Positividade tóxica: o que é, como se manifesta e de que maneira nos atinge

Marcia Disitzer
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No último dia de 2020, Ligia Parreira escreveu um post no Facebook que começava assim: “Poderia fazer um textão, como em todos os anos, falando de gratidão e aprendizado. Não vai rolar, porque não sou grata a p. nenhuma que aconteceu neste ano. Não tem essa de positividade tóxica. Esse ano, quem está vivo está um pouco morto. Se você está feliz, efusivo e completo, a probabilidade de você ser um psicopata é grande”. O desabafo da estilista carioca de 39 anos foi consequência de um sofrimento intenso num curto espaço de tempo: em seis meses, ela perdeu o padrinho, vítima da Covid-19, e o pai, que teve um infarto fulminante. Uma tia, muito abalada com a morte do irmão, sofreu um AVC e está em recuperação. Enquanto se permitia vivenciar o luto, Ligia esbarrou em conselhos inócuos de pessoas que sugeriam que ela mantivesse o “pensamento positivo”. “Chega a ser falta de empatia, além de refletir um olhar superficial sobre a vida. E ainda faz a gente sentir culpa por estar sofrendo”, analisa.

A positividade tóxica citada por Ligia é como está sendo chamado um tipo de comportamento que invadiu as redes sociais e também a vida real. “São mensagens prontas e conceitos rasos difundidos muito rápido na internet. É uma espécie de imposição da gratidão”, explica a gaúcha Julia Cazuny, de 29 anos. Professora de inglês e português e mãe de santo, ela trouxe o assunto à baila em postagens no Instagram. “O tema já me incomodava antes de 2020. Porém, a partir da pandemia, passei a ler com mais frequência frases do tipo ‘o coronavírus veio para nos transformar e nos elevar’, ‘tem que vibrar coisas boas, do contrário, vai atrair tristeza’ ou ‘a dor é inevitável, mas o sofrimento é opcional’. Em paralelo, observava a desestruturação, em vários níveis, de pessoas ao meu redor”, relata. Depois de uma sessão de terapia, Julia conseguiu definir o que estava presenciando: “A invalidação do sentir do ser humano. Eu, por exemplo, atravessei questões emocionais muito duras no ano passado. O que se espera dos outros, nesses momentos de dor, é acolhimento”, pondera.

Ela também ressalta a questão social inserida nesse contexto: “A lei da atração até existe, mas não subverte a lei material e a lei social vigente”, escreveu numa das postagens. Julia ainda destaca o cuidado que se deve ter antes de aderir a terapias holísticas. “Não invalido os benefícios dessas técnicas. Porém, existe um novo grupo dentro da espiritualidade, com formações rápidas e caras. É preciso estar atento ao profissionalismo”, observa.

O escritor André Carvalhal, que compartilhou publicações de Julia, frisa que as críticas feitas à positividade tóxica não são contra o otimismo. “Mas não dá para cair numa falsa noção de positividade sem considerar fatores internos e externos”, avalia. Questões estruturais da sociedade, diz Carvalhal, não serão transformadas somente por meio de “boas vibrações”. “A força do pensamento não vai ser maior do que as estatísticas que revelam quem são as maiores vítimas da Covid-19. A construção e a mudança da realidade também devem estar relacionada às ações”, emenda.

Psicanalista e membro da Escola Lacaniana de Psicanálise do Rio de Janeiro, Abílio Ribeiro Alves lembra que vivemos numa cultura em que há o imperativo da urgência e da felicidade. “Saídas rápidas fazem oposição ao sofrimento, sobretudo em tempos difíceis. Além disso, superpõe-se a culpabilidade moral, como se a positividade tivesse que estar sempre à mão”, avalia. Segundo Abílio, ao colocar todas as fichas no pensamento positivo, o indivíduo crê que será recompensado pelo universo com uma melhora. “Já a psicanálise acredita que é a partir do atravessamento da dor que se dará a promoção da ‘cura’”, compara.

Para a psicóloga Marta Monteiro, a geração das redes sociais sofre de positividade, além de tóxica, compulsiva. “Se somos humanos, frequentamos os dois lados. Sentimos, além de dor, raiva, angústia, frustração... Não adianta fugir. Uma hora a conta chega”, finaliza.