Prêmio da Fifa: o que explica o nono lugar de Neymar em 2020

Rafael Oliveira
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A transmissão ao vivo feita por Neymar jogando video game enquanto a Fifa premiava os melhores do mundo foi um recado claro: o atacante não concordou com sua ausência entre os finalistas. Ao longo dos últimos dias, muitos torcedores e analistas de futebol brasileiros também protestaram. Até mesmo Richarlison usou sua rede social para apoiar o companheiro de seleção. Mas um olhar mais distanciado sobre a última temporada do camisa 10 do PSG e sobre a forma como a premiação tradicionalmente funciona mostra que, ainda que legítima, a indignação pode não ser justa.

O prêmio da Fifa aos melhores do mundo abre margem para a subjetividade e para o companheirismo entre votantes de uma mesma equipe ou país. Mas, até pela natureza do colegiado (577 pessoas, divididas entre capitães e técnicos de seleções e jornalistas) e a distribuição dos pontos (cada um elege os três melhores, com um peso para cada colocação), nem tudo se resume à camaradagem.

É praticamente senso comum que Neymar mostrou mais maturidade na temporada 2019/2020. Não discutiu com torcedores, desistiu de tentar forçar uma saída do PSG, não teve o nome envolvido em escândalos extracampos e, ainda por cima, levantou a bandeira da pauta antirracista, que entrou com força no mundo dos esportes. Mas, apesar de ter levado o clube francês a uma inédita final de Liga dos Campeões, sua trajetória esportiva foi muito prejudicada pelas lesões.

Em toda a temporada, Neymar entrou em campo 31 vezes, sendo 27 pelo PSG e mais quatro pela seleção. Ele participou de 55% dos jogos de seu clube. Ou seja: pouco mais que a metade. Ao todo, foram 2.606 minutos em campo. Mesmo num ciclo afetado pela pandemia de Covid-19, é muito pouco para ser visto e avaliado.

Em razão da contusão sofrida às vésperas da Copa América e da perda da pré-temporada do PSG, o brasileiro iniciou o ciclo 2019/2020 mais tarde que os demais companheiros de time. Além disso, sofreu duas lesões (uma na coxa e outra na costela) que o deixaram fora de combate por 50 dias.

Entre os outros nove mais votados, quem disputou número de partidas mais próximo de Neymar foi Mbappé (38), seu companheiro de PSG. Os demais registraram entre 43 e 54 jogos. O vencedor Lewandowski entrou em campo 53 vezes. Cristiano Ronaldo, segundo colocado, 52. Já Messi, que completou o pódio, 46.

Não é coincidência Neymar e Mbappé terem sido os que menos jogaram. Além das lesões, um fator que fez o brasileiro jogar pouco foi a suspensão do Francês. Ao contrário dos outros principais torneios europeus, que retornaram após a paralisação, a Ligue 1 foi declarada encerrada na 28ª rodada com o PSG como campeão.

Neymar, que ficou em nono na lista final, recebeu apenas sete votos para ser o melhor do mundo. Dois de seus companheiros de seleção: o zagueiro Thiago Silva e o técnico Tite. Além deles, votaram seu amigo Messi, que concorreu como finalista; o paraguaio Gustavo Gómez, do Palmeiras; o treinador brasileiro Márcio Máximo, da seleção da Guiana; o capitão da Coreia do Norte Jong Il-gwan e o técnico de Gana Charles Akunnor. Detalhe: nenhum jornalista do mundo votou em nele.

A paralisação do Francês jogou mais tempero no argumento de quem considera que, ao escolher a liga francesa, Neymar boicotou sua pretensão de ser melhor do mundo. Apenas uma vez o prêmio foi dado a um representante da Ligue 1. O libanês George Weah foi eleito em 1995, ano em que brilhou tanto no PSG quanto no Milan. Mas a vitória de Lewandosvski, em 2020, também foi a primeira de um atleta de clube alemão, o que mostra que as atenções talvez estejam se estendendo para fora do eixo Itália-Inglaterra-Espanha.

Aos 28 anos, Neymar também está longe de ser considerado velho para levar o prêmio pela primeira vez. Lewandowski ganhou com 32. O que o brasileiro precisa é driblar o fantasma das lesões para que seu futebol seja mais visto.