Postura de Michelle sobre religiões africanas é criticada em grupos bolsonaristas

*Arquivo* BRASÍLIA, DF, 08.03.2022 - A primeira-dama, Michelle Bolsonaro. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)
*Arquivo* BRASÍLIA, DF, 08.03.2022 - A primeira-dama, Michelle Bolsonaro. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A postura da primeira-dama Michelle Bolsonaro sobre religiões de matriz africana gerou críticas até entre bolsonaristas nas últimas semanas. Várias mensagens que evocam respeito a todas as religiões e julgam que ela erra ao ligar rivais do marido ao demônio circularam em grupos favoráveis a Jair Bolsonaro (PL).

Análise do Observador Folha/Quaest, que monitora mais de 1.200 grupos de WhatsApp durante o período eleitoral, mostra que a tendência é de apoio a Michelle entre bolsonaristas, mas sem consenso.

A Quaest verificou, de 18 de julho a 22 de agosto, 360 mil menções relacionadas à primeira-dama e à socióloga Rosângela Silva, a Janja, mulher de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em 721 grupos políticos, tanto da direita como da esquerda. Depois, fez uma "análise de sentimento", que consiste em identificar se o conteúdo é relacionado a críticas e/ou ataques (negativo) ou a elogios e/ou apoio (positivo).

Em grupos pró-Bolsonaro, 63% das menções a Michelle são positivas, enquanto 37% (cerca de 63 mil) são negativas. Nessa fatia, estão as críticas à intolerância religiosa.

"Não sou de querer polemizar em um grupo, muitas vezes deixo de emitir um posicionamento para não parecer que estou lacrando. Mas não entendi por que a primeira-dama precisa postar uma coisa dessas. Esse tipo de conduta só reforça mais ainda a intolerância às religiões de matriz africana", afirma uma mensagem.

Outras mensagens destacam comentários como "nossa primeira-dama está aí servindo à intolerância religiosa", "o que a primeira-dama fez foi inadmissível", "falar que o Palácio [do Planalto] já foi dos demônios é um exagero" e "o que Bolsonaro e Michelle fazem com esse negócio de religião é uma completa intolerância e desrespeito com a opinião e religião alheia, é muita covardia".

Há também mensagens de tom crítico que parecem vir de possíveis infiltrados nos grupos. Um exemplo foi a divulgação de uma nota de repúdio da Frente Inter-religiosa Dom Paulo Evaristo Arns, segundo a qual as declarações da primeira-dama feriam o Estado de Direito e promoviam a cultura de ódio.

Em grupos lulistas, Michelle também teve menções negativas (97%), o que já era esperado. Da mesma maneira, Janja tem 88% de menções negativas em grupos bolsonaristas --cerca de 72 mil mensagens.

Janja foi relacionada a termos como "pomba-gira", "macumba" e "macumbeira". Em fevereiro, ela publicou uma fotografia na qual está com uma roupa branca e ao lado de imagens como a de Xangô, um dos orixás da umbanda e do candomblé. Na legenda, diz ter saudade de vestir branco e "girar, girar, girar...".

"Essa mulher do Lula e a gente do PT são tudo frango de macumba. Deus me livre...", afirma uma mensagem.

Outros comentários, como "sei que o desespero é tão grande que, agora que perdeu o apoio dos evangélicos e dos católicos, Janja apelou para a macumba kkk" e "pior é a macumba e a aliança da mulher de Lula com o diabo", também aparecem nos grupos bolsonaristas.

Em grupos lulistas, 96% das menções a Janja eram positivas. Considerando todas as citações, Michelle foi a mais lembrada, com 171 mil conteúdos, enquanto a mulher de Lula teve 116 mil. O volume de mensagens que mencionam ambas as esposas dos candidatos foi de quase 73 mil.

A luta pelo voto evangélico e o protagonismo de Michelle no início oficial da campanha do marido, uma tentativa de diminuir a rejeição de Bolsonaro entre as mulheres, são o pano de fundo dos ataques envolvendo religião, que se acentuaram nas últimas semanas.

As duas candidaturas têm investido na temática religiosa. Uma das fake news que mais atingiram a campanha de Lula foi a de que ele fecharia igrejas caso eleito. O petista, por sua vez, já afirmou que o adversário estava "possuído pelo demônio".

Na convenção do PL que oficializou a candidatura de Bolsonaro, em julho, Michelle discursou em tom evangelizador e endossou a ideia de guerra santa, em que Bolsonaro representa o bem, um "escolhido de Deus", e seus rivais, o mal.

"A reeleição é por um propósito de libertação, um propósito de cura para o nosso Brasil", disse ela, pedindo aos presentes: "Não negociem com o mal".

Poucos dias depois, em um evento em Minas Gerais, polemizou ao dizer que, por muitos anos, "o Planalto era consagrado a demônios".

Diante das críticas, Michelle compartilhou uma postagem com um vídeo antigo em que o petista participava de uma celebração da umbanda. "Isso pode, né! Eu falar de Deus, não". O vídeo foi publicado pela vereadora Sonaira Fernandes (Republicanos), que associou a religião às trevas.

"Não lutamos contra a carne nem contra o sangue, mas contra os principados e as potestades [poderes] das trevas", escreveu a parlamentar endossada pela primeira-dama.

O caso foi considerado intolerância religiosa, e Janja, sem citar nomes, escreveu em uma rede social que "Deus é sinônimo de amor, compaixão e, sobretudo, paz e respeito". "Não importa qual a religião e qual o credo. A minha vida e a do meu marido sempre foram e sempre serão pautadas por esses princípios."

Publicação do blog "pensandodireita" sobre o episódio foi o conteúdo mais viral do tema. Com 12 versões, o link foi compartilhado mais de 53 mil vezes em 201 grupos, com alcance estimado de 38 mil pessoas.

Entre o eleitorado evangélico, Bolsonaro tem 49% das intenções, contra 32% de Lula, de acordo com a mais recente pesquisa Datafolha, realizada de 16 a 18 de agosto. A distância aumentou entre os dois candidatos --de dez pontos percentuais em julho, foi para 17 no último levantamento.