Porque as 'melhores qualidades masculinas' de Putin e Bolsonaro são um problema

Leda Antunes
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O presidente Jair Bolsonaro divulgou em suas redes sociais um vídeo no qual o presidente da Rússia, Vladimir Putin, faz elogios a ele e ressalta suas ‘melhores qualidades masculinas’. A fala foi feita nesta terça-feira (18), ao final da reunião da Cúpula do BRICS, encontro de chefes de Estado de Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, por videoconferência.

No vídeo traduzido pela equipe de Bolsonaro, Putin, ao cumprimentar o presidente brasileiro pelo trabalho durante a pandemia do novo coronavírus disse que ele “expressou as melhores qualidades masculinas e de determinação.” “O senhor foi buscar a solução de todas as questões, antes de tudo na base dos interesses do seu povo, seu País, deixando para depois as soluções ligadas aos problemas de sua saúde pessoal”, concluiu Putin.

A "melhores qualidades masculinas" a que Putin se refere vêm deste lugar instituído do "homem de verdade", explica Pedro de Figueiredo, fundador do MEMOH, projeto social criado em 2017 que promove debates sobre masculinidades entre homens.

— O Putin está falando desse lugar instituído do homem, do cara que aguenta o tranco, que não chora e que, diante de uma pandemia, vai achar que é uma ‘gripezinha’, que enfrenta isso como ‘macho’. Acaba sendo uma compreensão de alguém que não se importa com a questão, que diminuiu a gravidade da situação — afirma.

O episódio também pode ser pensado a partir do ponto de vista da cultura, explica a psicanalista e jornalista Ana Carolina Lemmenty:

— Na nossa cultura, o masculino tem sempre algo a mais, algo que falta para as mulheres. Os homens nascem com um pênis e na nossa sociedade patriarcal, o pênis é um sinal positivo. A mulher, que tem a vagina, é alguém para quem algo falta. E o masculino, muito associado ao pênis, tem a ver com o poder. Em países mais conservadores, como a Rússia ou Brasil, o homem é mais forte, mais corajoso, mais competente, que faz e que diz o que é o certo. A mulher sempre vai ficando nesse lugar da falta — diz Lemmenty.

É impossível não notar certa contradição de Putin e de Bolsonaro ao enaltecerem as “melhores qualidades masculinas” no trabalho de combate à pandemia de Covid-19. Brasil e Rússia ostentam números altos de contaminação e mortes pela doença enquanto que, mundo afora, os países comandados por mulheres, que representam o oposto destes valores, se destacam no enfrentamento ao coronavírus.

A Nova Zelândia de Jacinda Ardern venceu a pandemia mais de uma vez ao longo dos últimos meses e ontem (17) registrou apenas 4 novos casos da doença, contabilizando 37 casos nos últimos 14 dias. A Alemanha de Angela Merkel vive uma segunda onda da doença, mas por muitos meses conseguiu controlar a circulação do vírus.

A Rússia de Putin, por outro lado, contabiliza mais do que o dobro de mortes da Alemanha (34,3 mil no total) e registrou 22 mil novos contágios ontem. O Brasil de Bolsonaro está perto de chegar a marca de 167 mil mortes, com média móvel de óbitos de 557, a maior dos últimos 35 dias, com tendência de alta em 14 estados.

Lemmenty afirma que, nas sociedades patriarcais, existe uma espécie de "código de ética masculino", que determina o que é preciso ser para ser um homem. As mulheres, por outro lado, precisam inventar formas de estar e ser no mundo.

— A mulher é obrigada é inventar um caminho. Então, primeiro a gente pensa muito. A gente não tem uma resposta pronta para as coisas. Cada mulher vai ter que inventar uma saída para um mundo machista. Uma governante mulher vai pensar em saídas. As mulheres estão muito acostumadas a ser criativas — diz a psicanalista.

'Populismo patriarcal'

No vídeo, Putin também elogia o fato de supostamente Bolsonaro ter priorizado o bem-estar do País em detrimento da sua própria saúde. Uma fala que expressa algo típico da masculinidade tradicional, representada pelos dois homens, explica o criador do MEMOH.

— Se a gente for parar para pensar, os homens vão ao médico ou procuram algum tipo de cuidado quando tem uma mulher quase arrastando pelo braço, seja a filha, a mãe ou a companheira. Os homens terceirizam a responsabilidade do próprio cuidado e isso é visto por boa parte deles como uma qualidade, como uma característica fundamental do que é ser homem. Essa fala reforça essa masculinidade tradicional, hegemônica, expressa no homem branco cis-hétero de meia-idade — diz Figueiredo.

— Esse comentário entra num aspecto de uma coisa heroica, de um homem que se sacrifica por uma grande família que é o país. E isso tem tudo a ver com o populismo que Bolsonaro defende. E o problema é que, assim como todo líder populista, ele se coloca como um pai — afirma Lemmenty.

O efeito dessa ideia, na visão da psicanalista, é que ela retira a autonomia dos cidadãos e sua capacidade de questionamento:

— Ele se coloca numa posição de que vai olhar por todos. E se está dizendo, todos tem que acreditar. Quando ele diminui a gravidade da pandemia, isso acaba expondo as pessoas ao risco — explica.

E continua:

— Ele mesmo se coloca nessa situação. Ele encarna essa coisa da macheza. Tanto que fala que já deu, que é coisa de 'maricas'. Coloca o corpo dele em jogo. Para as pessoas olharem como ele é forte, corajoso, machão. E isso sim, para alguns homens, se torna um exemplo.

— O comportamento deles serve de exemplo. A manifestação do Bolsonaro de que o cuidado não é necessário estimula uma série de outras pessoas, especialmente outros homens, a fazerem o mesmo. Até porque a gente sabe que existe esse lugar estabelecido de que os homens ouvem mais outros homens. E esses homens não pedem ajuda e não admitem que estão errados. Vão 'enfrentar’ a pandemia sem medo — complementa Figueiredo.

Para o empreendedor, que se dedica ao debate sobre as masculinidades há três anos, a fala vai na contramão das discussões crescentes sobre novas maneiras de os homens se colocarem enquanto homens no mundo.

— É quase como se ele ainda vivesse na idade pré-histórica em que o homem precisa caçar um leão para prover para a família. E não acho que ele se posiciona dessa forma por ignorância. Faz parte do projeto de poder. Reforçar isso garante que esses espaços continuem sendo ocupados por esses homens, porque socialmente eles são vistos como mais capazes — diz Figueiredo.

Para Lemmenty, ao enaltecer tudo o que é masculino e diminuir o que é feminino, Bolsonaro perpetua uma cultura que oprime e violenta as mulheres:

— Eu lamento que Bolsonaro continue perpetuando o masculino como a única coisa boa. Todas as oportunidades que ele tem, ele faz isso, quando ele não fala diretamente que o feminino é o pior, quando fala, por exemplo, que a filha foi uma fraquejada. Isso reforça uma cultura e atrapalha todos esses esforços que a gente faz de falar de equiparação em vários níveis e das desigualdades que as mulheres enfrentam — finaliza a psicanalista.