Jovem, já tirou seu título de eleitor? Corre que ainda dá tempo

In this photo illustration a woman simulates a vote in the electronic ballot box used in the elections of Brazil.
Getty Images

Por motivos profissionais, passei anos sem votar nem para presidente —ou para governador, prefeito, senador, deputado e vereador.

A ironia é que precisei abrir mão do meu direito político fundamental para acompanhar, em São Paulo ou na região metropolitana, o dia de votação dos candidatos que acompanhava como repórter de política. Meu título ficava em Araraquara, cidade onde nasci e de onde estava longe desde o início dos anos 2000.

Naqueles 12 anos na capital, não custava (mesmo) ter alterado meu domicílio eleitoral. O que não faltavam, na região central da cidade, eram sessões eleitorais onde eu poderia deixar meu voto antes de seguir para o trabalho, nas ruas ou na redação. Tradicionalmente o dia da eleição é o dia que mais trabalhamos no ano.

A bem verdade, nunca deixei de trabalhar na cobertura política, como os raros leitores que acompanham esta coluna podem atestar. E, já antes da pandemia, quando passei a escrever de casa meus comentários sobre o mundo político, pude enfim voltar ao colégio onde dei meu primeiro voto, no já distante ano de 2000.

Nascido no fim da ditadura, cresci à sombra de uma grande árvore chamada democracia. Meus (nossos) direitos políticos estavam naquele tronco firme e forte como aço. Em 2018, quando voltei às urnas, dava para notar ao redor da velha escola um cheiro putrefato. Vinha dos machados ostentados por quem já se mobilizava para golpear aquela árvore diariamente, até que cedesse.

Parecia impossível, teoria conspiratória mesmo, imaginar que algum dia esse direito de escolher nossos futuros governantes nos fosse suprimido. Talvez nossos pais e avós pensassem assim também em 1964, ano do golpe militar. Eles só voltariam a eleger um presidente 25 anos depois.

Foi pensando em tudo isso que atravessei o corredor da escola no bairro onde me criei na última eleição para presidente. Seria em vão tentar explicar a emoção, desatada como um nó na garganta, sentida ao me dirigir à cabine e ouvir o som da urna eletrônica depois de anos. Aquela mesma urna que garantiu, naquele ano, mandatos a figuras tão díspares do campo ideológico.

A sensação é um tanto confusa. Lá você é apenas mais um na multidão exercendo seu direito a voto. É também o dia em que você mais sente que pode ser protagonista de uma História além da sua própria.

Não quero deixar de sentir essa sensação.

Por isso pretendo levar meu título para onde for até o fim da vida. E, se pudesse voltar no tempo, já teria garantido meu direito ao voto antes mesmo dos 18 anos. Quem sabe assim, junto com colegas e amigos igualmente incentivados e animados a mudar o rumo das coisas, a gente não conseguisse adiantar por alguns anos a remoção do cheiro de naftalina das conversas replicadas por quem pensa que política não nos diz respeito.

Com a maturidade a gente entende que tudo nessa vida é política. Quanto mais cedo entendermos isso, mais chance temos de vencer o abatimento compreensível diante de um mundo sufocado e sufocante.

Garantir o direito ao voto é como garantir o direito de respirar. Como dizia a canção, um mais um é sempre mais que dois.

Nesta quarta-feira (4/4), encerra-se o prazo para quem pretende tirar ou regularizar o título eleitoral. Nos últimos meses, artistas e formadores de opinião, como Anitta e até Leonardo DiCaprio, entraram em campo para estimular os jovens entre 16 e 18 anos, para quem o voto é facultativo, a garantirem seu direito político mais fundamental. O eleitor interessado na mudança hoje pode ser a liderança de amanhã. Para tudo existe um começo.

Sempre é tempo. Em algumas cidades, os fóruns eleitorais funcionarão até o início da noite. Todo o resto pode ficar para depois.

Quebrar a letargia é o primeiro passo para diferenciar quem pretende ser expectador ou um sujeito ativo da História. E nunca estivemos tão a perigo como agora.

Da última vez que deixamos os machados agirem sobre a árvore, ela levou 25 anos para dar frutos novamente.

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