Portela fecha primeira noite de desfiles com homenagem aos primeiros povos indígenas do Rio

Joana Ribeiro; Gisele Ouchana
Portela mostra nascimento de bebê indígena na Sapucaí (Foto: Buda Mendes/Getty Images)

Sétima e última escola a entrar na Marquês de Sapucaí na primeira noite de desfiles do Grupo Especial, a Portela levou para avenida o enredo 'Guajupiá, terra sem males', uma homenagem aos primeiros povos indígenas a habitar o estado do Rio antes dos portugueses.

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Para Bianca Monteiro, rainha de bateria da Portela pelo quarto ano consecutivo, todo respeito é pouco quando se trata de religiosidade. Pensando nisso, a gata de 31 anos pediu licença à entidade Cabocla Jurema — conhecida entre os adeptos da Umbanda — para interpretá-la na Sapucaí.

Membros da Portela durante desfile (Foto:MAURO PIMENTEL / AFP/Getty Images)

“Pedir licença foi a primeira coisa que fiz em janeiro, quando soube que iria representá-la. É sinal de respeito e sempre faço dessa maneira", afirmou Bianca, que no ano passado representou a orixá Oyá e, antes de pisar na Avenida, adotou o mesmo comportamento.

A azul e branco de Madureira trouxe na última alegoria, índios da aldeia Mata Verde Bonita, em Maricá, na Região Metropolitana do Rio.

Sobre o desfile dessa noite, Luís Carlos Magalhães, presidente da agremiação, garante que a escola fará um grande desfile, comandado pelos carnavalescos Renato Lage e Márcia Lage.

"A escola está muito bonita e trazemos uma grande novidade: a tradição e a modernidade do casal Lage. A maior prova disse é a águia que está diferente. Além do visual que estamos acostumados a ver."

Um dos destaques da escola fica por conta do primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira, Marlon Lamar e Lucinha Nobre. Ela vem interpretando a Purabore (mulher-grávida). Para compôr a fantasia, Lucinha vem com uma barriga falsa.

Rainha de bateria da Portela (Foto: Leo Franco/AgNews)

Convidada pelo intérprete oficial Gilsinho, a cantora Pipa Brasey deu o tom feminino entre os puxadores da Portela. Ela, que mora no Suíça, começou os ensaios no Rio em agosto, quando ficou por um mês no Brasil. Depois, participou de eventos com a escola e retornou ao Brasil no fim de janeiro.

“É uma honra estar aqui, mas é uma honra maior ainda representar as mulheres. A mulher no samba, a mulher negra no samba, a Índia no samba, enfim, é a mulher brasileira no samba", disse com fantasia de Índia.

Alegoria da Mangueira mostra negro, índio, mulher e LGBT crucificados na Sapucaí

O ator Humberto Carrão foi um dos destaques da Mangueira (Foto: Daniel Pinheiro/AgNews)

Para pregar a tolerância em seu enredo sobre a vida e a morte de Jesus Cristo readaptadas aos dias atuais, a Mangueira levou para Sapucaí neste domingo uma alegoria em que aparecem crucificados um homem negro, um indígena, uma mulher e um representante da população LGBT.

O carro, batizado de “O Calvário” pelo carnavalesco Leandro Vieira, contém uma cruz de 10 metros na qual está pregada a escultura de um homem de cor preta. Acima dele,  a inscrição “Negro” substitui “INRI”, grafada na cruz em que Cristo foi morto. Ao redor, há cruzes menores em que estão os outros personagens, representados por pessoas.

Mangueira faz desfile político (Foto: MAURO PIMENTEL / AFP/Getty Images)

A alegoria foi a última a ser finalizada no barracão da Mangueira, na Zona Portuária do Rio. Para evitar polêmicas antecipadas e driblar uma eventual tentativa de censura por parte de grupos religiosos, Leandro Vieira deixou para incluir a escultura do homem negro no carro somente na semana que passou. Os testes da estrutura, que se levanta durante a passagem pelo Sambódromo, também ocorreram em segredo: os traços da escultura, que difere da representação pela qual se conhece Jesus comumente, foram ocultados por plásticos pretos quando os treinos aconteciam na área externa ao barracão.

Outras escolas do primeiro dia do Grupo Especial do Rio de Janeiro:

A homenagem da Grande Rio ao líder religioso Joãozinho da Gomeia foi uma apresentação memorável e cheia de significado. Com diversas referências ao Candomblé, como um carro que levou oferendas para avenida, a tricolor de Caxias volta a suas raizes com um enredo afro. A tônica do desfile foi um grande pedido por mais tolerância religiosa.

A atriz Paolla Oliveira foi um dos destaques da Grande Rio (Foto: Daniel Pinheiro/AgNews)

"No início, a Grande Rio vinha com vários enredos afros. Estamos acostumados com isso. Sempre enredos muito lindos. E esse ano, graças a Deus nós acertamos na veia e vamos mostrar ao mundo que a intolerância não pode ter lugar. Carnaval é o momento certo de levantarmos essa bandeira (da intolerância)", afirmou Milton Perácio, presidente da escola.

Um dos destaques foi a invocada bateria, que realizou diversas paradinhas e ficou apenas ao som de atabaques. No último carro da Grande Rio, ‘o revoar da liberdade' desfilaram lideranças religiosas, artistas, atividade e intelectuais que atuam na luta contra a intolerância religiosa. Entre eles, o babalaô Ivanir dos Santos, a escritora Conceição Evaristo e o pastor José Barbosa Junior.

Luisa Sonza também foi um dos destaques da Grande Rio (Foto: A atriz Paolla Oliveira foi um dos destaques da Grande Rio (Foto: Daniel Pinheiro/AgNews)

Antes do desfile, o pastor defendeu a união contra a intolerância religiosa. "A gente tem que juntar forças. Não dá pra aplaudir quem prega o ódio, desrespeito e a intolerância.”

Entretanto, a Grande Rio enfrentou novamente problemas com alegorias, um dos seus maiores fantasmas recentes. Com dois chassis, o abre-alas da agremiação só foi acoplado no setor três.

Por causa do problema, a agremiação ficou parada por alguns minutos em frente a uma cabine dupla de jurados, o que pode levá-la a perder pontos em evolução. O atraso refletiu também na dispersão e os componentes foram orientados a apertar o passo pelos diretores de ala e harmonia.

União da Ilha

Gracyanne Barbosa, rainha de bateria da União da Ilha (Foto: Thyago Andrade/AgNews)

“Paz”, “somos todos irmãos”, “Deus está conosco nas comunidades do Brasil” e “Agentes da paz” são as mensagens grafadas em dois helicópteros que “sobrevoam” uma enorme favela no carro abre-alas da União da Ilha durante o desfile da escola neste domingo na Sapucaí. Sexta a se apresentar, a tricolor da Ilha do Governador canta as dificuldades do povo brasileiro no dia a dia.

Com o nome “Entre becos, ruas e vielas”, o carro tem inúmeros barracos com moradores nas janelas. Acima do morro, quatro aeronaves alegóricas são pilotadas por componentes vestidos como policiais: lá no alto, eles vestem preto, coturno e boinas. Em vez de tiros, no entanto, disparam camisas ao público. Nelas, está escrito “A Ilha pede paz”.

Tuiuti

Livia Andrade foi um dos destaques da Paraíso do Tuiuti (Foto: Daniel Pinheiro/AgNews)

O realismo das seis bonecas apresentadas pela comissão de frente da Paraíso da Tuiuti chamava a atenção ainda antes do desfile se iniciar. Elas representaram seis matriarcas da agremiação, sendo que três ainda estão vivas. O trabalho de confecção levou cinco meses.

"Estamos homenageando as senhoras do Morro do Tuiuti. São três mulheres que já faleceram e outras três da Velha Guarda", explicou o coreógrafo Márcio Moura, pouco antes da escola entrar na Sapucaí. Ele revelou que as homenageadas vivas não sabiam que seriam representadas na escola, e só ficaram sabendo quando se reconheceram.

“Os homens que as carregam as bonecas representam seus filhos", acrescentou.

No desfile, a comissão de frente fez um bom trabalho ao encenar o encontro de São Sebastião com Dom Sebastião, o que no final resultava num bumba meu boi. A cena era cercada pelas seis bonecas que representavam as Sebastianas, e emulava a procissão que acontece todo dia 20 de janeiro, onde os integrantes convidam a todos para presenciar o encontro do Santo e do Rei.

A Paraíso do Tuiuti entrou na avenida saudando São Sebastião, o padroeiro da cidade do Rio e promoveu um encontro do Santo com Dom Sebastião, rei de Portugal. O enredo se baseou nas encantarias, com muitas referências a bumba meu boi, 

O desfile marcou a estreia do carnavalesco João Vitor Araújo, que substituiu o celebrado Jack Vasconcelos, que foi para Mocidade.