Preconceito é determinante para pobreza menstrual em homens trans

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****ARQUIVO***CURRALINHO, PA, 11.02.2022 - A dificuldade e falta de renda para comprar absorventes higiênicos. O grupo
****ARQUIVO***CURRALINHO, PA, 11.02.2022 - A dificuldade e falta de renda para comprar absorventes higiênicos. O grupo

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O publicitário Luca Scarpelli, 31, teve uma crise de ansiedade quando viu uma mancha de sangue na cueca e achou que era menstruação. O criador de conteúdo Stefan Costa, 26, pedia para outras pessoas comprarem absorventes para evitar passar por constrangimentos. Já o estudante de Letras Diego Bittencourt, 18, lembra a vergonha e o medo que sentia ao frequentar o banheiro masculino da escola.

Os três são homens transexuais que tiveram que lidar com a menstruação durante um certo período da vida. Hoje, já não passam mais por isso devido à hormonização, mas relatam que os ciclos foram causadores de angústia e ansiedade em suas vidas, uma vez que o tema é sempre associado a algo feminino pela sociedade.

Os relatos deles se enquadram no fenômeno chamado pobreza menstrual. O termo, comumente associado à falta de acesso a produtos de higiene menstrual, estende-se também à falta de infraestrutura sanitária adequada e de informação suficiente para lidar com o período.

Uma pesquisa publicada no início de fevereiro apontou que 42% dos jovens que menstruam utilizam um absorvente por mais tempo que o indicado. A falta de dinheiro para adquirir um protetor íntimo já foi vivida por 32% dessas pessoas.

O levantamento foi realizado pela Inciclo, empresa especializada em coletores menstruais, e Espro, organização especializada na capacitação de jovens em busca do primeiro emprego, e ouviu mulheres, homens trans e pessoas não binárias de 14 a 24 anos.

O levantamento não destrincha os resultados por identidade de gênero —porém, a amostragem vai de acordo com o resultado da pesquisa da Unesp, que aponta que a população adulta que se identifica como não-binária (não pertencem a um gênero exclusivamente) e homens transmasculinos, no Brasil, corresponde a 1,19% e 0,33%, respectivamente.

Outro dado apontado pelo estudo foi que, por falta de absorvente, um a cada cinco jovens que menstruam no Brasil faltam às aulas. Quando Diego Bittencourt se entendeu como transexual, ele estava no ensino médio. Após ser vítima de ataques transfóbicos na escola, ele passou a ter medo de frequentar o banheiro, principalmente quando menstruava.

"Quando eu menstruava, eu dava um jeito de ir o mais rápido possível, enfiava um papel e saía. Eu também amarrava uma blusa na cintura para não aparecer a mancha e, às vezes, chegava em casa sujo."

Durante o período menstrual, ele recorda que chorava todos os dias. "Quando meu ciclo foi encurtado no tratamento hormonal foi o que mais me deixou feliz no mundo", diz ele. Hoje, quando precisa, é o pai quem compra absorventes para ele.

Pessoas transexuais sofrem, na maioria das vezes, com a "raiz da cisgeneridade", define Bernardo Gonzales, colaborador da Antra (Associação Nacional de Travestis e Transexuais) e professor de física. Por isso, desenvolvem vergonha da própria menstruação como se aquilo não estivesse de acordo com o que gostariam para si mesmos.

Para ele, a pobreza menstrual para a população transmasculina começa quando ouvem frases relacionadas à menarca, como "virou mocinha".

Ele cita ainda que, para piorar a situação, os banheiros masculinos costumam constranger ainda mais, já que muitos não têm papel higiênico ou cabine para realizar a troca de um absorvente.

Alvarez diz que há um perigo quando homens trans passam a esconder a menstruação. "A pessoa não vai buscar informação sobre como fazer aquilo de forma sustentável e saudável. Esconder significa também se expor a vários tipos de doenças. A pessoa não vai querer, por exemplo, ir muitas vezes ao banheiro para trocar o absorvente".

Foi pensando nisso que o publicitário Luca Scarpelli, que tem o canal Transdiário no Youtube e Instagram, criou conteúdos para ajudar a explicar a menstruação de uma forma que converse com todas as identidades de gênero.

No Instagram, ele fez um guia sobre o primeiro ciclo para pessoas transmasculinas. "Precisamos desvincular a biologia das identidades de gênero. Existem corpos que menstruam, assim como existem corpos que têm ovário ou que tenham próstata."

Mas, para ele, o ciclo menstrual é o seu ponto de maior disforia, termo relacionado à sensação debilitante de desconexão com o sexo atribuído no nascimento. Quando adolescente, por exemplo, Scarpelli fazia dietas que consistiam em passar mais de um dia sem se alimentar. Por isso, parou de menstruar.

"Naquela época, foi uma coisa boa para mim. Eu não tinha uma relação de querer ficar muito magro. A questão era amenizar as características do meu corpo que me remetiam ao feminino, como bundão, coxão e menstruação."

Hoje, ele entende que o corpo estava dando um sinal que não estava bem. Aquilo era visto como uma vitória, pois, quando menstruava, era como se sentisse uma "comprovação mensal de que eu não era homem".

Stefan Costa, que tem a página Trans Boy Life no Youtube e no Instagram, compartilhava do mesmo sentimento que Luca e lembra que, quando iniciou a hormonização, levou um tempo até que a menstruação parasse. "A menstruação sempre foi algo terrível para mim, pois era ligada ao feminino."

Ele afirma que, apesar dos problemas com a menstruação, nunca faltou item de higiene. Porém, para evitar constrangimento, pedia para outras pessoas comprarem absorventes para ele.

O trauma ainda não passou, e ele admite que, até hoje, se sente mal quando compra absorvente para a esposa. "As pessoas ficam olhando. Me encaram. É constrangedor", afirma.

Depois que iniciou o tratamento hormonal, teve que lidar ainda um pouco com a menstruação e escapes. "Foi complicado, como toda a minha vida foi. Quando começamos a hormonização, achamos que seremos inseridos no mundo e universo masculino. Mas, não é bem assim".

Para ele, ir na farmácia em busca de um absorvente ou remédio para cólica é sempre ver como a menstruação é associada com o feminino. "Para desconstruir isso, ainda é um caminho muito longo", diz ele.

De fato, empresas ainda patinam quando o assunto é ampliar o diálogo da menstruação para além do feminino. A reportagem entrou em contato com cinco delas.

A Intimus foi questionada se prevê alguma ação para incluir diferentes identidades de gênero em seus produtos, porém se limitou a dizer que a intenção da marca não é excluir ou discriminar pessoas de qualquer gênero.

A Sempre Livre, que foi criticada em 2021 por realizar uma pesquisa sobre pobreza menstrual em que ouviu só mulheres, afirmou que pode trazer novos recortes em outro estudo. A empresa passou a falar "pessoas que menstruam", ao invés de só "mulheres", e também tem utilizado "cuidados íntimos" ao invés de "cuidados femininos".

Em 2019, a Always retirou o símbolo feminino de absorventes, mas foi criticada, em 2021, por realizar uma campanha chamada #MeninaAjudaMenina. A marca afirmou que a campanha teve como base uma pesquisa que destacou que 25% das meninas brasileiras já faltaram na escola pela falta de absorventes e lançará uma nova campanha, em 2022, chamada #MaisAbsorventesMenosFaltas.

Já a Pantys é uma das únicas marcas que tem produto para este público específico, com cuecas absorventes. Apesar da iniciativa, há quem reclame do preço, uma vez que a unidade sai por R$ 100.

A empresa afirma ter ciência de que a cueca não é acessível a todos, porém calcula que, por ser reutilizável, o produto tenha um retorno financeiro a médio prazo. Por fim, a Inciclo informou que está no processo de desenvolvimento de uma cueca absorvente.

Fe Maidel, psicóloga e especialista em gênero e sexualidade, resume que o senso comum exclui os homens trans do processo da menstruação. "O produto é um coletor de fluídos corporais. É preciso repensar estruturalmente o que está sendo falado errado. Não é só a caixinha cor-de-rosa que está escrita ‘absorvente feminino’, são valores que estão sendo atribuídos, que estão sendo discutidos na sociedade."

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PARA VOCÊ SABER MAIS

Cisgênero: é a pessoa que se identifica com o gênero que lhe foi atribuído ao nascer e com o seu sexo de nascimento

Disforia: angústia persistente devido à incompatibilidade entre o gênero com o qual a pessoa se identifica e o que lhe foi atribuído no nascimento, podendo estar associada a doenças como ansiedade e depressão

Transgênero: É um indivíduo cuja identidade de gênero difere em diversos graus do sexo biológico

​Transmasculinidade: termo que abrange indivíduos transgêneros e/ou transexuais que se identificam com o gênero masculino, podendo se considerar homens, mas não necessariamente

Transexual: É a pessoa que passa por uma transição social que pode ou não incluir tratamentos hormonais ou cirúrgicos com o objetivo de se assemelhar com o gênero com o qual se identifica

Transfobia: Termo que designa preconceito e discriminação contra pessoas trans e travestis. Em 2019, o STF (Supremo Tribunal Federal) enquadrou a transfobia na lei de crime de racismo até que o Congresso Nacional aprove uma legislação sobre o tema

Hormonização: Refere-se ao tratamento hormonal que permite pessoas de se expressarem e serem reconhecidas pela sociedade dentro dos limites do gênero com o qual se identificam ou com o qual preferem ser identificadas

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