Possibilitar a morte e impedir os nascimentos, as obsessões de Bolsonaro

Paulo Lopes/Futura Press

Por José Antonio Lima (@zeantoniolima)

O deputado federal Jair Bolsonaro, candidato do PSL à Presidência da República, parece ter um problema com pessoas vivas. A julgar por suas propostas – da violência urbana ao saneamento básico, passando pela miséria – o discurso do parlamentar costuma envolver soluções que possam provocar a morte de seres humanos ou evitar que eles nasçam.

Tomemos o exemplo mais conhecido, o da segurança pública e da violência nas grandes cidades, pautas preferidas do capitão da reserva do Exército. Neste campo, Bolsonaro tem várias ideias, como aumentar o número de prisões e reduzir a maioridade penal, mas seus carros-chefe são a pena de morte, para que o Estado execute pessoas, e armar a população, para que essa possa, ela própria, cuidar de sua segurança e, em último caso, matar os criminosos. “Arma é garantia de nossa liberdade”, disse Bolsonaro em março, em Curitiba. “Presidente tem que meter bala em vagabundo e não formar quadrilha com eles”, completou.

A mesma solução é apresentada por Bolsonaro para resolver conflitos no campo. “No que depender de mim, o homem do campo vai ter fuzil em sua propriedade”, disse Bolsonaro em maio durante uma feira agrícola em Brasília. Cabe destacar que a ideia não é apenas conter a violência nas zonas agrícolas, que tem diversas peculiaridades, mas proporcionar aos fazendeiros a possibilidade de assassinar militantes de movimentos como o dos sem-terra. Segundo Bolsonaro, é “inconsequente e irresponsável” deixar os grandes produtores “à mercê do MST e outros tipos de bandidagem”.

Bolsonaro tem também uma obsessão antiga com a proposta de impedir que pessoas pobres tenham filhos. Essa é sua solução para problemas como a miséria e para impedir que programas sociais como o Bolsa Família “engordem”. Recentemente, o repórter Ranier Bragon, do jornal Folha de S.Paulo, resgatou diversos comentários de Bolsonaro nessa linha e mostrou que desde 1992 e 1993 o deputado fala de “controle de natalidade”. “Defendo a pena de morte e o rígido controle de natalidade, porque vejo a violência e a miséria cada vez mais se espalhando neste país”, afirmou. Em 2008, também destacou a Folha, Bolsonaro voltou a dizer que “só o controle da natalidade pode nos salvar do caos”.

Quando Bolsonaro qualifica de “rígido” o controle de natalidade proposto, ele não está falando sobre possibilidades como educação sexual para conscientizar a população, facilitar o acesso a contraceptivos em instituições públicas de saúde ou sobre ampliar a distribuição de preservativos. Ele provavelmente está falando de esterilização forçada. Também em 2008, ainda segundo a Folha, o presidenciável descartou a educação como solução. “Não adianta nem falar em educação porque a maioria do povo não está preparada para receber educação e não vai se educar”, afirmou, para em seguida defender o controle de natalidade.

Um dos vários filhos políticos de Bolsonaro, Carlos, que é vereador no Rio de Janeiro, foi ainda mais claro. “Condicionar o Bolsa Família às cirurgias de laqueadura e vasectomia é estancar a ferida econômica e ainda combater a miséria e a violência”, escreveu ele no Twitter, em 2014. Na sequência, Carlos Bolsonaro apagou seu comentário, mas o pequeno texto serviu para demonstrar o pensamento da família.

Serviu para demonstrar, também, como as propostas dos Bolsonaros são, em larga medida, baseadas em preconceito e não em fatos. Por trás do comentário sobre o Bolsa Família está a lenda urbana de que os beneficiários do programa têm mais filhos para receber mais benefícios. Uma pesquisa divulgada pelo IBGE em 2015 colocou essa ideia cretina por terra.

Entre 2003 e 2013, mostrou a pesquisa, o número de filhos de até 14 anos caiu 10,7% no Brasil, sendo que no recorte das famílias que estão entre os 20% mais pobres, justamente os que podem pleitear o Bolsa Família, a queda foi de 15,7%. No Nordeste, região com diversos bolsões de pobreza e miséria, a queda no número de filhos foi de 26,4%.

Mais recentemente, Bolsonaro tentou negar que ainda defendesse um “controle de natalidade”. Mas foi traído por suas próprias palavras e afirmou que o governo deveria facilitar o acesso a cirurgias de laqueadura e vasectomia a quem desejar. Detalhe: Bolsonaro fez essa proposta no mês passado, ao falar em Brasília sobre saneamento básico e como melhorar a prestação deste serviço.

É uma proposta curiosa. Segundo pesquisa divulgada em fevereiro de 2017 pelo Instituto Terra Brasil e pelo Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento, apenas 83,3% dos brasileiros têm acesso a água encanada e pouco mais da metade, 50,3%, têm acesso a redes de esgoto. Diante desta realidade, a proposta de Bolsonaro é impedir que mais pessoas nasçam. A respeito da metade da população que não tem esgoto ele não tem nada a dizer.

Um dos raros momentos em que Bolsonaro fez uma proposta cujo objetivo era permitir que pessoas fiquem vivas foi ao tratar sobre a fosfoetanolamina, uma substância apelidada de “pílula do câncer”, mas que jamais foi testada em um ser humano. Bolsonaro, assim como a quase totalidade dos deputados, aprovaram a distribuição do “remédio”, depois suspensa pelo Supremo Tribunal Federal. “Desejo que as pessoas que estejam na última etapa do câncer possam buscar nessa droga a oportunidade de continuar vivendo”, afirmou.

Bolsonaro é um fenômeno, uma espécie de rebelião contra o sistema político e seus desvios. Continua em primeiro lugar nas pesquisas eleitorais sem Lula no páreo e pode ir ao segundo turno, apesar de muitos apostarem na desidratação de sua campanha. Enquanto estiver na disputa, será um desafio, não apenas ao sistema, mas também ao pouco de solidariedade que existe na sociedade brasileira e que precisaria ser estimulado para o país tentar deixar para trás o trágico legado de sua história. Seu triunfo seria o contrário disso: instalaria um governo cujo objetivo seria exterminar os “indesejáveis” ou impedir que eles venham a nascer.