Posse de Trump em 2017 teve limusine queimada, imagens oficiais manipuladas e discurso nacionalista

Filipe Barini
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Ao jurar sobre a Bíblia que está com sua família desde 1893, Joe Biden cumprirá um ritual que marca a chegada de um novo líder à Casa Branca, no qual tenta passar as ideias que nortearão seu governo. Há quatro anos, a posse de Donald Trump ao poder serviu como prévia do que seriam seus quatro anos na Presidência.

Depois de uma eleição que dividiu os EUA e levou a primeira pessoa sem qualquer experiência política ao comando do país, Trump seguiu os protocolos dos dias e horas antes da posse, incluindo uma visita à Casa Branca, onde ele e a primeira-dama, Melania, foram recebidos por Barack Obama e a então primeira-dama, Michelle. Na véspera, um show na capital americana trouxe artistas alinhados ao republicano, em um concerto com seu lema político, o “Faça os EUA Grandes Novamente”, ou MAGA, na sigla em inglês.

Diante do Capitólio e de uma multidão nos jardins, os ex-presidentes Barack Obama, Bill Clinton, George W. Bush e Jimmy Carter, além dos ex-vices Dick Cheney e o próprio Joe Biden, estavam entre os convidados de honra. Apesar dos cumprimentos, o clima não era exatamente amistoso. Em sua biografia, publicada anos depois, Michelle Obama revelou que “nem tentou sorrir” naquela tarde de 20 de janeiro.

A ex-senadora Hillary Clinton, derrotada por Trump semanas antes, estava presente — no ano passado, disse que aquele foi “um dos dias mais difíceis de sua vida”.

Depois do juramento, Trump fez um discurso relativamente curto, 16 minutos, mas que refletiu sua campanha e as ideias que aplicaria. O tom nacionalista e populista pintou uma imagem de um país devastado e mergulhado em crime, algo refutado por historiadores e analistas, e sugeriu que uma “carnificina” estava em curso. Ao mesmo tempo, atacou a classe política de Washington, prometendo “devolver o poder ao povo”, levantando questões sobre as próprias fundações políticas dos EUA.

— As vitórias deles (classe política) não foram suas vitórias. Os triunfos deles não foram os seus. Enquanto celebravam na capital da nossa nação, havia pouco a celebrar nas famílias ao redor do país — declarou Trump. — Tudo isso muda, começando aqui e agora, porque esse é o seu momento, ele pertence a vocês.

A fala ainda consolidou o isolacionismo e excepcionalismo exacerbado que marcaria a diplomacia americana, o “EUA em primeiro lugar”.

— Precisamos proteger nossas fronteiras dos ataques de outras nações, que estão fazendo nossos produtos, roubando nossas companhias e destruindo nossos trabalhos. Proteção vai levar a maior prosperidade e força.

Do lado de fora do perímetro de segurança, a posse foi marcada por dezenas de atos, em sua maior parte pacíficos. Mas alguns opositores preferiram uma abordagem mais violenta. Em questão de horas, dezenas de carros e lojas foram depredados. Alguns tentaram montar barricadas para impedir que os apoiadores do presidente chegassem ao evento e houve confronto com a polícia ao longo do dia, com o uso de bombas de gás e spray de pimenta.

Na imagem mais simbólica, uma limusine foi incendiada e depredada, e o fogo danificou uma van da Fox News que estava estacionada ao lado. Ao todo, cerca de 230 pessoas foram detidas, mas a maioria não chegou a ser processada. No dia seguinte, a capital americana voltou a sediar um grande protesto, desta vez completamente pacífico: a Marcha das Mulheres, que reuniu cerca de meio milhão de pessoas.

Ainda falando em números, o público que acompanhou a posse de Trump até hoje é alvo de controvérsias. No dia seguinte à posse, o então porta-voz da Casa Branca, Sean Spicer, disse que aquela havia sido a cerimônia “mais assistida presencialmente e ao redor do mundo”, muito embora os fatos não lhe fossem tão favoráveis.

Segundo estimativas, o público em Washington ficou entre 300 mil e 600 mil — o Serviço Nacional de Parques não divulgou números oficiais. Para efeito de comparação, cerca de 1,8 milhão de pessoas acompanharam a posse de Barack Obama em 2009. Segundo documentos internos do governo, revelados pela imprensa americana em 2018, um fotógrafo admitiu ter editado as imagens da multidão para que parecesse maior do que foi na realidade. O profissional, que não teve o nome revelado, afirmou que a ordem veio do próprio Trump.