Por votos femininos, bolsonaristas largam Douglas Garcia na estrada

Deputado bolsonarista Douglas Garcia ofende e constrange Vera Magalhães durante debate na TV Cultura
Deputado bolsonarista Douglas Garcia ofende e constrange Vera Magalhães durante debate na TV Cultura

O ataque do deputado estadual bolsonarista Douglas Garcia (Republicanos-SP) contra a jornalista Vera Magalhães, durante o debate entre candidatos ao governo de São Paulo na terça-feira (13/9), na TV Cultura, virou uma das muitas pás de cal lançadas contra a tentativa da campanha do atual presidente em conquistar o voto feminino.

A estratégia até então estava sendo construída com a ajuda de Michelle Bolsonaro, chamada de "princesa" em 7 de setembro. Na ocasião, o candidato à reeleição botou a companheira numa vitrine e instigou os eleitores a compararem as candidatas a primeira-dama na disputa. Era um ataque velha à atual mulher do ex-presidente Lula, a socióloga Rosângela da Silva.

Na quarta-feira, Michelle acompanhou o marido em um encontro com eleitoras em Natal (RN). Lá, afirmou que “a mulher tem que ser ajudadora do esposo”. Afinal, “é a gente que aguenta, né?”.

A mensagem soa antiquada e descolada do próprio tempo. Isso porque estamos em um país onde boa parte das mulheres são chefes de família e muitas vezes enfrentam sozinhas, sem ajuda dos companheiros, jornadas duplas e triplas nas responsabilidades com os filhos.

Mas há um público a ser atingido, e o discurso oficial é mostrar que o presidente no fim é um grande "provedor", e não um machão perturbado que distribui patadas em colegas, despreza qualquer símbolo feminino e gosta de sair para andar de moto com os amigos e o dono da Havan no fim de semana.

Foi essa imagem de "provedor" que o presidente tentou passar em sua propaganda na TV um dia após um dos seus seguidores mais radiais ofender e constranger uma jornalista enquanto ela exercia a sua profissão.

A peça tirava do contexto uma frase do ex-presidente Lula (PT) sobre violência doméstica e dizia que no atual governo as mulheres eram tratadas com respeito.

Só que a propaganda não dura dois minutos na chuva da realidade sem derreter. Isso apesar do esforço do capitão em se mostrar arrependido por declarações novas e antigas, como a que atribuiu o nascimento de uma filha mulher a uma “fraquejada”.

O próprio Bolsonaro já havia atacado Vera Magalhães em um debate, no fim de agosto, na TV Bandeirantes. Na ocasião, diante de uma pergunta incômoda sobre vacinas, disse que ela era uma “vergonha para o jornalismo brasileiro”.

Nesta semana o presidente que não esconde a idolatria por um torturador disse ser normal “nós homens falarmos ‘vai nascer uma criança, vai ser consumidor ou fornecedor?’”. Ele afirmou que frases do tipo são normais entre homens e depois pontuou que nunca disse nada parecido. Tá bom.

Na última pesquisa Datafolha, Bolsonaro aparecia com 29% das intenções de voto entre as mulheres, contra 46% de Lula. Como as mulheres são a maioria do eleitorado, fica difícil vencer a disputa com tal índice de rejeição.

Um dado levantado pelo instituto mostrou que 51% dos eleitores identificam Bolsonaro como o candidato que mais promove ataques contra mulheres, contra 12% do ex-presidente. (O índice sobre o capitão chega a 54% se for levada em conta apenas a opinião das mulheres).

Com tudo isso, e um histórico de declarações agressivas contra o público que agora tenta conquistar, a tarefa de seu estafe para limpar a barra do candidato já era hercúlea.

Com o papelão de Douglas Garcia, ficou ainda mais difícil disfarçar na propaganda o desprezo que Bolsonaro e sua turma nutre e sempre nutriu pelo público feminino. Em cada peça levada ao ar fica ainda mais subentendido que o presidente até tolera mulheres, desde que sejam “ajudadeiras” e não os confronte com perguntas indesejáveis ou exerça qualquer outra função se não a de objeto de decoração doméstica.

O estrago provocado pelo deputado pode ser medido pela posição de figuras ainda próximas do presidente ao longo do dia.

Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que endossou os ataques do pai à mesma jornalista há poucos dias, correu para desautorizar o parlamentar aliado. “Atitudes inconsequentes visando os holofotes e a autopromoção, além de erradas em si mesmas, podem pôr a perder um trabalho de meses, reforçar estereótipos e trazer prejuízos para todo um grupo político”, resumiu o 03. Nem parecia o mesmo deputado que outro dia mesmo declarou ter pena de uma cobra usada para torturar outra jornalista, Miriam Leitão.

Tarcísio de Freitas (Republicanos), que corria tranquilo em direção ao segundo turno após o debate — e sem que a fama de radical tivesse ainda colado em sua candidatura ao governo de São Paulo — foi além. Disse “lamentar profundamente e repudiar veementemente a agressão sofrida pela jornalista Vera Magalhães enquanto exercia sua função de jornalista durante o debate”. O candidato ao governo de São Paulo afirmou ainda que a atitude era “incompatível com a democracia”.

Em um telefonema para a vítima, disse que mal conhecia "aquele idiota", embora o idiota tenha entrado naquele estúdio como seu convidado.

Em outras palavras: entre tentar ganhar as eleições e abraçar o idiota útil que resolveu, nas palavras de Eduardo Bolsonaro, se autopromover visando holofotes, a turma preferiu jogar o aliado na estrada –junto com outros tantos que conseguiram se tornar agentes tóxicos em um ambiente já suficientemente intoxicado.

Puxam a fila ex-ministros como Milton Ribeiro e Abraham Weintraub.

E olha que estamos falando de um grupo político que reabilitou nomes de peso como Ricardo Salles, Fabio Wajngarten e Eduardo “Um manda, outro obedece” Pazuello.

Uma coisa é destratar a própria população e mandar todo mundo se comportar feito homens durante a imunidade do mandato.

Outra é precisar de votos.

É quando o idiota útil se transforma em aliado descartável. Resta saber quem moverá por uma palha por Douglas Garcia para evitar sua provável (e necessária) cassação na Assembleia Legislativa de São Paulo.