Prefeito de SP cita serviços prestados para justificar repasses de empresa investigada

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*ARQUIVO* SÃO PAULO / SÃO PAULO / BRASIL - 14/06/21 - Entrevista com prefeito Ricardo Nunes, que completa um mês à frente da prefeitura de São Paulo  ( Foto: Karime Xavier / Folhapress)
*ARQUIVO* SÃO PAULO / SÃO PAULO / BRASIL - 14/06/21 - Entrevista com prefeito Ricardo Nunes, que completa um mês à frente da prefeitura de São Paulo ( Foto: Karime Xavier / Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O prefeito Ricardo Nunes (MDB) citou nesta quarta-feira (6) a prestação de serviços como justificativa para os repasses que recebeu de empresa investigada na máfia das creches, constatados durante investigação policial.

Conforme documento da Justiça Federal obtido pelo jornal Folha de S.Paulo, a análise da quebra de sigilo bancário pela polícia paulista constatou que, em fevereiro de 2018, ele recebeu, da empresa Francisca Jacqueline Oliveira Braz, dois cheques no valor de R$ 5.795,08 cada um.

Ainda de acordo com o documento, a empresa também enviou outros R$ 20 mil à Nikkey Serviços S/S LTDA, companhia de controle de pragas em nome da mulher do prefeito, Regina, e de uma filha dele de relacionamento anterior, Mayara.

"Todas as ações são absolutamente lícitas, não existe nenhuma ilicitude", afirmou o prefeito nesta quarta durante agenda oficial. "Tanto é que você pode ver pelo valor, R$ 5.000 e alguns centavos, que foram serviços prestados. No dia em que eu for chamado, evidentemente, irei apresentar toda a informação necessária, nota fiscal dos serviços prestados."

Nunes ainda afirmou que é impossível saber se empresas estão sob investigação.

"A gente não tem como saber se você vai prestar um serviço, se você vai receber como serviço, se uma empresa é investigada ou não. Absolutamente impossível. Ainda mais se você pega uma cidade como São Paulo, que tem tantos milhares e milhares de empresas", disse.

O prefeito argumentou que o fato de alguém prestar serviço para uma empresa investigada não significa ter envolvimento com o objeto da investigação. "Não tem absolutamente nenhuma relação com nada", afirmou Nunes.

O prefeito disse também que não foi procurado pela polícia para tratar do assunto e que está à disposição para prestar esclarecimentos.

"Até o sigilo é para isso, para você poder, de repente, alguma dúvida, você poder esclarecer e não gerar essa repercussão, porque às vezes você faz uma explicação, resolve e acabou o assunto", disse.

Pelo que a polícia apurou até agora, a máfia das creches é um esquema que envolve o desvio de verbas por meio de notas fiscais frias e do não pagamento de encargos sociais de funcionários.

A empresa Francisca Jacqueline é vista como suspeita pela polícia de ser uma grande 'noteira' (fornecedora de notas) da máfia das creches. Somando créditos e débitos, ela movimentou mais de R$ 162 milhões com entidades gestoras das creches que levantam suspeita de fraude, diz documento.

Ela também era uma das fornecedoras da Acria (Associação Amiga da Criança e do Adolescente), entidade que gere creches conveniadas da Prefeitura de São Paulo com a qual Nunes tem proximidade. O atual prefeito e ex-vereador disse ser voluntário da entidade e conhece alguns de seus membros há vários anos.

Procurado pela Folha de S.Paulo anteriormente para esclarecer os repasses identificados na investigação, Nunes enviou uma nota por meio de sua assessoria. Ele não nega os repasses.

"O prefeito Ricardo Nunes, por meio de seus advogados constituídos, esclarece que, embora não tenha sido intimado para prestar esclarecimentos atinentes ao caso em voga, assim que soube da existência das investigações requereu acesso ao procedimento com intuito de auxiliar as autoridades na apuração dos fatos, o que se dará a partir da apresentação dos esclarecimentos à autoridade policial."

A nota diz ainda que "as movimentações apontadas a ele e à empresa Nikkey Serviços não possuem natureza ilícita, cujas justificativas serão apresentadas às autoridades".

Por fim, afirma que Nunes "jamais participou de qualquer evento fraudulento ao longo de toda a sua atuação profissional, quer seja no âmbito privado, quer seja no público, bem como torce e atua, com a maior presteza, para que todos os fatos sejam prontamente esclarecidos".

A reportagem da Folha de S.Paulo ligou e enviou email nesta semana para endereço que constava no cadastro da empresa Francisca Jacqueline, mas não conseguiu localizar nenhum responsável. No ano passado, a reportagem da Folha de S.Paulo foi pessoalmente à loja, mas a pessoa responsável na ocasião não quis se manifestar sobre a investigação policial.

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