Portela e Mangueira se destacam em apresentação de sambas-enredo de 2023

Assim como no carnaval passado, a seleção de sambas-enredo para 2023 tem bom nível e está equilibrada. Não há aquele que se sobreponha aos demais e vá se tornar inesquecível — caso do “História para ninar gente grande”, da Mangueira, em 2019 –, mas também não há composições que possam ser chamadas de ruins.

Desta vez, as músicas estão chegando aos poucos ao público. Todo sábado, depois do “Altas horas”, a TV Globo exibe o programa “Seleção do samba”. No fim de semana passado, foi mostrado como se deram as escolhas em Paraíso do Tuiuti, Unidos de Vila Isabel, Salgueiro e Portela. Estes sambas já estão disponíveis nas plataformas de áudio.

Nos dois próximos sábados, os outros oito serão apresentados na Globo e chegarão às plataformas — a primeira das duas levas terá Império Serrano, Viradouro, Imperatriz Leopoldinense e Mangueira; no dia 26, será a vez de Unidos da Tijuca, Mocidade Independente, Grande Rio e Beija-Flor.

Todas gravadas em estúdio, num trabalho produzido por Alceu Maia, as faixas têm uma qualidade que seria impossível num registro ao vivo, como foi feito em outros anos.

Poucos patrocínios

Com a quase inexistência de patrocínios, os enredos e sambas têm melhorado nos últimos anos, ao menos na média. As escolas estão cantando mais suas próprias histórias, por exemplo. Não parece casual que, entre as melhores criações deste ano, estejam as de Portela e Mangueira.

A azul e branco de Madureira e Oswaldo Cruz fala de si mesma, aproveitando o que diz ser o seu centenário. Na verdade, as escolas só começaram a existir em 1928, mas o Conjunto Carnavalesco Oswaldo Cruz, um dos embriões da Portela, foi fundado em 1923. Na letra de Wanderley Monteiro e outros, Paulo da Portela, o líder maior da história da escola, é um dos narradores.

Além das surpresas da melodia, há bons achados como os versos “Ser Portela é tanto mais/ Que nem cabe explicação”, referência à exaltação que o portelense Paulinho da Viola e Hermínio Bello de Carvalho fizeram à Mangueira. No único refrão, Monarco (1933-2021), que foi presidente de honra da escola e líder da Velha Guarda, é homenageado.

Na verde e rosa, com “As Áfricas que a Bahia canta”, também há uma autocelebração. África e Bahia estão, obviamente, no DNA da escola e já foram cantadas em muitos e importantes desfiles. A música de Lequinho, Junior Fionda, Paulinho Bandolim e outros se vale dessas referências para construir melodia forte. No refrão cativante, exalta Tia Fé, mãe de santo que está na origem da escola, e cita o verso “onde o Rio é mais baiano”, de Caetano Veloso.

Império Serrano e a campeã Grande Rio reverenciam dois grandes nomes do samba, dois grandes amigos: Arlindo Cruz e Zeca Pagodinho, respectivamente. A composição de Sombrinha, Aluísio Machado e outros é engenhosa, com as primeiras letras dos versos formando um acróstico com o nome completo de Arlindo, mas a capacidade de emocionar é superior às qualidades da música. Desde 2017, o sambista vive com as sequelas de um acidente vascular cerebral.

Seu filho Arlindinho é, juntamente com Diogo Nogueira, Gustavo Clarão e outros, um dos autores da reverência a Zeca — que participa da gravação, assim como seu maestro Rildo Hora. O samba é alegre e funcional, faz alusão a vários aspectos da vida pessoal e profissional do artista, mas poderia ter tentando contar sua trajetória de forma menos fragmentada.

A ressalva acima soa nostálgica e um tanto rabugenta. Mas fazem falta letras que apresentem uma história com início, meio e fim. Neste ano, duas que se aproximam disso são as de Tuiuti (de Moacyr Luz, Cláudio Russo e outros) e Viradouro (de Cláudio Mattos e outros).

A primeira é sobre Marajó e começa com a formação da ilha e seus mitos, estendendo-se para as tradições culturais. Já a Viradouro narra — com menos versos do que a história merecia — a saga de Rosa Maria Egipcíaca (1719-1771), escravizada que chegou aos 6 anos ao Brasil, onde foi prostituta, beata, realizadora de exorcismos (ou feiticeira, para grande parte da Igreja, tanto que acabou na Inquisição) e alvo de adoração.

Os excluídos

Como no carnaval passado, Beija-Flor e Salgueiro vêm com enredos politizados e sambas consistentes. O da agremiação de Nilópolis (de Léo do Piso e outros) fala em revolução, subversão e pede: “Abram alas ao cordão dos excluídos”. Consegue abordar o bicentenário da Independência pelo avesso da história oficial.

O do Salgueiro (de Moisés Santiago e outros), em tom mais leve, também canta os “excluídos” e parte da cor vermelha para criar imagens contra a intolerância e a favor da igualdade. Joãosinho Trinta, que entrou no carnaval pela agremiação da Tijuca, é um dos personagens.

Na Imperatriz, o enredo do cangaço é muito bem desenvolvido no samba de Me Leva e outros, mas a elaborada letra pode não ser fácil de se cantar na Sapucaí. Há o risco de o mesmo acontecer na Mocidade, também com boa letra sobre a cultura popular do Nordeste e melhor ainda melodia — de Diego Nicolau e outros.

Uma ótima letra é a da Unidos da Tijuca (de Cláudio Russo e outros), cujo enredo é a Baía de Todos os Santos, tema rico e afim ao universo do samba. Já na Vila Isabel (de Diny da Vila e outros), há clichês demais e rimas pouco criativas nos versos que traduzem o enredo sobre os encontros entre festa e fé.