Preços de medicamentos do 'kit intubação' têm alta de até 1.000%

Rodrigo Castro
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RIO - Com a alta demanda e a escassez de insumos, medicamentos usados no tratamento da Covid-19 em UTIs do Brasil sofreram uma alta nos preços de cerca de 650%, em média, durante a pandemia. Em alguns casos, o aumento superou 1.000% no mercado farmacêutico. Relaxantes musculares, anestésicos e sedativos que compõem o chamado “kit intubação” são os mais afetados.

Entenda: Como são usados os remédios do kit intubação?

Associações que representam os hospitais privados do país apontam que as unidades têm estoques que devem durar menos de uma semana e encontram dificuldade para adquirir tais medicamentos. Levantamento feito pela Confederação Nacional dos Municípios (CNM) mostrou que 1.316 municípios estão em risco de falta de medicamentos do “kit intubação”. O número representa cerca de 23% das cidades do Brasil.

Segundo levantamento da Confederação Nacional de Saúde (CNSaúde), o relaxante muscular midazolam, em frascos de 3 ml, saltou de R$ 22,78 antes da pandemia para uma média de R$ 174. Entre os medicamentos mais usados do kit intubação, o atracúrio 10mg/ml saiu de R$ 32,10 para R$ 195, enquanto o rocurônio 50 ml custava R$ 33,33 e agora é vendido por R$ 201. Outro que teve alta considerável foi o propofol (indicado para sedação), cuja caixa com ampolas de 20 ml variou de R$ 28,70 a R$ 183.

A pesquisa foi conduzida com dezenas de hospitais de pequeno porte associados à confederação e espalhados por todas as regiões brasileiras. A entidade verificou ainda que o consumo desses medicamentos, com destaque para os anestésicos, cresceu de 800% até 2.350% desde março do ano passado.

— Verificamos esse aumento fora da curva na pandemia e com cenários de comportamentos diferentes. Alguns que subiram lá atrás e voltaram a cair estão subindo novamente; há produtos que vieram constantemente subindo; e aqueles que subiram no início e caíram, voltando a preços próximos a de antes da pandemia, como as máscaras. Agora, a gente vê esse problema muito grave com material de intubação — diz Breno Monteiro, presidente da CNSaúde.

De acordo com o Índice de Preços de Medicamentos para Hospitais (IPM-H), desenvolvido mensalmente pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) em parceria com a plataforma Bionexo, o grupo terapêutico “aparelho cardiovascular” — que abarca analgésicos, anestésicos e sedativos — registrou uma variação acumulada de 48,88% entre fevereiro de 2020 e o mesmo período deste ano. Já o grupo “sistema musculesquelético”, que abrange relaxantes musculares, analgésicos e anti-inflamatórios, subiu 38,36% em média nesse intervalo.

Segundo a farmacêutica Ana Valéria Miranda, coordenadora da Central de Compras da Associação de Hospitais Privados de Alta Complexidade de Goiás (Ahpaceg), medicamentos como atracúrio, cisatracúrio e vecurônio estão com cotações zeradas no estado, em razão de sua escassez. A tendência é que em uma semana outros fármacos se esgotem, sem perspectiva de reposição. A imprevisibilidade da pandemia, que afetou o planejamento de unidades, é um dos principais entraves.

— Há pacientes, por exemplo, que só podem receber o rocurônio. Se tentar usar outro relaxante, dependendo da condição clínica dele, o risco de você perdê-lo é alto. A gente já está no plano D. O médico começa a trabalhar com outras drogas, para não deixar o paciente em estado de alerta, não ter que amarrá-lo. A falta de relaxante é muito preocupante e crítica — diz Miranda.

A venda de medicamentos no país é regulada pela Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED), ligada à Anvisa, que auxilia na definição de valores e reajustes anuais. Os preços estão sujeitos a oscilações por fatores como a capacidade de produção da indústria e a alta do dólar, já que muitos insumos são importados. Gustavo Kloh, professor de Direito do Consumidor da FGV, diz que não é vedado por lei o aumento dos preços, mas, diante de elevação abusiva, pode-se recorrer ao Programa de Proteção e Defesa do Consumidor (Procon).