Posses paralelas de dois presidentes geram crise institucional no Afeganistão

Por Najiba NOORI y Wakhil KOHSAR
Presidente afegão, Ashraf Ghani, em 3 de março de 2020 em Jalalabad

O chefe de Estado Ashraf Ghani e seu principal adversário, Abdulah Abdulah, declararam-se presidentes do Afeganistão nesta segunda-feira, mergulhando o país, que se prepara para negociações de paz com o talibã, em uma crise institucional.

Enquanto ambos os políticos tomavam posse pelo mesmo cargo em cerimônias distintas, duas explosões sacudiam Cabul, em uma demonstração do nível de insegurança no país, um dia antes do início do diálogo interafegão previsto no acordo assinado em 29 de fevereiro em Doha pelos Estados Unidos e pelos insurgentes talibãs.

O grupo Estado Islâmico (EI) reivindicou o atentado e afirmou ter lançado dez foguetes. O ministério do Interior contabilizou somente quatro, e um policial ferido.

"Não tenho colete à prova de balas, apenas minha camisa. Continuarei [no cargo] embora tenha que me sacrificar", disse Ghani, depois de ter jurado "obedecer e proteger a santa religião do islã" e "respeitar e supervisionar a aplicação da Constituição".

Ghani, usando um grande turbante branco, tomou posse diante de um grupo de diplomatas minutos antes de Abdulah Abdulah, que perdeu nas eleições de setembro de 2019, também se declarar presidente do Afeganistão em outra ala do palácio presidencial.

"O povo afegão me confiou uma enorme responsabilidade e estou determinado a servi-lo", disse o ex-primeiro-ministro Abdulah Abdulah.

A situação lembra os piores momentos das eleições de 2014, nas quais os dois protagonistas afirmaram ter vencido. A crise constitucional durou três meses e foi resolvida com a mediação dos Estados Unidos.

O incidente ocorreu na véspera do início do diálogo interafegão, que reunirá os talibãs, as autoridades, a oposição e a sociedade civil na terça-feira, para tentar encontrar um espaço para consenso sobre o futuro do país. A divisão dentro do executivo enfraquecerá Cabul e fortalecerá as posições dos insurgentes.

"Nada é mais importante para esses escravos do que seus interesses pessoais", disse o porta-voz dos talibãs, Zabihulah Muyahid, entrevistado pela AFP.

Os diálogos para chegar a um acordo se prolongaram pela madrugada dessa segunda-feira, mas não evoluíram.

A situação pode atrasar as negociações interafegãs, previstas no acordo de Doha, em que os Estados Unidos se comprometeram a retirar suas tropas do país.

Ashraf Ghani se recusa a cumprir um dos principais compromissos do texto, que seu governo não ratificou: a libertação de até 5.000 prisioneiros talibãs em troca de até 1.000 membros das forças afegãs.

- "Interesses pessoais" -

Os dois políticos perderam a confiança de uma grande parte da população.

"É impossível ter dois presidentes em um país", disse Ahmad Jawed, um desempregado de 22 anos que pediu a ambos os candidatos que "deixassem de lado seus interesses pessoais e pensassem em seu país, em vez de lutar pelo poder".

Nas últimas eleições presidenciais, cujos resultados foram anunciados em fevereiro em meio a um grande número de denúncias de irregularidades apresentadas pelos candidatos, Ashraf Ghani obteve 50,64% e Abdulah Abdulah, 39,52%.

o entanto, o candidato derrotado rejeitou os resultados e os rotulou de "traição nacional".

Enquanto isso, os insurgentes encerraram uma trégua parcial de nova dias em 2 de março e retomaram os combates contra as forças de segurança afegãs nas áreas rurais, matando dezenas de pessoas em uma semana.

A capital também não se livrou da violência: um ataque, reivindicado pelo grupo jihadista Estado Islâmico, causou 32 mortos e dezenas de feridos na sexta-feira.