Porto Musical transmite shows de grupos pernambucanos

Gustavo Cunha
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Um zabumba com mais de cem anos escoava ritmos seculares, todo primeiro sábado de cada mês, num beco em Guadalupe, bairro da cidade de Olinda. Evento que acontecia ininterruptamente há cerca de 25 anos até o início da pandemia, a “sambada de coco” do grupo Coco de Umbigada atraía, em média, três mil pessoas para noites movidas a música e danças de roda, e que varavam a madrugada quase sempre.

Um aperitivo desse patrimônio cultural de Pernambuco poderá ser degustado nesta quarta-feira na transmissão ao vivo do primeiro show do festival Porto Musical, que ganha edição extraordinária na internet. Voltado para profissionais da música, o evento bienal normalmente ocupa ruas e espaços do Recife com debates e workshops sobre o mercado, além de shows de importantes atrações regionais, o trunfo da programação.

As apresentações musicais acontecerão até sexta-feira, sempre às 21h30: a abertura, nesta quarta-feira, é com o Coco de Umbigada; na quinta-feira, é a vez do Afoxé Alafin Oyó; e na sexta-feira, o som fica por conta da banda Maracatu Estrela Dourada, da pequena cidade (brasileira, vale frisar) de Buenos Aires. O acesso é gratuito, por meio do Sympla.

— Esse evento, quando acontece presencialmente, é um “babado”, pois aglutina muita gente boa — diz Mãe Beth de Oxum, ialorixá e criadora do Coco de Umbigada. — Recife precisa se tornar capital dos grandes festivais do país. Temos pegada para isso.

Tradição de séculos

Percussionista que trabalhou por mais de dez anos com nomes como Lia de Itamaracá e Selma do Coco (1935-2015), Beth de Oxum começou a erguer há quase três décadas o Coco de Umbigada, uma das atuais referências culturais em Olinda — ao lado dos filhos e do marido, o mestre Quinho dos Caetés. O negócio começou para valer quando ela resgatou o tal zabumba centenário dos avós de Quinho, precursores do coco de umbigada, brincadeira de roda inventada por negros escravizados em quilombos, em que a dança é marcada por “umbigadas” entre casais.

— Muita gente já se casou e teve filhos a partir dessas umbigadas — brinca ela. — Quando começamos nossa história, meti bronca nos instrumentos, botei todo mundo na roda e celebrei. A onda tinha que ser essa, pois cultura popular se faz em território.

Hoje, o terreiro onde a pernambucana vive e trabalha funciona como “ponto de cultura” desde 2005, há um laboratório com aulas de programação digital para jovens — e de onde já foram idealizados games elogiados, como o Contos de Ifá, disponível on-line —, um estúdio para gravação de discos e uma estação de rádio batizada de Amnésia, única a transmitir ritmos típicos na região metropolitana do Recife.

— Coco é música que tem raiz, e a gente transforma isso em outras coisas. Só a música no palco não basta. Faço programas de rádio para as crianças da região, já que não dá para colocar as Paquitas para divertir crianças pretas do Nordeste — diz Beth, que participa da live de hoje ao lado de nove músicos e dançarinos. — O on-line não dá conta nem de longe do que a gente faz. Mas é o que temos para hoje, e não podemos calar o coco, que nos remete à nossa ancestralidade.

Ritmos invisibilizados

Representantes de outras formações locais mantêm discursos afinados com o de Beth, profissional dividida entre diferentes realidades: ao mesmo tempo em que ela promove shows e oficinas de sucesso em países da Europa, sente-se invisível pelo mainstream no Brasil e perseguida por algumas correntes religiosas.

— Já respondi processo por “perturbação do sossego”. Uma vez, três carros de polícia vieram nos prender. O crime que eu cometi foi roda de coco — conta ela.

Presidente do Afoxé Alafin Oyó, associação carnavalesca que desfila nas ladeiras de Olinda desde os anos 1980, Fabiano Santos acredita que vertentes artísticas populares “parecem ter perdido para o conservadorismo”. Ele lamenta ouvir o silêncio no parapeito da janela de sua casa, no centro histórica da cidade. Não fosse a pandemia, o município já estaria pulando a folia.

Para se manter de pé, o grupo — que já gravou três discos e participou de festivais em países como Cuba, Itália e Inglaterra — tem promovido lives. Amanhã, 12 integrantes da banda entoarão músicas conhecidas em rodas de samba no Rio, como a letra “Rainha Matamba”, no repertório do Jongo da Serrinha.

— É difícil não ter o termômetro do público, ainda mais no caso de quem trabalha com carnaval — ressalta Fabiano.

Encerra o evento o tradicional Maracatu Estrela Dourada, de Buenos Aires, município com pouco mais de 13 mil habitantes na Mata Norte pernambucana, e que faz da internet sua avenida pela primeira vez. A agremiação foi a campeã do último concurso de carnaval no Recife. É a chance do público carioca conhecer a folia embalada por tintas coloridas e ritmos além do samba.