Por trás de inúmeros hits, Papatinho lembra vergonha que tinha do nome e fala de produzir fora do país: 'Sinto que estou pronto'

Foi pouco a pouco e só no sapatinho que Tiago da Cal Alves fez o seu nome estar na boca de anônimos e famosos. Quinze anos após começar a carreira no grupo de rap Cone Crew Diretoria, o carioca autodidata, de 35 anos, ganhou o título de melhor produtor musical do ano no último Prêmio Multishow e agitou uma multidão no Palco Sunset do Rock in Rio. A lista de nomes com quem ele trabalha também só aumenta. Tem Anitta, Ludmilla, Snoop Dogg, Black Eyed Peas, Seu Jorge, Vanessa da Mata... E, desde esta sexta-feira, 28, integra essa lista a campeã do “BBB 21” Juliette, que canta com L7nnon, Xamã e Welisson na recém-lançada música “França”.

Mas quem diria que o beatmaker por trás de diversas batidas famosas — que, com certeza, você já ouviu por aí — sentia vergonha do apelido e de se autointitular produtor no começo da sua trajetória? Confira essa e outras histórias na entrevista a seguir.

Música nova

“Nos meus projetos, de maneira geral, sempre têm misturas inusitadas. Juliette saiu do ‘BBB’ cantando para caramba, tem tudo a ver com a vibe do (projeto) Papasessions, que é acústica, melódica. É uma peça maneira para participar junto com a galera do rap. A gente trabalhou nessa música há uns meses, demorou um pouquinho para sair por conta da agenda do pessoal. Os fãs da Juliette são uma coisa de outro mundo! Todo dia eles me mandavam mensagens, desde quando ela veio aqui até quando revelamos a data da música (lançada nesta sexta, 28). Eu até fiz uma brincadeira com os prints das cobranças deles. Em qualquer lugar que eu estava, algum fã da Juliette vinha me cobrar. Fizemos um clipe na Praia de Grumari, e Juliette entrou na onda. Estava chovendo no dia, poderia ser um problema, mas acabou virando uma coisa única, ficou divertido”.

Rock in Rio

“Lancei ‘Progressos pros nossos’ com MC Hariel, L7nnon, Cidinho e Doca na semana passada para coroar o nosso momento no Rock in Rio (eles e MC Carol se apresentaram no Palco Sunset). Fiquei muito satisfeito. L7 e Hariel só souberam que Cidinho e Doca (que cantam “Eu só quero é ser feliz...”) iriam estar no show quando fizemos a passagem de som. Foi uma surpresa que fiz! O clipe da música nós filmamos na Cidade de Deus, comunidade deles. Fechamos com chave de ouro a parceria e lustramos com sucesso nosso ano”.

Próximos projetos

“Na próxima quinta-feira, tem o novo single do Mateca, que produzi. Dia 4 de novembro, vai sair uma música com Matheus Fernandes e Xamã, um piseiro com trap. Também gravei com Jason Derulo após o Rock in Rio. Foi muito legal. Ele é caprichoso e fez questão de gravar e regravar até ficar do jeito que ele queria. Até aprendeu uma frase em português!”.

E o álbum?

“Eu tinha programado de lançar meu álbum ‘Workaholic’ no fim de 2020, mas aí veio a pandemia. Fiquei com medo de colocar no mundo todas aquelas músicas que foram feitas com tanto carinho. Tenho curtido lançar singles, mas tenho que resolver minha vida em relação a isso porque tenho muita música e não dá para ficar laçando single toda hora. Pensei em desmembrar em pequenos EPs”.

As conquistas de 2022

“Além do Rock in Rio e do Prêmio Multishow, tive uma música no álbum internacional da Anitta. Recebi um trecho com a voz do Catra dos filhos dele e guardei por três anos. Do nada saiu no álbum dela, a única música de produtor brasileiro. Essa é uma das grandes vitórias do ano. Consegui fazer a entrega que ele merecia, não poderia ser melhor”.

Os sonhos

“Um dos meus sonhos era gravar com Seu Jorge, mas já realizei. Agora falta Mano Brown para eu ficar 100% realizado. Ele é tipo chefão de videogame. Mas penso em novos desafios. Expandir para fora do país me interessa bastante. Recentemente, produzi uma música no CD do DJ Steve Aoki. O trabalho de produtor não tem limite de lugar ou de língua. Penso em ir para fora do país. Sinto que estou pronto”.

O passado

“Eu tinha vergonha do meu apelido esquisito. Hoje em dia, eu gosto. Esse sufixo ‘inho’ é muito brasileiro, chama atenção. Gosto de levantar a bandeira do Brasil. Também não me via como produtor, nem sabia que isso era um trabalho, que ser beatmaker é uma profissão. Ajudei a contribuir para ter essa credibilidade, lutei bastante para isso acontecer. Eu falava que fazia beat e perguntavam com o que eu trabalhava. Hoje não tenho vergonha nenhuma da minha história. Mas no início fiquei em silêncio”.

Videogame e futebol

“Eu me sinto jogando videogame quando trabalho. Só queria ser reconhecido, nunca foi por dinheiro e ainda não é. Quero construir meu legado. Comparo com meu amor pelo Flamengo, sempre quero que o meu time ganhe uma taça nova. Tenho um sentimento de um torcedor pela minha própria carreira. Eu quero que minha página no Wikipedia fique foda!”