'Precisamos separar o que é carnaval de rua do que é show de artista', diz presidente de associaçao de blocos

Renan Rodrigues
Baile A Favorita

Associações que representam blocos de rua da cidade defenderam, nesta segunda-feira, a necessidade de diferenciar "blocoshow" das manifestações carnavalescas tradicionais do Rio. Neste domingo, houve tumulto na dispersão do Baile da Favorita, que reuniu cerca de 300 mil pessoas na praia de Copacabana. Para Rita Fernandes, presidente da Sebastiana, uma das associações de blocos cariocas, mais importante que o tamanho do público é preciso levar em consideração se o bloco possui relação cultural com o bairro, como são os casos da Banda de Ipanema e do Simpatia É Quase Amor, que continuam desfilando em Ipanema.

— Nem tudo que se diz carnaval, é. Muita coisa se apropria dessa nomenclatura, mas que não faz, necessariamente, parte do modelo de carnaval autêntico dessa cidade. O que a gente quer dizer com isso? Tem que separar os que são chamados megablocos ou blocoshow. A importância não é o tamanho, mas a natureza do evento. O Bola Preta é grande, mas é originalmente uma manifestação carnavalesca. Quem vai canta marchinha, vai fantasiado. Precisamos separar o que é carnaval de rua do que é evento e show de artista para que os problemas desses shows não respinguem no carnaval, caso contrário a repressão se dará em todos os momentos e a identidade carioca sofrerá retaliações — pondera Rita Fernandes.

Na mesma linha, o presidente da Liga Amigos do Zé Pereira, Rodrigo Rezende, divulgou uma nota em que afirma que carnaval de rua é composto por "cariocas comuns, que saem às ruas com alegria e transformam-se no artist, na atração. Quando um (ou mais) mega artistas juntam-se, sem outras atividades na cidade para dividir o público, e em um lugar residencial, a chance de problemas é muito grande".

— A gente fica preocupado em relação às autorizações. Estamos lutando há meses para conseguir as nossas autorizações. A gente fica preocupado com a realização desses megashows porque não representam a maioria do carnaval carioca. Não sou contra que haja manifestação, mas temos que cuidar para que isso não atrapalhe o carnaval tradicional. Para um show você precisa de um outro tipo de estrutura. Deve ser feito, de preferência, em local fechado ou que seja numa área que não seja residencial. Esses blocos shows se encaixariam bem no Parque Olímpico — acrescenta Rezende.

O presidente da Sociedade Amigos de Copacabana, Horácio Magalhães, que na semana passada se posicionou contrário à realização do show, disse que o tempo mostrou que os moradores do bairro tinham razão:

— Acompanhamos com muita tristeza e indignação porque, para a gente, já era esperado. O tempo mostrou que a gente tinha razão, infelizmente. Esse bloco traz um público muito grande, e que tem um histórico de ocorrer esses episódios tristes. Favorita é problema na certa. Não é por implicância, não. Há um precedente.

A promoter Carol Sampaio, uma das organizadoras do Baile da Favorita, se disse, em nota, indignada e que ficou surpresa com a ação repentina da Guarda Municipal. "Refutamos todas as tentativas descabidas de tentarem injustamente nos responsabilizar pelo o que não originamos!", afirma trecho da nota, que acrescenta: "As explicações precisam ser dadas ao povo carioca, a todos os que estiveram  presentes, e que tinham a expectativa de um desfecho de domingo completamente diferente do lastimável que sofremos".

O GLOBO procurou a Guarda Municipal nesta segunda-feira e aguarda retorno.

Um dia após o tumulto na dispersão do Baile da Favorita, na abertura do carnaval carioca, o Ministério Público do Rio de Janeiro informou que teve dois pedidos negados na Justiça para tentar impedir a realização do evento. Ontem, o órgão divulgou a petição apresentada na Ação Civil Pública em que diz que a realização do Bloco da Favorita poderia "acarretar risco à incolumidade pública (quando há risco coletivo), à integridade física, à segurança e à vida de grande parte da população, considerando a previsão de mais de meio milhão de pessoas presentes".

A escolha de Copacabana como palco do evento também foi mencionado pelo órgão. "Agregado a isso, tem-se ainda, a inadequação do lugar escolhido para a realização do evento, notadamente em razão dos impactos urbanísticos gerados em bairro predominantemente residencial, o que se agudiza (tornar intenso) ainda mais em razão das notória falta de antecedência necessária para a articulação com os demais setores públicos, como transporte e limpeza urbana, controle de tráfego, interdição de vias e de áreas de estacionamento, bem como a devida orientação da população carioca sobre as medidas de exceção adotadas para comportar o mega evento", diz trecho da petição inicial da Ação Civil Pública apresentada pelo MPRJ à Justiça.