Praticantes de religiões de matriz africana fazem oposição à candidatura de Jair Bolsonaro

Pixabay

Por Ana Paula Lima

Salvador (BA) — “A eleição de Bolsonaro significa um retrocesso para todo o povo de Candomblé”. A frase é dita sem rodeios por Jandira Mawsi, psicóloga e equede (uma das principais administradoras de um terreiro) do Terreiro do Bogum, localizado em Engenho Velho da Federação, em Salvador, e ganha eco na voz de outras lideranças baianas de religiões de matriz africana. Para Jandira, a possível eleição do candidato Jair Bolsonaro (PSL) coloca todos os praticantes de religiões afro-brasileiras em risco.

Entre os principais receios, está a proibição dos toques dos terreiros. “Já tem acontecido em outros estados. A polícia invade os terreiros e proíbe a realização de suas cerimônias. Eu acredito que uma das primeiras coisas que ele (Bolsonaro) vai fazer é justamente proibir os toques dos Terreiros”, teme.

Independentemente do candidato que vencer as eleições este ano, a intolerância religiosa será sempre pauta importante nas discussões do país. Dados do Ministério dos Direitos Humanos mostram que de janeiro de 2015 a junho de 2017, o Brasil registrou uma denúncia de violência por causa de questões religiosas a cada 15 horas. Foram 1.988 denúncias de janeiro de 2011 até junho do ano passado.

A Ubanda com 26 vítimas e o Candomblé com 22 foram as duas religiões com os maiores números de adeptos que sofreram algum tipo de violência, nos seis primeiros meses do ano passado.

“O que tem segurado a gente é a fé que a gente tem nos orixás. Bolsonaro como presidente vai ser um retrocesso para os povos de comunidades tradicionais, indígenas, povos de religiões de matriz africana, diante das declarações que ele tem feito… E como o Candomblé é uma religião de matriarcado, em sua maioria, o que ele fala não contempla essas mulheres que são negras e candomblecistas”, destaca.

A equede afirma que lideranças religiosas têm organizado atos para discutir os impactos que uma possível chegada de Jair Bolsonaro ao Palácio do Planalto pode causar para os adeptos de religiões de matriz africana, na Bahia. A apreensão também é compartilhada pela Yalorixá Jaciara Ribeiro, do Terreiro Axé Abassa de Ogum, localizada em Itapuã, orla de Salvador.

“Tenho participado de eventos e visto a preocupação do povo de Candomblé com a suposta eleição deste presidente, que representa um grande retrocesso para as nossas conquistas. Inclusive, nas redes sociais, circulam vídeos em que ele fala que o Estado não é laico”, afirma e emenda: “A gente do Camdomblé só tem mesmo que pedir aos orixás para nos dar um caminho de mudança”. Há também as lideranças que estão preocupadas com a eleição do candidato do PSL, mas são mais cautelosas ao traçar as projeções para o futuro.

É o caso de Jocenilda Barbosa Ilê Maroialaji, Iyá Kekere (mãe pequena) do Terreiro do Alaketo, localizado no bairro Luiz Ancelmo, em Salvador. “Nós, o povo de Santo, não apoiamos ele, mas ele precisa ganhar a eleição e realizar algo para então eu ter uma opinião definitiva”, pondera.

Na Bahia, cerca de 47 mil pessoas são praticantes do candomblé ou umbanda, cultos de matrizes africanas, de acordo com os dados do último Censo Demográfico, divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Ainda de acordo com o órgão, essas duas religiões, que foram colocadas na mesma categoria pelo IBGE, estão na quarta posição entre as religiões mais populares no estado, atrás da católica, evangélica e da espírita. A Bahia tem pouco mais de 15 milhões de habitantes.

Mestre Moa do Katendê

O cenário da disputa presidencial no estado é tão crítico que este ano, divergências político-partidárias já causaram uma morte na Bahia. O inquérito policial que apurou o assassinato do mestre de capoeira Romualdo Rosário da Costa, conhecido como Moa do Katendê, apontou que o crime, ocorrido na madrugada do dia 8 de outubro, em um bar na capital baiana, foi motivado por uma discussão partidária.

De acordo com a polícia, Moa disse a Paulo Sérgio (autor do crime) que era contra o candidato à Presidência da República Jair Bolsonaro. As investigações apontam ainda que, após Moa ter dito que votou em Fernando Haddad (PT), Paulo discutiu com ele.

Ainda de acordo com as informações da polícia, após a discussão, Paulo saiu do bar, foi em casa, pegou uma faca e matou mestre Moa com 12 golpes. Um primo de Moa do Katendê, de 51 anos, também acabou ferido. Nesta semana, o Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) concluiu o inquérito e encaminhou ao Ministério Público do Estado (MP-BA). Paulo Sérgio segue preso.