Prefeito paulistano enfrenta brigas internas e cola na imagem de Covas

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***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 31.05.2021 - O prefeito de SP, Ricardo Nunes. (Foto: Zanone Fraissat/Folhapress)
***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 31.05.2021 - O prefeito de SP, Ricardo Nunes. (Foto: Zanone Fraissat/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Há um mês à frente da prefeitura da maior cidade do país, Ricardo Nunes (MDB) se manteve colado à imagem de Bruno Covas (PSDB) e já tem de manejar disputa política entre os diversos grupos que fazem parte de sua base de apoio.

O discurso de continuidade em relação a Covas, morto em decorrência de um câncer em 16 de maio, é visto como um meio de tranquilizar secretários, vereadores e o eleitorado nesse primeiro momento e até de se blindar contra eventuais questionamentos.

As ligações controversas de Nunes com entidades gestoras de creches na capital (ele nega irregularidades) e uma queixa de ameaça registrada pela esposa, reveladas pelo jornal Folha de S.Paulo, acabaram servindo de munição de adversários contra a chapa de Covas e do então vereador emedebista durante as eleições em 2020.

Além disso, ideologicamente, Nunes tem um perfil diferente do do tucano e é ligado à ala conservadora da Igreja Católica. Em 2015, ele atuou contra a chamada "ideologia de gênero" (como conservadores se referem a menções à diversidade sexual), mas refuta o conservadorismo e se diz uma pessoa de centro.

Nunes assumiu a prefeitura provisoriamente após licença de Covas, no início de maio. Há um mês, assumiu a função, com a morte do tucano.

Considerado discreto, solícito e cordial, Nunes tem cumprido intensa agenda de trabalho, com participação em eventos, inaugurações e visitas a equipamentos públicos, a fim de se tornar mais conhecido pela população, além de reuniões com secretários e líderes do governo.

Na rua, está sempre acompanhado de técnicos e assessores. Eles entram em cena para explicar questões mais específicas, como a concessão do Anhembi à iniciativa privada, ou ainda para garantir que as respostas dadas a jornalistas não causem ruído.

Para reforçar a ideia de continuidade, Nunes tem se cercado de nomes fortes da gestão Bruno Covas, como os secretários da Saúde, Edson Aparecido, e de governo, Rubens Rizek. Ele refuta qualquer troca na chefia das pastas.

Ainda assim, já começa a trazer algumas pessoas mais próximas, como o ex-subprefeito da Vila Mariana, Diogo Soares, agora secretário-executivo.

Nunes também nomeou o consultor ambiental Antonio Fernando Pinheiro Pedro para o cargo de secretário-executivo de Mudanças Climáticas. A escolha foi vista como um sinal ambíguo que dificilmente seria emitido por Covas, já que Pedro colaborou com a política ambiental do governo Jair Bolsonaro.

Como parte do movimento de se manter atrelado a Covas, o atual prefeito trouxe a ex-mulher do tucano, Karen Ichiba de Oliveira, como assessora na agência reguladora de serviços públicos da cidade.

Ao longo de uma campanha na qual Nunes foi a principal vidraça da chapa, pessoas próximas dizem que ele desenvolveu uma relação de amizade e gratidão a Covas, que bancou sua permanência.

Ele não era a primeira opção para a posição de vice, e sua escolha foi resultado de uma costura envolvendo João Doria (PSDB) e o MDB.

Durante o período em que Covas ficou doente, a ordem à equipe era continuar trabalhando. De acordo com essa premissa, Nunes manteve agenda mesmo no dia seguinte à morte do tucano.

Nos primeiros 30 dias, privilegiou visitas à zona sul da cidade, seu berço eleitoral. Foram ao menos dez participações em eventos, como doação de cestas básicas e campanha de vacinação de motoristas e cobradores de ônibus. Ele nega que tenha priorizado a região.

Em razão da pandemia, a maior parte das agendas tem sido ligada à área da saúde, como a entrega de leitos para tratamento de pacientes com Covid, melhorias em hospitais e início da vacinação de grupos prioritários.

Ligado ao empresariado, Nunes abriu espaço na agenda para representantes do sindicato dos professores da rede municipal, categoria que estava em greve desde o início do ano letivo, e lideranças como o padre Julio Lancellotti, que trabalha com a população em situação de rua.

O prefeito também tem se mostrado ativo nas redes sociais. Em suas contas, há registros diários de reuniões com secretários, eventos e anúncios de medidas positivas, sempre acompanhados da #gestãobrunocovas.

Para o cientista político Marco Antonio Teixeira, da FGV, Nunes deve demorar a sair da sombra do tucano por falta de capital político.

"[Nunes] era um vereador tímido, não tinha muita projeção sobre a cidade. Como uma liderança fraca, ele tem muitos senhores", diz. "Agora a gente está vendo um prenúncio de crise com a bancada do PSDB. A nomeação de um bolsonarista para o meio ambiente já causa certo mal-estar, porque de alguma maneira é algo que foge da linha que o Covas vinha tentando dar."

Membros da gestão municipal ouvidos pela reportagem dizem acreditar que Nunes não fará grandes mudanças no governo neste ano. Assim, o MDB se mantém no comando da prefeitura, o PSDB domina o primeiro escalão e o DEM, do influente presidente da Câmara, Milton Leite, segue com as secretarias e atuando em políticas de várias pastas.

A princípio, o grupo de Nunes achou que manter a configuração bastaria para conter a pressão, mas a estratégia não parece satisfazer a todos.

Integrantes do próprio partido do prefeito pressionam por mais espaço. Com só três vereadores e três deputados estaduais, o MDB vê na maior cidade do país a chance de ocupar postos de destaque, com cautela para não jogar Nunes nos braços do PSDB.

O tucanato ligado a Covas sondou Nunes para uma possível mudança de sigla. O emedebista avisou o partido, mas até agora não sinalizou que vá trocar de legenda.

Com medo de perderem espaço, vereadores tucanos têm se queixado de que agora precisarão batalhar mais pela sanção de projetos, mas oficialmente o partido ainda integra a base governista na Casa.

Nesse primeiro mês, Nunes fez questão de se mostrar próximo da Câmara, onde atuou como parlamentar ao lado de grande parte dos membros atuais. O afago veio por meio da sanção de projetos de vários vereadores, inclusive da oposição, como petistas, um parlamentar ligado ao MBL (Movimento Brasil Livre) e uma bolsonarista.

Além disso, tem feito reuniões com vereadores de cada legenda. Na semana que vem, deve receber os oito integrantes da bancada do PT, segundo Eduardo Suplicy (PT), líder do partido na Câmara.

"O novo prefeito ainda não deu passos significativos que indiquem uma mudança de rumo. Mesmo assim, vamos reforçar o diálogo acerca de projetos nossos e também falar da prorrogação, por decreto, do pagamento do renda básica emergencial", diz Suplicy.

Para Milton Leite, Nunes tem mantido o mesmo nível de diálogo com a Casa, e a agenda segue como a planejada no início da gestão. "Essa agenda não é do Bruno ou do Ricardo. Essa é a agenda que venceu as eleições, então temos de cumprir o nosso compromisso com o povo."

Depois de aprovar a alteração da Operação Urbana Água Branca, que barateia potencial construtivo ao mercado, Leite já mira o projeto que permite a instalação de antenas de 5G para operadoras de celular a fim de melhorar o sinal de internet em regiões periféricas. Para isso, ele afirma que permanece estruturada a base aliada na Câmara.

Em meio à rotina corrida de prefeito, Nunes continua respondendo a questões relacionadas às vidraças eleitorais.

Conforme a Folha de S.Paulo revelou, ele é próximo de entidades gestoras de creches terceirizadas e de donos de empresas locadoras dos imóveis onde funcionam as escolas ligadas a essas instituições.

O emedebista sempre afirmou que os vínculos se formaram com pessoas da mesma região em que vive, na zona sul de São Paulo, feitos antes de ter sido eleito vereador da cidade, a partir de 2012.

No último mês, veio à tona a existência de uma nova investigação do Ministério Público que inclui Nunes e empresas fornecedoras das creches, conforme revelou o jornal O Estado de S. Paulo.

O prefeito nega qualquer irregularidade em sua ligação com as creches. Ele tem repetido em entrevistas que outra apuração, aberta pela Promotoria em 2018 sobre um tema similar, não encontrou nada contra ele.

Nunes também mudou mais uma vez a estratégia para lidar com a questão de boletim de ocorrência registrado pela mulher, Regina Carnovale, em 2011, citando ameaças.

"Inconformado com a separação, [Nunes] não lhe dá paz, vem efetuando ligações proferindo ameaças, envia mensagens ameaçadoras todos os dias e vai em sua casa onde faz escândalos e a ofende com palavrões. Afirma a vítima que diante da conduta de Ricardo está com medo dele", dizia o documento revelado pela Folha de S.Paulo.

Na época eleitoral, a assessoria de Nunes chegou a enviar documento assinado pela mulher do prefeito dizendo: "Sobre o boletim, eu estava em um momento difícil, muito sensível e acabei dizendo coisas que não são reais".

Posteriormente, Regina disse ao jornal O Estado de S. Paulo que não lembrava de ter feito o boletim. Agora, o prefeito disse que o boletim não existe, segundo o UOL.

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