Precisamos parar de fazer Luísa Sonza chorar; e isso é urgente

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Luísa Sonza foi atacada por usuários do Instagram que a julgaram como culpada pela morte do filho do ex-marido, Whindersson Nunes (Foto: Montagem / Reprodução / Instagram)
Luísa Sonza foi atacada por usuários do Instagram que a julgaram como culpada pela morte do filho do ex-marido, Whindersson Nunes (Foto: Montagem / Reprodução / Instagram)

A semana começou com uma notícia triste: João Miguel, o filho de Whindersson Nunes e Maria Lina, não sobreviveu após nascer prematuro, com 22 semanas. A reação dos fãs e seguidores do casal foi contraditória, principalmente porque, ao invés de se unir em apoio à perda do humorista, se voltou contra a ex-mulher dele, Luísa Sonza, como se ela tivesse culpa pela morte do bebê.

Desde o ano passado, quando a pandemia de coronavírus no Brasil começou, tem se falado muito sobre empatia e a importância de olhar o contexto que estamos vivendo. Com uma história como essa, não é diferente. As pessoas cobram empatia dos influenciadores, cobram posicionamentos e posturas, mas esquecem de olhar as suas próprias posturas e posicionamentos, e o efeito que isso tem em quem recebe os seus comentários - muitas vezes maldosos.

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Foi o que aconteceu com Luísa. No último ano, desde que anunciou o divórcio do humorista, a cantora foi atacada porque, supostamente, teria traído o marido e o usado como trampolim para a própria carreira. As duas ideias são absurdas por si só. Primeiro porque, caso tenha acontecido uma traição, ela não é da conta de ninguém que não o próprio casal - e nós já falamos sobre idealizar relacionamentos de famosos e projetar as suas próprias expectativas sobre isso.

Segundo, é uma noção bastante machista e desmerecedora do potencial feminino acreditar que uma cantora do talento de Luísa precisa se apoiar no sucesso de um homem para crescer profissionalmente. Em ambos os casos, é papel de cada um rever os próprios conceitos e noções para mudar ideias que são nocivas a si e a sociedade como um todo. E tudo isso porque ela é mulher. Sim!

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Depois, quando os seguidores dos dois lados acharam que, de fato, não houve traição nesse casamento, o ódio gratuito se voltou para Whindersson e a namorada, que estava grávida do primeiro filho do casal. Se você não lembra, Whindersson chegou a comentar sobre o nível de absurdo das mensagens que estava recebendo, inclusive com "desejos" de que seu filho morresse. Agora, o bebê, de fato, não sobreviveu, e o luto pela perda de um filho é algo imensurável. Mas, de novo, o que as pessoas fazem? Elas correm para o perfil de Luísa para perguntar se ela estava satisfeita com a perda do ex-marido. A empatia anda mesmo em falta.

Chorando, Luísa publicou alguns stories (que agora já não estão mais disponíveis) pedindo para que as pessoas "pelo amor de Deus, parem com isso". É de cortar o coração. A também cantora Gabi Luthai, amiga tanto de Whindersson, quanto de Luísa, usou o Twitter para pedir pela mesma coisa: "Vocês atacaram a Luísa porque acreditavam em possível traição. Daí atacaram o Whindersson e a Maria porque não houve traição. Desejaram mal à Maria e ao bebê. DESPEJARAM ÓDIO e agora estão voltando à Luísa para atacar e culpá-la por algo que não tem culpado! CHEGA DISSO".

Procurar um culpado por uma situação que, como disse Gabi, não tem culpados, não resolve o sofrimento dos envolvidos. Pelo contrário, talvez só o aumente. As relações humanas são complexas e envolvem muitos fatores, mas uma coisa é fato: não adianta apontar dedos quando o momento é de acolhimento e resguardo.

A cultura do cancelamento há muito já deveria ter acabado, principalmente porque é uma desculpa que as pessoas consideram bastante sólida para descarregar a raiva e frustração que sentem. Em um contexto como o que vivemos hoje, de pandemia, isolamento social e furor político, isso fica ainda mais evidente, em movimentos grandes como o que aconteceu no último 'BBB' com Karol Conká. De fato, a cantora teve falas e ações que não só precisam como devem ser revistas, no entanto, o nível de ódio que ela recebeu online não é digno de ninguém.

Compaixão, o mínimo

Tem-se falado muito também sobre um cansaço de empatia. Se colocar tanto no lugar do outro, compreender o que ele sente e perceber o nível de sofrimento alheio, além do seu próprio, tem sido tão cansativo quanto qualquer outra coisa no último ano e meio. Com o celular como uma das poucas janelas que uma parte de nós temos para o mundo exterior, tudo parece ficar ainda maior. Ainda assim, o ponto de mudança não é na relação entre Whindersson e Luísa, é no que cada pessoa sente e pensa.

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Correndo o risco de soarmos clichê, mas Gandhi dizia que precisamos ser a mudança que queremos ver no mundo. E a mudança que se vê necessária, mais do que de um governo despreocupado com a população, um sistema econômico opressivo e exaustivo e de uma internet manipuladora e sobrecarregada, é nas pessoas que estão por trás de cada uma dessas esferas da sociedade.

Se queremos ver um mundo mais em paz, então precisamos desistir da nossa própria raiva e encontrar os motivos que nos levam a descarregá-la sobre uma pessoa desconhecida para nós (pelo menos, no "ao vivo") como se isso não tivesse consequências para os outros. Precisamos nos ligar ao contexto em que vivemos, quem são as pessoas do nosso entorno, o que sentem, o que pensam, como transitam no mundo, na certeza de que não estamos sozinhos e o que fazemos tem, também, um impacto nelas. Precisamos nos reconectar uns com os outros, porque a internet, ao contrário do idealizado, parece ter criado uma "muralha de isenção", em que todo mundo pode fazer o que quer sem que isso interfira na vida de ninguém.

Ver Luíza chorando nos Stories doeu - e o nome da cantora foi parar nos assuntos mais comentados do Twitter -, porque tem um limite para o quanto é possível terceirizar os próprios sentimentos em alguém desconhecido - e achar que "não pega nada" ou, pior, "que ela deveria saber lidar com isso porque é famosa". 

Empatia de verdade gera compreensão e compreensão gera uma sensação inevitável e indiscutível de busca comum por uma solução. E, caso não tenha ficado claro, a atitude de muitos seguidores e críticos de Luísa não tem solucionado coisa alguma. Fica aí a reflexão.