Prefeitos lançam consórcio com meta inicial de comprar 20 milhões de vacinas

Renata Mariz
·3 minuto de leitura

BRASÍLIA — A Frente Nacional de Prefeitos (FNP) lançou oficialmente nesta segunda-feira o Consórcio Nacional de Vacinas das Cidades Brasileiras (Conectar) com uma proposta de obter 20 milhões de doses no primeiro semestre deste ano. O quantitativo foi sugerido pela consultora do consórcio, a epidemiologista Carla Domingues, ex-coordenadora do Programa Nacional de Imunização do Ministério da Saúde, para ser deliberado como meta, por ser considerado um dado realista.

Ela apontou três estratégias para obter as doses, em meio à escassez de vacinas no mundo e ao fato de o Brasil ter ficado no "fim da fila" em razão de atrasos nas negociações. A primeira seria tentar imunizantes via fundo rotatório da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), braço da Organização Mundial da Saúde (OMS). A segunda, investir em um entendimento com o consórcio Covax Facility, do qual o Brasil já é parte, para tentar ao menos uma antecipação de parte das doses adquiridas. E, por último, uma "pressão política internacional" junto aos Estados Unidos e outros países que tenham vacinas em estoque, a exemplo do que o Senado já fez, ao mandar carta para a vice-presidente estadunidense Kamala Harris pedindo para comprar o excedente de imunizante do país.

Questionada se a previsão de 20 milhões de doses não era insuficiente, Domingues afirmou que se trata de uma meta realista:

— Não vejo capacidade de os laboratórios fornecerem vacinas em curto prazo de tempo. Se o consórcio conseguir via essas três estratégias esses 20 milhões, vamos conseguir um êxito gigantesco diante desse problema de falta de produção mundial. Não vai ser possível passar na frente (de outros países), tem países da África que não começou sequer a vacinar.

Domingues disse que, com 20 milhões de doses adquiridas pelas prefeituras, será possível antecipar em um mês a previsão do Ministério da Saúde de chegar a 80 milhões de brasileiros — o que deve ocorrer, nos cálculos da epidemiologista, considerando os contratos assinados pelo governo federal com expectativas reais de serem cumpridos, entre julho e agosto.

Num cenário mais otimista, em que contratos ainda pendentes de garantias de obtenção da vacina — como a Sputnik V, que não têm produção no Brasil por enquanto — venham a se concretizar, a meta dos 80 milhões de imunizados pode ocorrer ainda no primeiro semestre.

— E (nesse cenário de contratos do governo federal se confirmarem) se o consórcio conseguir adquirir neste semestre 20 milhões de doses, podemos antecipar isso para 30 de maio, as entregas. Teríamos aí até 30 de junho toda a população desses 80 milhões de brasileiros sendo vacinados — afirma Domingues, considerando o prazo de um mês entre as entregas e distribuição e a efetiva imunização das pessoas.

O ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal; o ministro aposentado Ayres Britto e o presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Felipe Santa Cruz, estiveram no lançamento virtual do consórcio coordenado pela FNP. Ainda não há negociações avançadas em nome do consórcio, apenas iniciativas individuais que agora podem tomar corpo.

Já integram formalmente o consórcio, com direito de voto, 1.192 municípios, de 2.602 que manifestaram intenção de aderir, o que ainda pode ser feito. Em 29 de março deve ser escolhido o presidente do consórcio.