Pornô-cabeça debate a questão dos refugiados de guerra

DIOGO BERCITO

MADRI, ESPANHA (FOLHAPRESS) - Um homem anônimo, refugiado de guerra, publicou uma confissão na internet: um conto erótico sobre sua relação com outro homem.

"Ele fez carinho na minha barba e beijou as minhas pálpebras como se eu fosse precioso", escreveu. "Enquanto transávamos, ele me dizia coisas na língua dele, o que me deixava tão duro."

O conto anônimo, de apenas três parágrafos, foi transformado na semana passada em um curta-metragem erótico dirigido pelo canadense Bruce LaBruce, conhecido por seu pornô alternativo.

O filme "Refugee's Welcome", LaBruce diz à reportagem, é sua maneira de contribuir ao debate sobre um dos temas humanitários mais urgentes desta década: o fluxo de refugiados vindos de países como Síria e Afeganistão.

Sem aversão ou pena, o diretor quis reconhecer neles as paixões e as ânsias que são em geral ignoradas.

"A imprensa tende a apresentar os refugiados como um tipo de abstração, algo que acontece a pessoas sem nome e rosto", afirma. "Eu quis fazer um filme sobre como eles têm os mesmos impulsos românticos e sexuais que todo o resto do mundo."

PROPAGANDA

O protagonista de "Refugee's Welcome" é um poeta sírio refugiado em Berlim, interpretado pelo ator libanês estreante Jesse Charif.

Ele é agredido por skinheads enquanto caminha pela cidade e então resgatado por um desconhecido - também migrante, mas tcheco.

Eles passam boa parte dos 23 minutos de filme na cama. É, inevitavelmente, um pornô, ainda que desta vez tenha uma história mais elaborada do que a do encanador.

Mas a mensagem política está clara no curta, denunciando o que LaBruce chama de "xenofobia e avareza dos países europeus", contrastada pelos gestos de quem bem recebeu os refugiados.

A Alemanha, por exemplo, acolheu quase 900 mil pessoas durante 2015 com a política de portas abertas promovida pela chanceler Angela Merkel - países como a Hungria, por outro lado, fazem campanha por fechá-las.

"Sempre achei que o pornô fosse o meio perfeito para a expressão política", diz. "O filme erótico é todo sobre o prazer, então ele deixa o espectador em um estado bastante receptivo. É o veículo perfeito para a propaganda! Não entendo porque mais pessoas não fazem isso."

A era digital e a abundância do pornô, diz, democratizaram o gênero, mas fizeram dele menos narrativo e menos preocupado em mediar e interpretar a sexualidade.

"A maior parte dos filmes eróticos se concentra de maneira superficial no próprio ato sexual", afirma LaBruce.

PROXENETA

O diretor canadense se aliou, neste projeto, a uma pessoa que pensa afim: a produtora sueca Erika Lust, que hoje vive em Barcelona.

É dela o site XConfessions, onde o refugiado publicou seu conto anônimo, inspirando o filme de LaBruce. O projeto já transformou outras histórias em curtas eróticos.

"O cinema adulto era uma porcaria até pouco tempo atrás", afirma Pablo Dobner, produtor-executivo da empresa. "Agora há um olhar mais intelectual, em vez do proxeneta, com um contexto cultural e coisas a dizer."

Lust e Dobner acreditam que o gênero erótico seja um meio de comunicação como um jornal ou filme. Mas é necessário haver diretores "que não tenham a sensibilidade de um caminhoneiro".

"Nós queremos devolver a voz à sociedade sobre o que ela deseja", diz. "A sexualidade humana é muito mais ampla do que meia dúzia de homens se masturbando."