Praça Princesa Isabel vira abrigo para despejados de hotéis da cracolândia

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*ARQUIVO* SÃO PAULO, SP, 26.05.2017: Usuários de crack na praça Princesa Isabel, que foi tomada por frequentadores da cracolândia. (Foto: Adriano Vizoni/Folhapress)
*ARQUIVO* SÃO PAULO, SP, 26.05.2017: Usuários de crack na praça Princesa Isabel, que foi tomada por frequentadores da cracolândia. (Foto: Adriano Vizoni/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A praça Princesa Isabel, em Campos Elíseos, na região central de São Paulo, virou abrigo de pessoas que viviam em hotéis no entorno da cracolândia e foram despejadas há cerca de dois meses em ações de reintegração de posse da Prefeitura de São Paulo.

A ação de despejo se deu em outubro na alameda Dino Bueno e na rua Helvétia, que ficam no mesmo bairro, a poucos metros da praça. À época, a gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB) afirmou que a medida foi adotada por falta de segurança dos imóveis.

Desde então, a ocupação na praça cresceu, segundo pessoas que vivem no local. Hoje, ainda de acordo com elas, são cerca de 380 barracas, uma das maiores concentrações de sem-teto na região central da cidade.

A Smads (Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social) informou, em nota, que um censo está sendo realizado para apurar o número de pessoas em situação de rua na cidade.

A pasta também disse que equipes do serviço especializado de abordagem social fazem atendimentos diários para sensibilizar os sem-teto a aceitar as vagas de abrigo.

Um dos moradores da praça é Rogério Dantas, 24. Ele vivia em um quarto de hotel próximo ao fluxo, nome dado à concentração de usuários de drogas ao redor da estação Júlio Prestes.

Dantas conta que, há cerca de dois meses, foi surpreendido por funcionários da prefeitura que desocuparam o imóvel e instalaram tijolos na porta para barrar a entrada dos moradores. "Tudo que eu tinha está lá dentro, roupas, documentos, não consegui recuperar nada", diz.

Sem ter para onde ir, ele se instalou no barraco de lona que divide com outros dois rapazes na praça há cerca de dois meses. "Comprei um pedaço de lona e o resto consegui por aí", afirma.

Na praça também vivem mulheres que foram para as ruas após se tornarem vítimas de violência doméstica. Uma delas, que pediu para não ter o nome revelado, conta que foi morar na praça com o tio após se separar do namorado que a agredia.

Ela relata que a concentração de famílias nas barracas vizinhas a faz se sentir mais segura porque ali tem a certeza de que ninguém vai "mexer com ela".

Moradora da praça há mais de 16 anos, Glaucia Cibele Pereira, 47, conta que tem uma casa na zona sul da cidade, mas passa as noites no barraco de lona montado na área para ficar próxima do marido, que é usuário de drogas. "Eu vou embora, mas a saudade bate e eu tenho que voltar", diz.

Glaucia conta que já foi agredida pelo marido, mas "hoje isso não acontece mais", diz ela, que recusou ser fotografada para esta reportagem com medo de represálias dele.

Por ficar a poucos metros da cracolândia, a praça se torna uma espécie de refúgio para os usuários de drogas do fluxo quando há ações da GCM (Guarda Civil Metropolitana) para dispersar a multidão nos arredores da rua Helvétia.

Em maio de 2017, ao menos 600 usuários de drogas migraram para o local após operação policial que prendeu traficantes e desobstruiu vias usadas para uma feira livre irregular, a cerca de 400 metros dali.

Na ocasião, uma procissão de dependentes químicos deixou o entorno da estação Júlio Prestes, atravessou a avenida Rio Branco e se instalou na praça -que, naquele momento, se tornou a nova sede da cracolândia.

Cerca de um ano depois, em abril de 2018, a praça passou por uma ampla reforma custeada pela empresa Porto Seguro, que tem por volta de dez imóveis na vizinhança.

A área de 16,6 mil m² entre as avenidas Rio Branco e Duque de Caxias ganhou uma quadra de esportes, um parquinho, mesas de piquenique e um "cachorródromo". Tudo isso foi deteriorado e atualmente há pilhas de lixo entre as barracas.

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