Possível adeus de Ramos e Zidane sinaliza ao Real Madrid o fim de sua era mais vitoriosa no século

·7 minuto de leitura

Julho de 2018. O torcedor do Real Madrid acordava com uma notícia chocante: Cristiano Ronaldo, maior artilheiro da história do clube, estava de saída à Juventus. Após quatro Champions, dois títulos de La Liga, duas Copas do Rei e 450 gols, o português compunha o primeiro ato de um ainda vitorioso, mas cada vez mais sinalizado processo de transição no Santiago Bernabéu.

Poucos dias antes, o técnico Zinedine Zidane já havia anunciado a saída do clube. Sob o comando do francês, um dos integrantes mais badalados dos times galáticos dos anos 2000, os merengues encontraram a sinergia perfeita e, mesmo em temporadas longe de ser brilhantes, faturaram o inédito tricampeonato europeu na era Champions. E é Zidane quem pode dar, novamente, os primeiros passos para as mudanças no clube.

— Como eu vou dizer para meus jogadores que estou saindo quando estamos colocando tudo em jogo? No fim da temporada, veremos isso, mas atualmente estou focado na partida final — despistou o técnico, dias antes da última rodada de La Liga, que acabou com o Atlético de Madrid campeão.

Os rumores são fortes. Raúl, ídolo e técnico do time B do clube, seria um dos favoritos. Outros candidatos especulados são o italiano Massimiliano Allegri, pentacampeão nacional pela Juventus, e até o Carlo Ancelotti, comandante que iniciou a nova era de conquistas europeias, na temporada 2013/2014.

— O Real Madrid está em transição desde a saida do Cristiano. O objetivo do Florentino era reformar o Bernabéu, e a pandemia ajudou o clube nesse sentido (com o mando de jogos no Alfredo Di Stéfano), adiantou em quase um ano e meio a reforma. Eu não sei se vai ser já ou na próxima temporada, mas o clube está prestes a fazer uma reformulação, porque ele já cumpriu esse objetivo — diz Fernando Kallás, jornalista radicado na Espanha e comentarista do Grupo Globo.

Adeus?

Assim como Zidane, outras bombas podem estourar em Madri nos próximos dias. Sergio Ramos, o icônico capitão e autor de gols históricos nas conquistas continentais do clube, parece longe de conseguir chegar a um acordo por sua renovação. Negociar com a diretoria merengue é sempre uma tarefa complicada, até mesmo para um ídolo como Ramos, que tem contato próximo com o presidente Florentino Pérez. Na atual temporada, o zagueiro convive com lesões.

"O jogador de 35 anos está tentando garantir uma renovação de dois anos, enquanto Pérez só oferece um contrato de um ano. Um dos lados terá que ceder, eventualmente. Mas se não acontecer, Ramos deixará o Real Madrid", garante o jornal espanhol "Marca".

— Sergio Ramos no PSG? Não vou responder porque tudo pode ser mal interpretado. Sergio é um jogador do Real Madrid — disse o técnico do clube francês, Mauricio Pochettino, na última semana, em tom de mistério. O Parque dos Príncipes é um dos destinos especulados para o zagueiro, caso não renove com os merengues.

O períodico destaca que esta pode ser uma "semana do adeus" no Bernabéu. Jogadores que já foram grandes pilares das conquistas do clube, mas que hoje enfrentam uma dramática perda de espaço, são outros que podem estar na rota de saída. São esses os casos de Isco, há oito anos em Madri, e do brasileiro Marcelo, ídolo merengue que veste a camisa dos blancos há 14 anos, desde que chegou do Fluminense, ainda com 18 anos de idade.

A imprensa europeia ainda especula a saída de outros jogadores. O zagueiro Varane, um dos ativos mais valiosos no Bernabéu, pode estar mudando de ares, à medida em que entra na mira de clubes ingleses. O contestado Lucas Vázquez, jogador de confiança de Zidane, é outro que pode fazer o caminho de saída.

Benzema, Vinícius Junior e o futuro

De volta à seleção francesa após o afastamento de cinco anos, Karim Benzema vai para a Eurocopa com a moral de líder técnico da equipe. Aos 33 anos, o atacante tem sido peça fundamental para manter o Real Madrid competitivo, em especial após a saída de Cristiano, quando alternou do papel de coadjuvante de luxo para protagonista. Qualquer mudança, transição ou projeto de futebol a ser implementado em Madri deve ter o atacante francês em mente, que vive seu melhor momento individual na metade final da carreira.

Atrás apenas de Messi (25), Benzema foi o artilheiro e principal jogador da conquista de La Liga em 2019/20, com 21 gols marcados. Na atual edição, terminou com 23. Paulo Calçade, jornalista e comentarista dos canais Disney, ressalta Karim como o grande jogador da equipe, de "personalidade competitiva". O comentarista faz elogios ao artilheiro e inclui ao seu lado o volante Casemiro.

— Ele é um absurdo. Assumiu as "broncas" que o Cristiano assumia, passou a fazer mais gols. É um atacante que chega muito bem, mas não mora na área, além de ser praticamente quem inicia as jogadas no meio de campo, e gosta de evoluir junto com a jogada para entrar na área e finalizar. Casemiro é o segundo maior artilheiro (empatado com Asensio, também com 7). A temporada dele é gigantesca, e ele é reconhecido por Zidane.

Enquanto o francês é o ponto de experiência da equipe, a diretoria merengue precisará aprender a lidar, também, com a inexperiência. O já titular Vinícius Júnior, bem como Rodrygo e Odriozola, se somam a jovens valores atualmente emprestados, como Odegaard (Arsenal), Reguilón (Tottenham), Reinier (Borussia Dortmund) e Takefusa Kubo (Getafe), como potenciais candidatos às vagas que surgirão na próxima temporada. Mas se Pérez quiser evitar instabilidade e um longo intervalo de tempo até que tal transição seja feita, precisará abrir os cofres para que reforços com mais tempo de jogo possam trazer tranquilidade à garotada.

— Acredito que uma das coisas que o Florentino vai exigir do novo técnico é que consiga desenvolver o Vinicius. O objetivo é ser o Vinicius que se viu contra o Liverpool — aposta Kallás.

O jornalista prevê um novo comandante — no caso da saída de Zidane — que trabalhe bem com jovens jogadores, perfil oposto ao do francês:

— Existe uma resistência muito grande do Zidane a usar jovens. Ele gosta de veteranos, jogadores de confiança. Demorou muito para o Vinícius ter a confiança dele.

Ao mesmo tempo, o clube precisa olhar para seu meio-campo. Casemiro, Kroos e Modric, o trio que apavorou muitos dos gigantes europeus, já não tem mais o antigo vigorl. Bola de Ouro em 2018, o croata fará 36 anos em setembro, e passará a descansar com mais frequência. Kroos (31) e Casemiro (29) têm mais tempo pela frente, mas não poderão estar sempre juntos em campo. No setor, o jovem Fede Valverde vem ganhando espaço, mas é o único reserva capaz de desempenhar tarefas iguais ou semelhantes às do trio em campo.

— Tanto o Real Madrid quanto o Barcelona passarão por uma reforma muito grande. O Madrid tem um elenco muito desequilibrado. É um time que tem quatro jogadores no meio de campo. Tem um substituto (Valverde) para todas as funções — avalia Calçade.

O futuro de Hazard

A decisão que deve mais chamar atenção no mercado de transferências, porém, deve ser quanto ao futuro de Eden Hazard. O meia-atacante belga sofre com lesões sistemáticas e não conseguiu fazer mais que 43 partidas em duas temporadas de clube. Colocá-lo novamente no mercado, aos 30 anos, tem sido uma versão que ganha força entre os torcedores do clube nas redes.

— O Hazard veio para ser a grande contratação após a saída do Cristiano, para dar uma resposta. E não aconteceu nada — diz Calçade, antes de enumerar alguns problemas que os merengues podem enfrentar no mercado de transferências:

— No mercado, quem quer vender, ignora a pandemia e quer trabalhar com preços antigos. Quem quer comprar, fala "peraí, estou em uma pandemia, não posso pagar esse valor". A gente fala, nesses casos, do Borussia Dortmund, que tem o Haaland, ou do Harry Kane, que quer sair do Tottenham, mas não sabe quanto o clube vai pedir, por ter dois anos de contrato.

Quando reabrir suas portas, em 2023, o reformado Santiago Bernabéu certamente verá um Real Madrid bem diferente do que deixou. Antes disso, a temporada 2021/22 promete ser a primeira amostra do que o futuro trará aos merengues nestes novos anos 20, um novo ponto de partida após a era mais vitoriosa do clube no século XXI.