Precursor dos remixes, DJ Meme se reinventa e lança álbum com suas composições

Para entrar no estúdio do DJ Meme, num sobrado em Botafogo, é necessário atravessar um longo corredor escuro que lembra a entrada de um clube noturno. Ao fim do trajeto, em vez de encontrar uma pista de dança, o visitante dá de cara com outra espécie de reduto musical. O habitat do DJ é um espaço pequeno, sem janelas, com uma mesa de som desativada, um piano, um sintetizador, um computador Apple gigantesco e uma caixa cheia de DATs.

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A sigla batiza as fitas usadas nos anos 1990 para armazenar músicas em alta qualidade. Da tal caixa saiu parte do material para o álbum “Classics reboot vol. 1”, já pronto e com previsão de lançamento pela Universal Music até o fim do ano. Antes disso, porém, o DJ se arrisca em território até há pouco tempo desconhecido para ele. Aos 57 anos de idade e 46 de carreira (sim, ele começou nas festinhas de playground aos 11), o hoje consagrado DJ Meme abandonou os remixes para adentrar o universo dos músicos tradicionais. Reuniu 37 deles para executar suas composições para o disco “Som bacana”, lançado pela gravadora Sony Music na última sexta-feira.

— É uma volta ao que eu ouvia em casa quando era criança: jazz, música brasileira e bossa nova — conta o DJ, lembrando que sua mãe, a socióloga Dalva, é fã dos medalhões da MPB, de Gil a Caetano; e seu pai, o engenheiro Simão, foi o responsável por apresentá-lo à sofisticação jazzística de Charles Mingus, Eumir Deodato e absolutamente tudo o que Tom Jobim fazia.

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Com a discoteca privilegiada à disposição, o pequeno Marcello Mansur, nascido em Copacabana e criado no Leblon, resolveu cedo que sua profissão estaria ligada à música. Começou como vendedor, aos 15 anos, numa loja de discos. Aos 19, foi reprovado no teste para locutor da rádio Transamérica. Alguns meses depois, conseguiu uma vaga de operador de áudio na mesma casa. Começou a brincar com as “montagens”, criando versões exclusivas de sucessos pop da época, o auge dos anos 1980.

Medley fez diferença

Um medley do Paralamas do Sucesso chamou a atenção do então diretor da Polygram, Marcelo Castello Branco (hoje diretor-executivo da UBC, União Brasileira de Compositores), que o convidou para assinar um remix oficial do Biquini Cavadão pela gravadora.

O convite foi o passaporte de entrada de Meme para o time dos precursores dos remixes brasileiros, ao lado de artistas como os DJs Irai Campos, Grego e Cuca. Ao longo das décadas, apurou seu domínio técnico e artístico ao usar botões e computadores como instrumentos. Mas não se sentia preparado para lidar com músicos de “carne e osso”. Pelo menos era o que ele pensava até idealizar o repertório de “Som bacana!”.

— Nunca achei que estivesse preparado para isso. Quando a Cris Delanno me mostrou a letra de “Calçadão” (uma das duas faixas que carregam a voz da cantora no álbum), me bateu a coragem para reunir os músicos. E tive que reaprender tanta coisa... — diz o DJ.

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A aprendizagem segue mesmo depois de 23 discos de ouro, 15 de platina e três de diamante, conquistados na produção musical de remixes e EPs de Lulu Santos, Gabriel O Pensador e Barão Vermelho, entre outros.

“Foi com o disco de remixes ‘Eu e Meme, Meme e eu’ que eu vendi, pela primeira vez, um milhão de qualquer coisa”, disse Lulu em recente entrevista para o programa “Conversa com Bial”.

Em um “Som bacana!”, o parceiro Lulu aparece ao lado de Marcos Valle, com quem divide, pela primeira vez, os vocais em uma canção. O encontro acontece na faixa “Planadores”, com letra de Lulu.

— O Meme é um craque. Ele conseguiu juntar músicos que não apenas se conhecem muito bem, mas também se gostam — diz Valle, que por sua vez também participa dos teclados da faixa “Fonseca rhyme”, um interlúdio estrelado pelo violonista Celso Fonseca.

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A extensa lista de estrelas de “Som bacana!” vai de Nelson Motta, com quem divide a composição de “Morena de Ipanema”, a Lincoln Olivetti (que aparece numa homenagem póstuma, ao fim do disco) à jovem cantora Adora, que entrega potentes vocais em “Diga que sim”, faixa que já tem clipe pronto para estreia nas redes sociais.

Parada forçada

“Som bacana!” foi realizado entre 2018 e 2019. Em 2020, o mundo entraria em estado de isolamento. Sem festas para tocar, o DJ se viu preso no próprio estúdio. E lembrou-se daquela caixa de DATs — a tal que daria origem ao “Classics reboot vol. 1”. Ao futucar os arquivos, achou uma fita antiga, com “Fullgás”, de Marina Lima. E resolveu brincar com os diversos elementos da faixa. Começou destacando mais a guitarra do Liminha aqui... esticou a introdução da música ali... refiltrou vocais acolá... e acabou reconstruindo toda a estrutura da faixa, transformando-a numa track de house music, pronta para a pista. E a entregou para o DJ Marky, um dos nomes brasileiros mais reconhecidos internacionalmente.

— Toquei a música numa live durante a pandemia e as pessoas foram à loucura — conta Marky ao GLOBO, de Londres, onde está em turnê. — O Marcello conhece muito bem o território dele.

“Fullgás” foi a primeira das 11 faixas totalmente remixadas para o novo disco. Também integram o álbum versões house dos hits pop “Daqui pro Méier”, de Ed Motta, “Quero um baby seu”, de Caetano Veloso, “Lança perfume”, de Rita Lee, “Óculos”, do Paralamas do Sucesso, entre outros. Ainda sem data de lançamento, o disco também contará com um minidocumentário com entrevistas dos popstars que participam do projeto. Pelo visto, a festa nunca vai acabar.

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