Preço do crédito de carbono ainda depende de liquidez e transparência, diz UBS

Um projeto de crédito de carbono não é algo simples. No caso de desmatamento ou de impacto ambiental nos oceanos, por exemplo, é preciso entender o risco real que aquela área corre e o que aconteceria se ela deixasse de ter vegetação e biodiversidade. É feito o cálculo, então, de quanto de gás carbono e outros gases poluentes (chamados de GEEs) aquela região ‘pelada’ deixará de absorver da atmosfera. Se for mantida, é volume parecido que absorverá.

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É assim que se calcula o potencial de geração de créditos de carbono. A mesma lógica vale para áreas já desmatadas, que, se restauradas, podem absorver poluentes que não conseguiria sem o reflorestamento. Esses projetos trazem, então, o que é chamado no mercado desde o Protocolo de Quioto de “adicionalidade”, ou seja, comprovada redução de emissões GEE de forma adicional ao que ocorreria na ausência de tal atividade. São apenas alguns exemplos, simplistas, de como o tão falado mercado de carbono funciona.

O problema, dizem os convidados do painel “Carbon Markets: What Opportunity?” [Mercado de Carbono: qual a oportunidade?, em tradução livre], organizado pelo banco suíço UBS BB na terça-feira, é que as variáveis de um projeto são tantas que os preços de negociação dos créditos ainda não seguem a lógica esperada.

-Nós temos uma base de informações coletadas sobre projetos de carbono muito grande, o que nos dá uma boa noção do mercado como um todo. O que vemos é que o preço não é sempre relacionado com o óbvio que esperamos e seus cobenefícios, além da absorção de carbono, são difíceis de ver ainda e, por isso, nem sempre são negociados com prêmio pelo mercado -, explica Stuart Harper, responsável por Engajamento com Stakeholders e crédito de carbono no UBS.

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Ele cita que já recebeu ofertas a preço duas vezes maior por crédito de um mesmo projeto em poucas semanas de diferença:

-É difícil prever para onde vão os preços porque a informação mais confiável são os das transações do passado. E elas não necessariamente dão uma boa visão de como vender no futuro. Para o mercado de crédito de carbono evoluir, é preciso transparência de informações sobre os projetos.

O fluxo de caixa de geração,por exemplo, é um dos itens importantes para avaliação do preço correto.

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O que Harper defende é que a precificação de um crédito precisa passar pela análise dos cobenefícios que ele gera, como o engajamento e impacto positivo de comunidades na área ou entorno, o nível de biodiversidade naquela área e se há atividades de bioeconomia ali. O que nem sempre é visto pelo mercado que o negocia.

-Na tomada de decisão para selecionar projetos, olhamos os benefícios adicionais, como biodiversidade e suporte a comunidades indígenas. Esses são os que fazem a diferença, pois além das emissões trazem algo a mais. Apesar de muitas vezes cobrarem um prêmio por isso, vale a pena porque a história é importante, principalmente em algo que não é mandatório e regulado- explicou o executivo do UBS, ao citar a Indonésia como um dos países que têm projetos de preservação da floresta e de terras indígenas.

O próprio UBS já adquiriu créditos equivalentes a mais de 4 milhões de toneladas de gás carbônico, boa parte em projetos de energia limpa e transição energética, outro tanto em preservação e defesa de florestas e projetos de remoção de carbono, como neutralização de concreto e captura/estocagem de gases.

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Os créditos comprados pelo UBS são “aposentados” logo depois, o que significa que é feita a baixa contábil no carbono para compensar as emissões. Para Harper, ainda não há liquidez suficiente para um ter um pujante mercado secundário de créditos.

-Acho que há espaço, no futuro, para um mercado secundário [de créditos de carbono], mas para isso acontecer é preciso ter qualidade e parâmetros confiáveis, para que as pessoas possam negociá-los. É pouco provável para logo, porque ainda há muito a evoluir em termos de transparência, liquidez e precificação - reiterou Harper.

Ele detalha ainda que a qualidade importa e isso está também relacionado com a escolha dos intermediadores. É preciso fazer uma boa due dilligence dos intermediadores que vão fazer a escolha e gestão dos projetos. entregar as adicionalidades que é necessário e sustentável.

Além disso, é preferível aportar em quem tem a geração verificada por uma empresa séria, que garante a existência do ativo e seu real potencial.

- Só compramos de projetos auditados e verificados - disse o executivo do UBS, citando a Gold Standard e o Verified Carbon Standard (VCS) da Verra.

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Angelo Sartori, diretor de Engajamento com Stakeholders da Verra, também presente no painel, compartilhou que um projeto de carbono precisa passar por uma extensa lista de procedimentos e auditorias, que leva entre 12 e 18 meses, ao menos, para ser finalizada:

- A demonstração [das informações e projeções] é que a coisa mais importante em todo o processo de royalty de carbono de florestas, em especial, em países em que as leis são rígidas com relação a desmatamento e incentivos a proteger a floresta.

Peculiaridade da geração de créditos de carbono

Sartori se referiu a uma peculiaridade da geração de créditos de carbono: a necessidade de aquela área estar sob ameaça de desmatamento. Na prática, isso significa que regiões sob leis fortes contrárias à degradação, e que há fiscalização, não se encaixariam nesse perfil, já que, em teoria, o risco seria mínimo e o projeto em si não acrescentaria nenhuma adicionalidade. :

- Ser muito claro com os documentos relacionados a receitas de vendas de crédito são fundamentais para financiar os projetos. Demonstrar que os projetos são desenvolvidos pela meta de mitigação do risco de aquecimento global e não por qualquer outro tipo de negócio é outra exigência.

Ele reiterou que há, claro, lugares onde a lei existe, mas a vigilância é falha e pode sofrer com atividades ilegais, por isso, abre-se a brecha para o projeto acontecer e valer dinheiro.

- Nesses casos, se consegue demonstrar que há risco de essas atividades ilegais prejudicarem a conservação da área, há possibilidade de demonstrar a adicionalidade do projeto e sua receita vindas das emissões ao longo do tempo - compartilhou.

Lourenço Tigre, diretor financeiro do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), o terceiro painelista, complementou dizendo que é primordial evitar que haja um estímulo ao desmatamento, se referindo ao maior valor da área - para a indústria de créditos - se houver ameaça:

-Devemos evitar, assim como devemos reflorestar. Não podemos deixar parecer que cortar árvores pode dar um ‘prêmio’ em relação a manter as árvores em pé. Deve haver incentivos para indivíduos e comunidades que preservam, não só as árvores, mas tudo naquele lugar, como biodiversidade animal e vegetal, água, solo e comunidades.

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