Povoado da Inglaterra se rebela contra centro para solicitantes de asilo

Placa indica entrada principal da antigua base aérea militar de Linton on Ouse, em 4 de maio de 2022 (AFP/Oli Scarff) (Oli Scarff)

A serenidade que normalmente reina em Linton-on-Ouse foi substituída pela incompreensão. Esta cidade inglesa descobriu que o governo britânico quer abrir um centro para requerentes de asilo que triplicaria a população local. E se rebelou contra o projeto.

Steve, de 43 anos, soube do esquema em meados de abril enquanto passeava com seu cachorro na única estrada que atravessa esta cidade no condado de Yorkshire, no nordeste da Inglaterra.

"Alguns jornalistas me perguntaram o que eu achava do que estava acontecendo", explicou à AFP.

Ele foi então informado de que o executivo de Boris Johnson queria abrir um centro para requerentes de asilo em sua cidade, que as autoridades locais disseram ter capacidade para até 1.500 pessoas.

O projeto, que segue um modelo existente na Grécia, faz parte de um plano para reduzir as travessias ilegais do Canal da Mancha, que estão em alta apesar das promessas do governo de controlar a imigração após o Brexit.

De acordo com o ministério do Interior, o centro, numa antiga base militar, "ajudará o governo a acabar com a sua dependência dos hotéis" onde vivem dezenas de milhares de requerentes de asilo e que "custam ao contribuinte £ 4,7 milhões de libras por dia", ou seja, 5,8 milhões de dólares.

"Mas 1.500 pessoas em uma cidade de 700 habitantes... Há um problema de proporção", exclama Olga Matthias, outra moradora.

- "Todos perdem" -

Embora sejam a favor da acolhida de refugiados, Steve e Olga não entendem como o ministério do Interior pode ter escolhido Linton-on-Ouse para um projeto dessa magnitude.

"Não há nada para fazer aqui", diz Matthias, olhando para a rua deserta, ladeada por jardins imaculadamente cuidados.

O único pub fechou há muito tempo e a única mercearia vende pouco mais que jornais.

Há ônibus que circulam quatro vezes por dia para York, uma grande cidade a cerca de 15 km de distância, mas o custo de uma passagem (£ 6,50) excede o subsídio diário (£ 5,66) dado aos solicitantes de asilo.

"É uma situação em que todos perdem", diz Steve. "Eles têm direito a uma vida tranquila, principalmente depois de fugirem de seus países de origem. Mas como trabalhar por uma integração assim?", questiona.

Na sua opinião, Linton-on-Ouse não tem a infraestrutura necessária para lidar com a triplicação de sua população. A rede de esgoto? Já está falhando. Internet de alta velocidade? Inexistente, assim como a presença da polícia.

"Em termos de segurança, 1.500 homens a mais é uma ideia intimidadora", considera Mya Aston, de 19 anos.

Irritados por não terem sido consultados, os locais tentam impedir o projeto, antes da chegada dos primeiros requerentes de asilo.

Um deputado local, o conservador Kevin Hollinrake, diz que está considerando tomar medidas legais.

- "Fracasso" -

"Ninguém quer esse projeto. Nem a extrema-direita, nem os moradores, nem as organizações de refugiados. Apenas o ministério do Interior quer abrir este centro", reclama Nicola David, da Ripon City of Sanctuary, uma organização local de ajuda aos refugiados.

Embora o debate nas últimas semanas no Reino Unido tenha se concentrado no controverso plano de enviar alguns requerentes de asilo para Ruanda, ele diz que o caso Linton-on-Ouse é muito mais problemático.

"Ruanda foi chocante. Mas no final afetará muito poucas pessoas (cerca de 200 este ano, segundo cálculos da ONG Refugee Council) e há uma boa chance de que o projeto não seja realizado", diz.

Linton-on-Ouse "está realmente acontecendo, aqui e agora", diz David, preocupado com as condições de acomodação, especialmente porque o governo continua sem esclarecer sobre como o centro será administrado.

Ele cita o exemplo do quartel militar de Napier, perto da costa do Canal da Mancha, usado desde 2020 para abrigar requerentes de asilo e desde então criticado por suas péssimas condições de vida.

"Fazem de qualquer jeito, depois pedem desculpas e abrimos investigações que custam uma fortuna", aponta David.

"Que garantia temos de que Linton-on-Ouse não será um fracasso? E se for, o que faremos?", pergunta.

vg/acc/bl/mr

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos