Prefeito de Chapecó omite lockdown e distorce fatos ao atribuir recuo da Covid a tratamento ineficaz

KATNA BARAN
·3 minuto de leitura

CURITIBA, PR (FOLHAPRESS) - O prefeito de Chapecó (SC), João Rodrigues (PSD), utilizou informações distorcidas ao afirmar que a cidade está com os números da pandemia em queda e volume de internações por Covid-19 "próximo de zero". As declarações foram feitas em vídeo divulgado neste domingo (4) e comentadas pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido). O prefeito atribuiu a redução à implantação de medidas como a indicação de "tratamento precoce" contra a doença, entre outras. Entre as informações omitidas pelo prefeito está a de que os índices somente começaram a cair após a imposição de um lockdown, entre 22 de fevereiro e 8 de março. Até Rodrigues assumir a prefeitura, em janeiro, Chapecó somava 123 óbitos por Covid-19. Desde então a taxa cresceu mais de quatro vezes, chegando a 537 nesta segunda-feira (5). Quanto ao número de casos ativos, eram 941 em janeiro. O número se manteve estável até início de fevereiro, quando havia perto de 800 moradores com a doença, mas, a partir de então, seguiu numa crescente, chegando a 5.000 em 1º de março. Agora, chegaram a 392, segundo boletim epidemiológico da prefeitura. Apesar de o volume de internações ter diminuído nos últimos dias, o índice continua acima do patamar do início do ano. Em 5 de janeiro, a cidade tinha 69 pacientes internados. Um mês depois, chegou a 84. Já em 5 de março, eram 351. E, nesta segunda-feira, somavam 193 internações. Logo que assumiu em janeiro, Rodrigues montou em Chapecó um ambulatório especializado no chamado "tratamento precoce", com indicação de remédios como ivermectina e azitromicina em pacientes com Covid-19. As substâncias não têm eficácia contra a Covid-19. Na ocasião, ele também liberou eventos na cidade, como aniversários, batizados, casamentos e festas. Também ampliou o horário de funcionamento de bares e autorizou apresentações musicais nesses locais. Após a explosão de casos, a prefeitura restringiu comércio e serviços no município, que permaneceu durante semanas sem leitos de UTIs e teve que transferir pacientes para outros estados. O lockdown "parcial" durou 14 dias. Em cerimônia nesta segunda, Bolsonaro afirmou que viajará nesta semana para Chapecó onde, segundo ele, o prefeito fez um "trabalho excepcional" no "atendimento na ponta da linha" para o paciente de Covid. Apesar de ter ressaltado no vídeo uma unidade de tratamento semi-intensivo estava sendo fechada por falta de pacientes, as UTIs da cidade continuam lotadas. Boletim da própria prefeitura de Chapecó aponta que 100% dos leitos especializados --públicos e privados-- para tratamento da doença estavam ocupados nesta segunda. No Hospital Regional do Oeste, referência na região, restavam disponíveis apenas três dos 128 leitos ativos de UTI para Covid-19, segundo o painel do governo catarinense. A Unidade de Tratamento Semi-Intensivo do Centro de Eventos de Chapecó, citada pelo prefeito no vídeo, foi instalada justamente para desafogar o sistema de saúde. O local começou a funcionar no dia 24 de fevereiro, inicialmente com um espaço de observação e apoio, mas passou a ter a atual denominação a partir de 5 de março, quando virou acomodação para doentes em estado mais grave. O espaço foi montado com recursos próprios da prefeitura, doações da comunidade e da campanha SOS Chapecó, promovida pelas entidades do centro empresarial da cidade.