Potenciais candidatos em 2022 terão palanque na CPI

JOÃO PEDRO PITOMBO
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SALVADOR, BA (FOLHAPRESS) - Criada na última terça-feira (13) no Senado, a CPI da Covid deve se firmar como uma vitrine para senadores que são potenciais candidatos nas eleições do próximo ano. Dos 11 prováveis membros titulares da comissão parlamentar de inquérito, 6 podem disputar governos estaduais e 2 devem concorrer à reeleição ao Senado em outubro de 2022. A CPI irá investigar ações e omissões da gestão Jair Bolsonaro na pandemia e a aplicação de verbas federais repassadas aos estados. Ela foi criada após determinação do STF (Supremo Tribunal Federal), medida que irritou o presidente e provocou novo desgaste na relação entre os Poderes. Por tratar da pandemia da Covid-19, assunto mais relevante do país no momento, e por acontecer em um ano pré-eleitoral, a CPI tem um cenário ideal ampliar o capital político de seus membros. Nas sessões da comissão, eles terão um espaço para demonstrar capacidade de trabalho, defender aliados e fustigar potenciais adversários nos estados de origem. Tradicionalmente, as CPIs com grande repercussão no Brasil costumam servir de vitrine para os seus membros. A CPI dos Correios de 2005, por exemplo, ainda no governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT), catapultou nomes como Eduardo Paes (DEM-RJ), ACM Neto (DEM-BA) e Gustavo Fruet (PDT-PR) --posteriormente, eles elegeram-se, respectivamente, prefeitos do Rio de Janeiro, Salvador e Curitiba. Na CPI da Covid, o principal membro do campo governista será Ciro Nogueira (PP-PI), que comandará a parte da tropa de choque do Planalto na comissão, atuando como uma espécie de anteparo para preservar o presidente. Em meio de mandato, o senador é pré-candidato ao Governo do Piauí no próximo ano e, com o apoio de Bolsonaro, tentará romper a hegemonia do grupo do governador Wellington Dias (PT) --que trabalha o nome do secretário estadual Rafael Fonteles (PT) para a sucessão. Outro membro governista da CPI que já anunciou publicamente que pretende concorrer à eleição do próximo ano é o senador Jorginho Mello (PL), pré-candidato ao Governo de Santa Catarina. Na CPI, Mello terá a oportunidade de mirar a artilharia contra o governador afastado Carlos Moisés (PSL), que é alvo de um processo de impeachment pela compra, sem licitação, de 200 respiradores que nunca foram entregues. Moisés foi afastado do cargo pela segunda vez em março deste ano. Desde então, quem comanda o estado é a vice-governadora Daniela Reinehr (sem partido), que é aliada de Jorginho Mello. Também governistas, os senadores Eduardo Girão (Podemos) e Marcos Rogério (DEM) podem concorrer, respectivamente, aos governos do Ceará e de Rondônia em 2022. Eleito de forma surpreendente em 2018, o primeiro deve ser o nome da oposição no Ceará, polarizando nas urnas com o candidato da base do governador Camilo Santana (PT), ainda não definido. Girão foi o senador que propôs e colheu assinaturas para o requerimento de criação de CPI da Covid para investigar estados e municípios; este acabou sendo unificado com o requerimento de comissão para investigar o governo federal, apresentado por Randolfe Rodrigues (Rede-AP). Ao justificar sua posição de apurar estados e municípios, Girão mirou Camilo Santana e o ex-prefeito de Fortaleza Roberto Cláudio (PDT), um dos nomes cotados para disputar a sucessão no Ceará em 2022. "Existem indícios de desvios dos recursos para o enfrentamento ao coronavírus em alguns entes federativos, inclusive no Ceará", disse Girão, citando como possível alvo de investigação a compra pelo Consórcio Nordeste de respiradores que foram pagos, mas não foram entregues. Ele ainda citou suspeitas de fraudes na construção do hospital de campanha do estádio Presidente Vargas, obra que foi tocada pela Prefeitura de Fortaleza (gestão do PDT). Dentre os sete nomes de partidos independentes ou de oposição que vão compor a CPI, dois podem disputar os governos estaduais e dois devem concorrer à reeleição ao Senado no próximo ano. Um deles é Eduardo Braga (MDB), senador em meio de mandato pelo MDB que é pré-candidato ao Governo do Amazonas no campo de oposição ao do atual governador, Wilson Lima (PSC), que é aliado de Bolsonaro. Lima foi alvo de uma operação da Polícia Federal após a compra de respiradores considerados inadequados e com suspeita de sobrepreço por meio de uma adega importadora de vinhos de Manaus. O Amazonas também enfrentou um colapso na saúde no início do ano, inclusive com falta de oxigênio nos hospitais para pacientes com Covid. Com postura independente no Senado, Braga é encarado como um nome mais palatável ao Planalto, que não terá maioria na CPI, para assumir um dos postos de comando da comissão, seja a presidência ou a relatoria. A estratégia é evitar que senadores como Randolfe Rodrigues e Renan Calheiros (MDB-AL), críticos recorrentes do presidente, ocupem cargos de destaque e aumentem o desgaste que a investigação pode provocar ao Planalto. Na oposição frontal a Bolsonaro, Randolfe está em meio de mandato e pode ser candidato ao Governo do Amapá. Desde o início da pandemia, ele tem evitado falar sobre a corrida eleitoral, mas aliados afirmam que o seu nome é o mais forte da oposição para enfrentar o grupo do governador Waldez Góes (PDT). Renan não será candidato no próximo ano, mas a CPI será a grande oportunidade para ele retomar parte do prestígio que já teve nacionalmente --tendo sido presidente do Senado por três vezes. Esta retomada é crucial para manutenção do poder de seu grupo político em Alagoas, onde seu filho, o governador Renan Filho (MDB), encerra seu segundo mandato e ainda não tem um candidato natural à sucessão. A visibilidade também serviria como um contraponto ao avanço do deputado federal Arthur Lira (PP), que ganhou espaço em Alagoas após ter sido eleito presidente da Câmara dos Deputados. A CPI ainda deve ter nomes como Humberto Costa (PT-PE), Tasso Jereissati (PSDB-CE), Otto Alencar (PSD-BA) e Omar Aziz (PSD-AM). Os dois últimos estão em fim de mandato e devem disputar a reeleição para o Senado em 2022.