segunda cidade com mais casos da doença no estado. Apesar de não estar na linha de frente do combate ao vírus, ela chegou a cuidar de crianças com suspeita de Covid-19, teve colegas de trabalho contaminados e relatava para a irmã a preocupação com o dia a dia na unidade hospitalar.

— Às vezes, ela chegava do plantão e ficávamos de madrugada conversando na cozinha. Ela se queixava da falta de equipamentos de proteção individual no hospital. Ela e os colegas chegaram a fazer um rateio para comprar equipamentos — lembra a irmã Carina Obelar, de 41 anos, inspetora penitenciária.

Carla era uma profissional dedicada, que “resolvia o plantão”, na palavra dos amigos mais próximos. Quando chegava ao trabalho, trazia alívio. Preocupada com ela e com os colegas, comprou equipamento de proteção individual (EPIs) para o primo Glauber Amâncio, de 33 anos, também profissional da saúde, assim que começaram a circular as notícias da pandemia do novo coronavírus.

— Ela dizia que eu tinha que me proteger. Era muito preocupada e ótima profissional, chegava ao hospital e “resolvia o plantão" — diz Glauber, em coro com Carina: — Os colegas dela nos disseram que às vezes só Carla conseguia pulsionar a veia dos bebês. Ela chegar ao hospital era um alívio para muita gente.

Mesmo jovem, Carla estava no grupo de risco de agravamento da doença. Segundo a irmã, por obesidade, hipertensão e diabetes.

Busca por leito

No início do mês passado, Carla começou a ter sintomas de cansaço e falta de ar. Fez o teste para Covid-19 e o resultado deu negativo. Ficou alguns dias em casa, mas, diante do resultado e da necessidade, retornou ao trabalho. No fim de abril, os sintomas voltaram e se agravaram e, no dia 4 de maio, começou a peregrinação para encontrar um leito disponível para sua internação. No dia 8, ela foi encaminhada para o Hospital São José, recém-inaugurado em Duque de Caxias. Teve de ser intubada e, na noite do mesmo dia, morreu.

Parentes e amigos ainda tentam recobrar o ânimo e se recuperar da perda. Os filhos menores seguem incrédulos diante da perda da mãe tão jovem, conta a irmã Carina.

— Ainda é difícil de acreditar. Crescemos juntas, fazíamos tudo juntas, morávamos em casas com o mesmo quintal. Minha mãe, que é idosa e doente, ainda não sabe, não sei como dar a notícia a ela. Carla era seu xodó — diz a irmã —As crianças pequenas ainda não entenderam direito o que aconteceu, dizem que estamos brincando e que ela vai voltar do plantão... Dissemos que ela virou uma estrelinha e todos os dias eles ficam olhando para o céu procurando a estrela que é a mãe. Dói.

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