Preço de aluguel de veículos dispara na pandemia, e motoristas de app têm que devolver carros

Letycia Cardoso
·6 minuto de leitura
Foto: Luiza Moraes / Agência O Globo

A pandemia afetou de forma considerável os custos de locação dos veículos. No início no ano, por causa das medidas restritivas e da necessidade de isolamento social, a procura por carros caiu de forma significativa. Para equilibrar as contas, as locadoras resolveram vender muitos de seus automóveis. No entanto, conforme o movimento foi sendo retomado, não havia mais tantos veículos disponíveis. Pela lei do mercado, maior demanda e menor oferta resulta em preços mais altos. Dessa forma, os valores dos aluguéis dispararam, e quem mais sofreu com isso foram os motoristas de aplicativos. Aqueles que usam carros alugados viram suas despesas crescerem consideravelmente, e alguns tiveram até que devolver os veículos por não conseguirem arcar com as despesas.

A motorista Anna Tatti, de 62 anos, conta que já rodou com carro alugado. Na época, pagava uma mensalidade de R$ 1.620 por um carro novo, mas o modelo não tinha um botijão de Gás Natural Veicular (GNV) instalado. Não durou muito. Hoje, ela aluga um Versa 2016 de uma conhecida, pagando mil reais pelo mesmo período, dividindo os custos de manutenção com a proprietária. Agora, ela afirma que vale a pena:

— Em locadora, está impossível fazer negócio. Se fosse alugar um carro movido a gás, eu teria que pagar cerca de R$ 2.200 por mês. Como as corridas diminuíram na quarentena, isso é praticamente pagar para trabalhar.

O motorista Rodrigo Santos, de 53 anos, diz que o problema não é apenas o preço cobrado pela locação, mas também a alta dos combustíveis. De acordo com a Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), entre os dias 6 e 12 de dezembro, por exemplo, o preço médio registrado para o litro da gasolina na cidade do Rio foi de R$ 4,926, enquanto o valor do litro do etanol foi de R$ 4,054. O GNV, encontrado a R$ 2,985 (metro cúbico) no mesmo período, em média, segue sendo a opção mais viável.

— Algumas locadoras passaram a instalar GNV nos carros a serem locados, mas você tem que esperar muito tempo até um estar disponível. Quando chamam, você tem que ter cartão de crédito com limite disponível, e muitos motoristas estão com seus nomes sujos. Por isso, não conseguem pegar esses carros — analisa Santos: — Por outro lado, veículo a gasolina ou etanol consome muito, principalmente se o motorista pega engarrafamentos ou anda com o ar-condicionado ligado. Há mais de três anos que os apps não aumentam as tarifas, enquanto o preço de tudo está mais alto.

Para conseguir pagar as contas de casa, Juan Neves, de 24 anos, que aluga um carro para trabalhar em aplicativo, precisou diversificar seu serviço:

— Comecei a transportar conhecidos para a Região dos Lagos aos fins de semana e, durante a semana, além de ser motorista de aplicativo, estou prestando serviço de entregas para uma empresa que me contratou como MEI (microempreendedor individual).

Leia mais:

O presidente da Associação Brasileira das Locadoras de Automóveis (Abla), Paulo Miguel Júnior, revela que entre os 200 mil carros alugados para motoristas de aplicativos, aproximadamente 160 mil foram devolvidos nos dois primeiros meses de quarentena. A situação neste fim de ano, no entanto, segundo ele, já vem se normalizando.

— Com a liberação da circulação, motoristas voltaram a operar, conseguiram mais passageiros e estão alugando de novo os carros. O valor pago por eles é, em geral, de R$ 450 a R$ 500 por semana — calcula Júnior: — Para dezembro, esperamos a entrega de 40 mil carros para locadoras e, para o ano que vem, temos o pedido de outros cem mil veículos nas montadoras.

O preço cobrado pela locação em 2021, porém, também deve ser salgado. Isso porque, segundo o presidente da Abla, os preços de venda dos carros aumentaram bastante. Além disso, espera-se que a procura de motoristas de aplicativos aumente.

— O preço de locação está diretamente atrelado ao preço de venda. Fora isso, acreditamos que teremos mais pessoas desempregadas no ano que vem. E o trabalho como motorista autônomo é uma fonte de renda nesse caso. Por isso, o valor da locação deve voltar a aumentar — afirma Júnior.

Com o afrouxamento das medidas restritivas e a proximidade do verão, o número de clientes que procuraram a Movida para alugar carros aumentou. De acordo com a empresa, além de deslocamentos particulares, viagens corporativas que antes eram feitas de avião passaram a ser realizadas de carro.

Como consequência, o preço médio das diárias no terceiro semestre aumentou 18%, alcançando R$ 70,30, em média. No trimestre anterior, que concentrou os momentos mais agudos da restrição de circulação, a diária média foi de R$ 59,50.

— A empresa vendeu mais carros do que o usual no segundo trimestre de 2020, mas já vem havendo adição de frota gradual. Vai fechar o ano com uma frota maior do que a de 2019, com 3.800 carros a mais. O período de festas de fim de ano e férias de verão, historicamente, costuma ter alta demanda e, consequentemente, maiores preços. Dado que nosso sistema de precificação é flutuante e varia conforme demanda e oferta, fatores como taxa de ocupação e crescimento da frota serão levados em consideração para a vdefinição dos preços futuros — conta Edmar Lopes Neto, CFO da Movida.

Para reter os clientes que trabalham como motoristas de aplicativos, Neto conta que a Movida ofereceu condições especiais para a categoria, como 60 dias com isenção total da mensalidade para aqueles com mais de seis meses consecutivos de relacionamento com a locadora.

A Localiza informou que tem em sua divisão de aluguel de carros mais de 207 mil veículos e que, no terceiro trimestre, realizou ajustes na frota conforme a dinâmica do mercado, retomando a compra de carros para atender à demanda do quarto trimestre. Também declarou que a precificação do aluguel de carros é dinâmica e leva em conta uma série de fatores, como modelo do carro, local e horário do aluguel.

De olho no mercado de locação de veículos, a Fiat vai começar a oferecer o novo serviço de carros por assinatura a partir de 2021, por meio da Flua! — nova empresa de mobilidade do grupo Fiat Chrysler Automóveis (FCA). Nesta modalidade, o motorista têm sempre um automóvel 0km cutomizado à sua disposição, sem custos de documentação, IPVA, revisões, seguro e manutenção.

O cliente poderá escolher entre oito modelos da Fiat (Argo, Nova Strada, Toro, Cronos, Grand Siena, Doblò, Fiorino e Ducato) e dois da Jeep (Renegade e Compass) e optar pelos planos de 12, 24 e 36 meses, com franquias de 1 mil, 2 mil ou 3 mil quilômetros para rodar por mês. Em caso de desistência após a contratação, haverá uma multa.

A estreia será em 15 de janeiro, em 28 concessionárias de seis cidades de São Paulo e em quatro lojas da capital do Paraná, totalizando 32 unidades. Da marca Fiat, serão 24 concessionárias em São Paulo, Campinas, Ribeirão Preto, Sorocaba, Valinhos, Vinhedo e Curitiba. No caso da Jeep, oito unidades da capital paulista terão pontos de atendimento.

O serviço da FCA encara um mercado já aquecido por outras fabricantes de automóveis, como Toyota, Nissan e Volkswagen, que passaram a oferecer assinaturas similares de veículos 0km — as duas últimas durante a pandemia.