"Caso do porteiro" alimenta vitimismo de Bolsonaro, que agora contra-ataca

Jair Bolsonaro durante a live do dia 29. Foto: Reprodução / Facebook


No dia seguinte da revelação, feita pelo Jornal Nacional, de que o nome de Jair Bolsonaro apareceu nas investigações do assassinato de Marielle Franco, uma verdadeira força-tarefa entrou em cena para apurar (e desacreditar) o relato.

Ainda no rescaldo da reportagem, o presidente convocou uma live em que reagiu de maneira virulenta, chamando a emissora de “canalha” e outros adjetivos.

Pela manhã, mandou seu ministro da Justiça, Sergio Moro, investigar uma possível denunciação caluniosa contra ele.

O vereador Carlos Bolsonaro (PSL-RJ), por sua vez, veio a público mostrar que teve acesso ao sistema interno de chamadas de seu condomínio. Foi a forma que encontrou para desmentir a versão de que um suposto participante do crime pediu para tocar na casa do então candidato a presidente antes de se encontrar com outro acusado.

À tarde, uma promotora do Ministério Público do Rio afirmou que o porteiro, responsável por trazer o nome do presidente à tona, havia dado informação falsa em seu testemunho. A aposta é que ele pode ter se confundido. Afinal, quem nunca trocou, nem que fosse por brincadeira, os números da casa de um miliciano com a do presidente, ainda mais um presidente cuja família desfila por aí armada, não é mesmo?

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Por fim, o procurador-geral da República recém-escolhido pelo capitão, Augusto Aras, chamou o episódio de “factóide” e anunciou o arquivamento do caso no STF.

Em menos de 24 horas, a história, estranha desde o começo, estava encerrada.

No rescaldo do noticiário, a oposição ainda procurava em vão um motorista Eriberto ou um caseiro Francenildo para chamar de seu.

Atordoada, não parecia ter disposição para tentar saber o que Bolsonaro e o neodesafeto Wilson Witzel conversaram em 9 de outubro no Clube do Exército, ocasião em que, segundo o presidente, o governador do Rio contou que seu nome havia aparecido nas investigações sigilosas.

Ou por que, dois dias depois, Bolsonaro recebeu, de acordo com a Folha de S.Paulo, 3 dos 11 ministros do Supremo Tribunal Federal, entre eles o presidente da Corte, Dias Toffoli, em reuniões que não estavam previstas na agenda ofical.

Nas análises instantâneas do episódio, era quase unânime a impressão de que Bolsonaro e seus filhos só ganharam com a acusação prontamente desmentida. Houve quem comparasse a história ao atentado sofrido pelo então candidato em campanha. A ministra Damares Alves (Mulheres e Direitos Humanos) foi uma das que se prontificaram em chamar a reportagem de “segunda facada”.

Em 2006, em entrevista à Folha, o publicitário João Santana atribuiu a reeleição, naquele ano, do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao fato de ter virado, no imaginário do eleitorado, uma figura dupla: um "fortão" que venceu a pobreza e se tornou um presidente poderoso e um "fraquinho" quando era vítima dos ataque das elites.

Bolsonaro, que fala grosso quando promete combater o crime e a corrupção, embargou a voz ao se dizer alvo de um boicote midiático.

O episódio atiçou os defensores já desmobilizados de um presidente com a popularidade em queda que agora se diz perseguido pelas forças que o impedem de trabalhar e trazer investimentos ao país.

Como funcionou com Lula até certa altura, a narrativa maniqueísta o favorece. Mais que isso, consegue a façanha de humanizar uma figura que demonstra não ter empatia por ninguém, a não ser os próprios filhos.

Essa narrativa, porém, não responde a uma série de contradições da história toda. Por exemplo, por que representantes do Ministério Público do Rio, que agora é taxativo em negar o conteúdo do relato, foram até Brasília no último dia 17 para fazer uma consulta a Dias Toffoli, sem avisar o juiz do caso no Rio, para saber se poderiam continuar as investigações?

Não responde também qual o grau de proximidade da família com os suspeitos do caso Marielle, já que eles tinham ligações com chefes da milícia que nomearam parentes para o gabinete de Flávio Bolsonaro (PSL-RJ) na Assembleia Legislativa do Rio.

Também não esclarecem o que o agora incômodo ex-assessor Fabrício Queiroz quer dizer quando fala, em áudio recém-vazado, sobre encrencas do tamanho de um foguete ou “carguinhos” disponíveis no Congresso. Nem a acusação de ex-aliados que dizem saber o que os Bolsonaro e supostas milícias virtuais fizeram no verão passado.

As acusações são graves, assim como as ameaças de rompimento institucional, com vídeos em contas oficiais chamando todo mundo que não se dobra às vontades do Planalto de hiena.

Mas, enquanto não for esclarecido por que diabos alguém resolveria colocar o nome do presidente na roda de uma investigação já avançada, Bolsonaro poderá posar de vítima e se alternar nos figurinos “forte” e “fraquinho”.

Com a vantagem de não precisar pagar marqueteiro para isso.

Ambos os figurinos serão usados até o limite em sua disposição de ir na jugular da imprensa, como se todos fossem iguais e não houvesse acusações graves sobre ele e sobre seus familiares a serem respondidas.