Praia de Botafogo aparece própria para banho em dois boletins seguidos do Inea

Remar sem se preocupar se a canoa vai virar. Este é o sonho da engenheira Maria Luiza Cunha, que pratica canoagem na Praia de Botafogo e criou, em 2019, o movimento Enseada Limpa Botafogo, responsável por um relatório que aponta soluções para despoluição da praia. A moradora do bairro comemora o que considera um importante avanço: após pelo menos 15 anos imprópria para banho, a Praia de Botafogo apareceu em condições de balneabilidade em dois boletins consecutivos do Instituto Estadual do Ambiente (Inea) este mês. Antes disso, em toda a série histórica, iniciada em 2007, houve apenas outros três bons resultados: em março deste ano, julho de 2021 e outubro de 2016, ano da Olimpíada no Rio.

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Em maio de 2020, um vídeo que mostrava a praia com águas cristalinas viralizou nas redes sociais, mas na ocasião, devido à pandemia, o monitoramento não estava sendo realizado de forma integral pelo Inea.

O órgão estadual destaca dois motivos para esse impacto positivo observado este mês na Praia de Botafogo: a ausência de chuvas e as melhorias que vêm sendo realizadas no sistema de esgoto, entre elas a captação das águas, principalmente dos rios Berquó e Banana Podre, suspendendo assim os lançamentos desses efluentes diretamente na orla. Essa opinião é corroborada por Maria Luiza e pelo restante da equipe que criou o relatório, formada por especialistas, entre eles um oceanógrafo e um economista. A opinião também é compartilhada pelo biólogo Mário Moscatelli, que destacou ainda algo que foi observado no dia 16 de junho, quando as águas, em plena maré baixa, estavam cristalinas.

— A partir do momento em que trabalhos sérios se desenvolvam no sistema de saneamento da Região Metropolitana do Rio, trechos da Baía de Guanabara, historicamente degradados, vão começar a mostrar a recuperação desejada há décadas. Não há mistério, nem mágica, é simplesmente trabalho sério — considera Moscatelli.

Desde o dia 1º de novembro de 2021, a concessionária Águas do Rio assumiu o saneamento básico em 27 cidades do estado, incluindo as zonas Sul e Norte da capital, além do Centro. De acordo com a concessionária, a meta é recuperar a Baía de Guanabara nos próximos cinco anos. Nesse período, serão investidos R$ 2,7 bilhões para construir um cinturão de proteção no entorno da baía, a fim de evitar que milhões de litros de esgoto sem tratamento sejam lançados ali.

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— O nosso grande objetivo é que momentos como este, como o da balneabilidade da Praia de Botafogo, sejam cada vez mais frequentes até se tornarem perenes — observa o presidente da Águas do Rio, Alexandre Bianchini.

Sinval Andrade, diretor superintendente da concessionária, explica que o trabalho passa por adequação e melhoramento do sistema de tratamento de esgoto já existente e pela avaliação da implantação de um novo modelo, compatível com a atual realidade. Ele ressalta que esse sistema foi criado há mais de 50 anos e nunca funcionou da maneira como foi projetado porque na época, por falta de verba, as obras não foram concluídas.

— O brasileiro gosta de grandes obras, mas nem sempre é o melhor caminho. Optamos por melhorar o sistema que já existe e não vem funcionando bem enquanto avaliamos todo o processo, que envolve muitas etapas. Estamos realizando avanços, muitos invisíveis, mas extremamente importantes. A meta agora é acabar com os despejos irregulares, para que em breve o Rio Carioca volte a desaguar, limpo, na baía. Tem sido gratificante percorrer esse caminho — relata Andrade.

Seiscentas toneladas de sujeira em dois meses

Entre as ações, Sinval Andrade enumera o monitoramento dos despejos irregulares, clandestinos ou por acidente, e o desassoreamento das comportas. Destaca ainda a revitalização da Estação Elevatória de Esgoto Parafuso e a limpeza do Interceptor Oceânico, ambos em Copacabana, que influenciam na Praia de Botafogo, além da modernização do sistema de bombeamento. Andrade ressalta que o interceptor não era limpo há anos, e que nos últimos dois meses foram retiradas 600 toneladas de sujeira no trecho entre Glória e Botafogo. Os técnicos da Águas do Rio recolheram dois patinetes elétricos e um vaso sanitário de dentro da tubulação que desvia os detritos que vêm pelos rios de Botafogo em direção à enseada.

— Em Copacabana, a previsão de retirada é de duas mil toneladas de sujeira. A limpeza dará maior capacidade de escoamento ao interceptor — diz.

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Andrade pontua ainda um trabalho que está sendo feito em parceria com a Fundação Instituto das Águas do Município (Rio Águas), responsável pela abertura das comportas que despejam águas de rios poluídos na baía. O objetivo é chegar a um sistema de monitoramento mais moderno e evitar que as galerias sejam abertas sem necessidade, em dias com pouco volume de chuva.

— Estamos com um novo regime operacional, a partir do monitoramento 24 horas da estação no Centro de Operações Integradas, o que permite acompanhar o funcionamento em tempo real e atuar de forma rápida e eficiente. Mas a ideia é que isso seja feito de maneira remota e mais assertiva. Muitas dessas melhorias estão apontadas no relatório, que é quase uma previsão do que estamos fazendo — conclui Andrade, referindo-se ao estudo idealizado por Maria Luiza Cunha.

Para a engenheira, a concessionária tem feito o que o relatório recomendou como “ações de curto prazo”, as quais, segundo o estudo, já teriam impacto:

— O resultado concreto é o boletim de balneabilidade do Inea. Mas isso só ocorre quando fica um tempo sem chover. Quando chove, as comportas abrem e os rios poluem o mar. O que aguardamos agora é a publicação da agenda de “médio-longo prazo” da Águas do Rio. É necessário fazer obras dentro do bairro, eliminando os despejos dos prédios para as galerias pluviais e rios.

Maria Luiza, que frequenta a Praia de Botafogo cerca de três vezes por semana para remar e correr, acredita que ainda falta um longo percurso para a despoluição da enseada. Contudo, enfatiza, não é um sonho impossível.

— Não é incomum a canoa havaiana virar, então a gente sempre rema apreensiva, com medo de cair na água que hoje ainda é poluída. A natureza tem um grande poder de regeneração, e nesse trecho basta parar de poluir para a praia voltar a ficar própria para banho. O caminho para isso não é simples, mas é possível — garante.

A engenheira salienta que iniciou o movimento Enseada Limpa Botafogo em parceira com a Associação de Moradores e Amigos de Botafogo (Amab) e que a ideia não é criticar o governo, mas somar forças e achar caminhos para revitalizar a praia.

Apontada como cantinho da canoa, enseada tem mangue e restinga

Uma efervescência percebida recentemente na Enseada de Botafogo revela uma praia mais acolhedora e com esperança de dias melhores. É o que aponta Maria Luiza, comparando o panorama de hoje ao de quando começou a remar naquelas águas, em 2016.

— A praia era vazia. Em 2019 nós plantamos a restinga, e depois alguns clubes de canoas foram instalados. O primeiro foi o CanoasRio. Em 2020, com a pandemia, ganhou força um movimento de esportes ao ar livre, e a praia começou a ser vista como uma opção de academia a céu aberto. De certa forma, a pandemia trouxe aspectos positivos para Praia de Botafogo; ela passou a ser observada — conclui.

Cofundadora do CanoasRio e professora de gestão ambiental do Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ), Gabriela Podcameni rema diariamente no mar de Botafogo e conta que hoje já mergulha na enseada do bairro.

— Melhorou significativamente desde que iniciamos o clube na praia, em 2020. Antes era preciso ir para pontos mais distantes; hoje já é possível mergulhar mais próximo da areia. Tem dia que as águas estão transparentes; e a areia, clarinha — celebra.

Gabriela conta que o local já vem sendo reconhecido como o cantinho da canoa havaiana no Rio, mas frisa que, além das condições da água, ainda há muitos desafios para as pessoas frequentarem mais o local.

— Ela é perfeita para a prática de canoa havaiana e tem um dos visuais mais lindos da cidade. Mas é a única praia sem posto, sem banheiro. A passarela subterrânea vive alagada. Adotei, junto com outros parceiros da praia, um trecho da enseada, onde fazemos algumas ações em prol do meio ambiente, e a ideia é revitalizar a região com projetos de educação ambiental, reflorestamento e recreação — detalha.

De acordo com José Guimarães, que coordena o grupo de voluntários Reflorestamento Urbano, a restinga mencionada por Maria Luiza foi criada na Enseada de Botafogo como um projeto piloto, a partir de um manguezal que nasceu de forma espontânea nas pedras.

— Vimos o manguezal nascendo e resolvemos chamar a atenção. Fazemos limpezas periódicas do lixo e manutenção desse manguezal e da restinga que criamos. Esse manguezal que nasceu sozinho é uma resposta da natureza a nossa estupidez em teimar em tratar a Baía de Guanabara como depósito de esgoto e lixo. O sonho é levar o projeto de restinga para todo o extenso areal da Enseada de Botafogo, assim como existe em Ipanema. A enseada é morada de tartarugas marinhas e arraias, animais que sofrem com essa poluição, mas persistem, como o mangue. O desenvolvimento dele vai contribuir e muito para esse ambiente ainda inóspito da enseada, que parece sem vida, mas que na verdade é bem forte — diz Guimarães.

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