Por que os discursos de Caio Castro e Patricia Abravanel são problemáticos?

·6 minuto de leitura
Patrícia Abravanel (Foto: Reprodução / Instagram)
Patrícia Abravanel (Foto: Reprodução / Instagram)

A terça-feira (1º), amanheceu com muita polêmica. Tudo isso porque três celebridades de bastante fama no Brasil decidiram postar e comentar sobre o vídeo em que um pastor expõe ideias homofóbicas, em especial, contra o relacionamento homoafetivo. Entre os envolvidos no caso, uma fala comum "Não concordo, mas respeito". E temos aí um problema e tanto.

Vamos primeiro entender a história toda. Rafa Kalimann publicou o vídeo no Twitter e acabou recebendo uma bronca do também ex-'BBB' e economista Gil Nogueira, que trouxe à tona o ponto exato do porquê ele é problemático: "Rafa, a questão é que ele disse que tem valores e que acha errado, MAS RESPEITA. E é contra isto que lutamos, contra pessoas que acham que relacionamentos homoafetivos são errados e contra os valores". Diante das críticas que começou a receber, a apresentadora agiu rápido: pediu desculpas, disse que jamais apoiaria uma opinião como aquela e confessa que não viu o vídeo com atenção.

Leia também

Caio Castro também compartilhou as imagens nas suas redes sociais. Amplamente criticado nos comentários, ele postou um comunicado (que não está mais disponível) dizendo que: "Eu sou contra ele [o pastor] ser contra, mas eu respeito a opinião dele!". De novo essa palavra, "respeito".

Por fim, Patricia Abravanel. Não é novidade nenhuma que a família de Sílvio Santos está comumente envolvida em polêmicas e falas discriminatórias, e, dessa vez, temos mais um exemplo. Patricia decidiu comentar o caso envolvendo a colega apresentadora e o ator dizendo que "Como 'LGDBTYH', não sei, querem respeito, eu acredito que eles tem que ser mais compreensivos com aqueles que hoje ainda não entendem direito e estão se abrindo pra isso".

Antes de mais nada, uma correção: a sigla correta é LGBTQIA+. O fato de Patricia não usá-la já é um indicativo de sua ignorância diante de um assunto tão relevante para o momento atual. E, até aí, tudo bem: existe material de sobra na internet para aprender e entender melhor o que cada letra significa e porque usar a sigla correta é relevante. Outro ponto é quando ela diz, no discurso, que por ser "mais velha" e "ter sido criada por pais conservadores", merece o respeito por ainda estar aprendendo. Essa fala é problemática porque ela tem 42 anos, e isso não é nem de longe "mais velho". Segundo, porque o aprendizado é constante, e acontece inclusive diante das gafes dos outros. Terceiro, é uma mulher que tem muito acesso à informação.

Este conteúdo não está disponível devido às suas preferências de privacidade.
Para vê-los, atualize suas configurações aqui.

Discriminação mata!

Agora, vamos entender melhor porque isso gerou polêmica. Se você olhar em volta com um pouco de atenção, vai perceber que ainda vivemos em um mundo hétero, branco e cis. O que isso significa? Que alguns dos principais valores da nossa sociedade, em pleno 2021, ainda giram em torno do homem branco e heterossexual, das relações heterossexuais, e de uma base cultural vinda do velho continente (ou seja, da Europa). No Brasil, isso fica muito claro porque o homem branco foi o "conquistador das terras selvagens", o "colonizador europeu", o "provedor de grande sabedoria e progresso para os povos selvagens".

Por mais antiga que essa linha de pensamento seja, ela ainda é exercida em uma série de ambientes sociais. De forma prática, o que isso significa é que o "certo" sempre foi considerado esse padrão defendido: pele branca, relacionamentos entre sexos opostos, riqueza vinda da exploração dos diferentes - foi e ainda é assim com os povos indígenas, a população negra e até mesmo de alguns países do leste asiático, como a China.

O vídeo divulgado e o discurso de "respeito", considerando esse contexto, funciona como uma cortina de fumaça para manter o status quo, ou seja, o sistema de pensamento que gera violência, exclusão e exploração daqueles considerados diferentes. Pede-se respeito para manter uma ideia violenta em relação ao outro, quando esse mesmo outro nunca foi respeitado. É uma contradição em si mesma.

Uma busca rápida no Google explica que a palavra "respeito" vem do latim respectus, uma conjugação do verbo respectāre que, de forma superficial, pode ser traduzida como o ato de observar atentamente o entorno. Essa busca também revela que o respeito é visto como uma sensação positiva, muitas vezes sendo definido como "um sentimento que leva alguém a tratar as outras pessoas com grande atenção e profunda deferência, consideração ou reverência". Essas simples definições são o suficiente para percebermos que a ideia de respeito defendida por Caio ou por Patrícia com certeza não caem nessa alçada.

Este conteúdo não está disponível devido às suas preferências de privacidade.
Para vê-los, atualize suas configurações aqui.

O respeito, segundo algumas páginas que explicam a sua etimologia, é baseado na apreciação do outro, e ajuda o indivíduo a reconhecer leis, figuras de autoridade e saber escutar as necessidades e opiniões dos outros com atenção. É, como dito acima, uma reverência ao diferente, no sentido de buscar compreendê-lo e às suas necessidades momentâneas.

Mas, quando se fala em respeito, muitas vezes a ideia por trás da palavra está longe de ser positiva. Tem a ver com repressão, repreensão e, principalmente, com imposição. Vem com uma fala típica por trás: "Eu até escuto o que você fala, mas ainda acho que estou certo e, por isso, desconsidero o que você disse". O intuito não é observar com atenção ou compreender, é manter a ideia inicial e ignorar o outro.

Quando pessoas brancas, héteros e cis pedem "respeito" ao pensamento conservador que têm, elas deliberadamente fecham os olhos para a violência que as minorias caladas por essas mesmas pessoas sofrem cotidianamente. Nem é preciso lembrar, aqui, que o Brasil é um dos países com recorde de violência contra a comunidade LGBTQIA+, líder no número de mortes de pessoas trans e que possui o racismo engendrado no seu DNA.

Por outro lado, precisamos reconhecer que, sim, muita coisa tem mudado e o último ano e meio são prova de que o pensamento intolerante e conservador por natureza não vai ter mais espaço daqui para a frente. Às pessoas representantes do que era o status quo até agora, resta ouvir atentamente, prestar atenção e aprender - não exigindo que os oprimidos ensinem o que elas não sabem, mas ativamente buscando o conhecimento para desconstruir às próprias ideias que colaboram para as pequenas violências cotidianas e que, vamos combinar, ninguém aguenta mais.

Abaixo, Joana Maranhão dá uma aula sobre como educar filhos para diversidade, afinal, o mundo é diverso e a resposta deveria ser só uma: é amor.

Este conteúdo não está disponível devido às suas preferências de privacidade.
Para vê-los, atualize suas configurações aqui.
Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos