Prefeito em exercício do Rio sanciona lei que torna patrimônio cultural brincadeiras tradicionais infantis

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RIO — "Brincadeira de criança, como é bom". Como na letra do pagode do grupo Molejo, popular nos anos 1990, uma lei sancionada nesta quinta-feira pretende preservar e incentivar atividades praticadas pelas crianças desde a década de 1970 até a época da música. Em plena era da tecnologia, com as crianças ligadas nas telas, a nova legislação declara como Patrimônio Cultural do Povo Carioca um conjunto de brincadeiras que fez a alegria de seus pais e avós, como soltar pipa, jogar bola, rodar pião, andar de carrinho de rolemã, jogar queimado, peteca, pular amarelinha e corda, entre outras.

A iniciativa é do vereador Luciano Vieira (Avante) e foi sancionada nesta quinta-feira pelo prefeito em exercício Carlo Caiado. O texto da lei diz que "o Poder Executivo, através de seus órgãos competentes, apoiará as iniciativas que visem a valorização e divulgação desta cultura, bem como oferecerá áreas específicas para que a prática dessas brincadeiras possam continuar ocorrendo na Cidade."

Carlos Magno da Silva, presidente da Associação de Pipeiros do Estado do Rio de Janeiro (Aperj) ajudou a redigir a lei e comemorou sua sanção:

— A pandemia ajudou nesse sentido de a gente voltar um pouco no tempo. Nunca se viu tanta pipa no céu carioca como nesse período. A gente vê a criançada muito focada nas telas. É celular, televisão e videogames, se afastando das brincadeiras antigas. A ideia de ter uma lei valorizando essas brincadeiras tradicionais é uma forma de a gente ter uma desculpa para poder introduzir isso nas escolas. Talvez um pai possa achar interessante reviver sua infância e voltar a brincar com o filho. Se continuar do jeito que está hoje, dificilmente as crianças vão ter brincadeiras saudáveis ao ar livre, que movimentem o corpo e garantam atividades físicas — avalia.

A associação de Pipeiros tem mais de três mil pessoas cadastradas, mas Carlos Magno acha que o universo dos apreciadores dessa brincadeira possa ser bem maior. Segundo ele, só uma rede social da entidade reúne mais de 14 mil seguidores. Já o número de praticantes pode passar das 100 mil, pelas suas contas.

Ele acredita que a pipa foi uma das poucas brincadeiras antigas e tradicionais a sobreviver, porque se tornou competitiva, no caso da pipa grande. Ele acredita que a prática desportiva pode ajudar a resgatar do esquecimento outras brincadeiras.

Patrimônio estadual

A pipa, uma brincadeira que há anos entretém crianças e adultos no subúrbio e nas comunidades do Rio, já havia ganhado título de patrimônio cultural, histórico e imaterial do estado. De autoria do deputado Paulo Ramos, a lei que torna a prática de origem oriental de empinar pipas um bem do Rio de Janeiro foi sancionada em março de 2018 pelo então governador Luiz Fernando Pezão.

Além de salientar o aspecto lúdico e de lazer, na época o deputado Paulo Ramos defendeu a lei argumentando que as pipas tiveram importância para pesquisas e descobertas científicas e são populares há muitos anos em todo o estado.

Apesar do caráter lúdico e recreativo das pipas, ressaltados pelo deputado Paulo Ramos para a justificar o título de patrimônio cultural, histórico e imaterial do Rio, as artimanhas usadas pelos praticantes para tornarem a linha mais cortante levam riscos até para quem não participa da brincadeira. O cerol e a “linha chilena” — um fio de algodão, encerado com quartzo moído e óxido de alumínio — é quase unanimidade entre os participantes da brincadeira.

Para tentar barrar a comercialização, o estado sancionou em novembro de 2017 outra lei, proibindo a venda de “cerol e linha chilena”, além de prever multa para quem vende e o fechamento do estabelecimento.

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