Posse de Lula será segura, mas exige precauções, diz chefe da segurança do DF

***ARQUIVO*** BRASÍLIA, DF,  BRASIL,  10-11-2022 - O presidente eleito, Lula (PT), discursa no CCBB em reunião com parlamentares. (Foto: Gabriela Biló/Folhapress)
***ARQUIVO*** BRASÍLIA, DF, BRASIL, 10-11-2022 - O presidente eleito, Lula (PT), discursa no CCBB em reunião com parlamentares. (Foto: Gabriela Biló/Folhapress)

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - O secretário de Segurança Pública do Distrito Federal, Júlio Danilo, disse à Folha de S.Paulo que, apesar dos "riscos naturais", a posse do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT) será segura.

Para ele, a polarização política e os discursos inflamados de opositores do petista justificam medidas de precaução. Entre elas, a decisão de se fazer linhas de revista, para que todo o público na Esplanada dos Ministérios seja fiscalizado pelas forças de segurança.

"O presidente desfila em carro aberto, público muito grande. Fica sempre aquele temor, se alguém vai tentar atacar. Mas vai ser bem planejado, a gente tem costume de fazer esse tipo de segurança", disse.

"[As pessoas que querem ir à posse] podem se sentir seguras. Nós estamos prontos para oferecer segurança às pessoas. A democracia é assim", completou.

Delegado da PF (Polícia Federal), Júlio Danilo ainda afirma que não há tratamento desigual entre as manifestações da esquerda e os atos antidemocráticos em frente ao QG do Exército, que pedem um intervenção para impedir a posse de Lula.

"Nós tivemos o resultado das eleições, vem essas manifestações e uma onda de ameaça de invasão a prédios públicos, ameaça aos Poderes da República. A gente faz o possível para que isso não ocorra", completou.

Ele disse ainda que a atribuição para apurar as ilegalidades dos protestos é da Polícia Federal, e não do DF, e que a área ocupada pela manifestação em Brasília é de responsabilidade dos militares.

PERGUNTA - Como o senhor vê as manifestações que estão sendo feitas na frente do QG do Exército?

JÚLIO DANILO - Essas manifestações que estão ocorrendo hoje começaram de forma diferente. Eles foram para frente do QG e começaram a se estabelecer. A diferença é que lá é área militar. Todo o Setor Militar Urbano é da gestão do Exército Brasileiro.

[No QG do Exército] eu não posso simplesmente atuar diretamente, tem que ser sempre em coordenação com eles. Se [a manifestação] é na área central [de Brasília], a gente pega, fala que não pode [fazer instalações] e decide como proceder.

Nós tivemos também os bloqueios [de rodovias] aqui em Brasília, mas conseguimos desfazer rapidamente. Começou numa segunda-feira, nós mapeamos e na terça-feira de manhã já não tinha bloqueio.

P. - Teve a chegada daqueles 115 caminhões na semana passada. Essa movimentação preocupa?

JD - Com a vinda dos caminhões, a gente ficou um pouco assustado. Não digo assustado, e sim atento, porque tivemos o episódio do 7 de Setembro [de 2021], quando eles ocuparam a área central, ficaram durante um tempo [na Esplanada dos Ministérios]. Deu trabalho para desocupar.

Então, quando eles estavam vindo a gente começou a fazer contatos. Falei com o povo do Mato Grosso, Goiás, Bahia. Eles foram monitorados, a Polícia Rodoviária Federal foi passando informação, e conseguimos interceptar os caminhões na entrada da cidade.

Surgiram demandas para a gente impedir a entrada dos caminhões na cidade, mas é o direito de ir e vir, né? O jeito foi encontrar um espaço para que os veículos ficassem parados e monitorar.

P. - Teve a chegada dos 115 caminhões em comboio, tem comida de graça para os manifestantes na porta do QG do Exército. São indícios de que há uma organização por trás dos atos?

JD - As lideranças são muito esparsas, você tem diversos grupos e pessoas. Tem alguns mais efusivos, que trazem caixa de som e carro e tentam inflamar, outros mais tranquilos. Chegaram alguns caminhoneiros de fora muito mais agitados e querendo ir para a área central da cidade. Eu tive de mandar negociador lá e disse "tira isso da cabeça [dos manifestantes], não vai sair do SMU (Setor Militar Urbano)".

P. - Numa decisão sobre as manifestações, Moraes cita um artigo da nova Lei de Segurança Nacional que fala em "tentar, com emprego de violência ou grave ameaça, abolir o Estado Democrático de Direito". Como o senhor observa as manifestações do ponto de vista legal?

JD - Eu não sei se eu posso fazer essa análise, até porque esse tipo penal é um tipo de atribuição da Polícia Federal, não seria nossa. E as manifestações estão ocorrendo dentro da área militar, ou seja, nossa atribuição na Secretaria de Segurança Pública está sendo cumprida. Seria uma avaliação muito particular.

Tem que buscar elementos concretos para que a gente pudesse fazer adequação do fato ao tipo penal -e isso seria atribuição da Polícia Federal. Eventualmente, cometimento de crimes dentro dessa área militar pode ser considerado um crime militar. Eu não tenho como fazer essa avaliação.

P. - Não há um tratamento diferenciado das forças de segurança neste movimento em comparação com atos da esquerda?

JD - Da nossa parte, não houve tratamento diferente. Se quisessem se estabelecer, montar barraca na área central de Brasília, nem de direita a gente tem permitido isso. Eu não considero que a gente faça tratamento desigual.

P. - O Comando Militar do Planalto chegou a pedir ajuda para limpeza urbana, e um dos objetivos era mitigar o comércio dos ambulantes. Mas a estrutura segue crescendo, e os ambulantes continuam. Como tem sido feito o trabalho?

JD - O DF Legal atuou lá [no controle dos ambulantes]. O problema é que a gente tenta reprimir o comércio ambulante, o pessoal retira [as mercadorias], mas passa meia hora e o pessoal volta.

P. - A Praça dos Três Poderes está interditada, por causa dos caminhões. Como garantir a segurança dos prédios e autoridades sem retirar o contato da população com a cidade?

JD - Eu também estou incomodado com a praça fechada, mas é uma ação preventiva. Tem um pedido formal do Supremo [Tribunal Federal] para que a gente mantenha [o espaço] fechado. Tem vários caminhões na cidade e, apesar de estar tudo sob controle, a gente preferiu manter a Praça dos Três Poderes fechada. A gente vive um momento diferente. Nós tivemos o resultado das eleições, vem essas manifestações e uma onda de ameaça de invasão a prédios públicos, ameaça aos Poderes da República. A gente faz o possível para que isso não ocorra.

P. - Como estão se planejando para a posse?

JD - A equipe de transição, inclusive com a primeira-dama, é que vai preparar a festa. Toda a segurança do perímetro é responsabilidade nossa. Controle de trânsito, de acesso das pessoas. A gente vai botar uma linha de revista -é natural, isso ocorre em toda a manifestação-, para evitar que alguém entre com canivete, com arma, fogos de artifício.

P. - Na campanha, a PF colocou o Lula na classificação de risco nível 5, a mais alta. Para esse período de transição e posse, continua grande a preocupação?

JD - Na campanha a exposição é muito maior, o próprio candidato quer ter contato com o público. Quando você sai da campanha, consegue fazer um controle maior. Na campanha, é o caos quando o político quer sair, abraçar e beijar -aquilo é um risco tremendo.

Eu acho que ainda está muito polarizado. A gente vê que as pessoas estão com discurso muito inflamado. Então eu acho que tem um risco natural, não se pode descuidar disso.

Por isso nós tomamos todas as precauções. Mas é aquilo: o presidente desfila em carro aberto, público muito grande. Fica sempre aquele temor, se alguém vai tentar atacar. Mas vai ser bem planejado, a gente tem costume de fazer esse tipo de segurança.

P. - O cenário ideal é que não tenha mais manifestação até a posse?

JD - Pode ocorrer, mas temos bastante tempo até lá. A gente acha que [o número de caminhões] pelo menos será reduzido até janeiro, falta um mês e meio [para a posse]. Se quiserem tentar algum tipo de confronto, a gente vai verificar essa situação para evitar. Mas é o que eu falo: nós não tivemos nenhum tipo de situação parecida com essa nos últimos quatro anos.

P. - As pessoas que querem ir à posse podem se sentir tranquilas?

JD - Podem se sentir seguras. Nós estamos prontos para oferecer segurança às pessoas. A democracia é assim.

P. - A conversa de que o ministro da Justiça, Anderson Torres, volta para o Governo do Distrito Federal tem fundamento?

JD - Eu acho que há conversas nesse sentido, até porque o ministro já esteve no GDF (Governo do Distrito Federal), fez um ótimo trabalho quando passou por aqui, apresentou bons índices. E, mudando o governo, lógico que há a possibilidade de ele voltar. O governador sempre gostou muito dele, existe essa possibilidade.

P. - A identificação do Anderson com o Bolsonaro pode atrapalhar o trabalho da Secretaria de Segurança Pública?

JD - É comum a parceria da pasta com o governo federal. Eu acho que quando a gente se comporta de forma técnica, tentando buscar a atuação voltada ao atendimento do interesse público, eu acredito que a gente consegue quebrar algumas resistências. Não tenha dúvida que ele estava em um governo de oposição [ao Lula] e, logicamente, quem está no DF tem que fazer essa interlocução com o governo federal.

O ministro Anderson é habilidoso e acho que vai conseguir, dependendo da pasta, se relacionar mais ou menos com o governo federal, mas tem possibilidade de ele superar essa diferença.

RAIO-X

JÚLIO DANILO SOUZA FERREIRA, 46

É formado em direito e delegado da Polícia Federal desde 2002. Está secretário de Segurança Pública do Distrito Federal desde março de 2021. Na PF, já passou por vários setores e chefiou áreas como a de Investigação de Desvios de Produtos Químicos e a de Operações de Repressão a Drogas. Também foi adido na Bolívia.