Prefeitos do PL ignoram Bolsonaro e aderem a Lula no Nordeste

Prefeitos do PL ignoram Bolsonaro e aderem a Lula no Nordeste

SALVADOR, BA, E RECIFE, PE (FOLHAPRESS) - Com um adesivo no peito que traz uma estrela e o número 13 ao centro, Roberval Galego (PL) posa para uma foto fazendo a letra L com a mão direita. Ele tem ao seu lado o atual governador da Bahia, Rui Costa (PT), o candidato ao governo Jerônimo Rodrigues (PT) e o senador Otto Alencar (PSD).

Prefeito de Dom Basílio, cidade de 12 mil habitantes no sudoeste da Bahia, ele não está sozinho no apoio a Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Os prefeitos das cidades vizinhas Maetinga e Presidente Jânio Quadros também aderiram ao petista. Em comum, os três são filiados ao PL, partido do presidente Jair Bolsonaro.

A Folha mapeou ao todo 142 prefeitos do PL na região Nordeste. Desses, ao menos 20 ignoraram a candidatura à reeleição de Bolsonaro e anunciaram apoio a Lula na disputa pela Presidência da República.

Dentre os demais líderes municipais, a maioria destaca seus apoios a candidatos a deputado, senador e governador, mas evitam se pronunciar quanto à corrida pelo Palácio do Planalto nas redes sociais.

Apenas três prefeitos citaram ou publicaram fotos de Bolsonaro em suas redes: Jânio Natal, de Porto Seguro (BA), Irmão Naldo, de Galinhos (RN), e Maciel Gomes, de Senador Elói de Souza (RN).

Procurado, o diretório nacional do PL não quis se pronunciar sobre o assunto.

O movimento dos prefeitos acontece na esteira da alta popularidade de Lula no Nordeste, que concentra 27% do eleitorado brasileiro. Como mostrou a última pesquisa Datafolha, o petista lidera a corrida presidencial entre eleitores da região com 57% das intenções de voto, ante 24% de Bolsonaro.

Um dos principais focos de dissidência é a Bahia, onde Lula crava 61%, contra 20% de Bolsonaro. Dos 20 prefeitos eleitos pelo PL em 2020 no estado, 13 anunciaram apoio a Lula e a Jerônimo Rodrigues.

Outros cinco estarão no palanque do ex-prefeito de Salvador ACM Neto (União Brasil) para o governo do estado e não citam quem apoiam para presidente. Apenas um -o prefeito de Porto Seguro, Jânio Natal- vai apoiar João Roma (PL), ex-ministro da Cidadania de Bolsonaro que concorre ao governo baiano.

O PL da Bahia fazia parte da base de apoio de Rui Costa, mas acabou se afastando do governo com a filiação de Bolsonaro, em novembro de 2021, à legenda comandada por Valdemar Costa Neto.

Prefeito de Cocos, cidade no oeste baiano que tem o agronegócio como principal atividade, Marcelo Emerenciano (PL) diz que decidiu apoiar Lula e Jerônimo Rodrigues devido à relação que alimentou nos últimos anos com o governador Rui Costa e o senador Jaques Wagner.

"A política é construída com relações profissionais, pessoais e principalmente por fidelidade. Não tinha outro caminho a seguir."

Ele diz que também tem uma relação muito boa com Costa Neto e que não tem planos de deixar o partido.

Lélio Júnior, prefeito de Presidente Jânio Quadros, no sudoeste da Bahia, afirma que seu apoio ao PT é uma espécie de gratidão aos recursos estaduais investidos na cidade. "Não é que eu ache Lula melhor. A gente faz parte do time de Lula. Mas deixo meus eleitores à vontade para votar em quem eles quiserem."

Lélio também diz se sentir à vontade no PL, partido ao qual já era filiado quando passou a abrigar Bolsonaro: "O presidente chegou depois. Gosto do partido e não pretendo me desfiliar".

Em Dom Basílio, o prefeito Roberval Galego (PL) também diz que pesou na sua decisão os recursos enviados pelo governador Rui Costa. A cidade tem 12 mil habitantes e vive da agricultura familiar. Assim, depende de recursos de convênios e parcerias para fazer investimentos.

"Como prefeito de um município pequeno de interior, posso afirmar que o investimento do governo federal no meu município é zero. Nossa cidade foi desprezada por Bolsonaro", afirma o prefeito, citando projetos de saneamento básico e educação que não tiveram recursos para sair do papel.

O cenário se repete em outros estados do Nordeste, caso de Pernambuco. Prefeito do Cabo de Santo Agostinho, na região metropolitana do Recife, Keko do Armazém (PL) também vai apoiar o petista.

"Pernambuco cresceu muito na gestão de Lula, assim como o Cabo. Foi no governo dele que o Porto de Suape teve grande desenvolvimento. A minha cidade era uma das que mais cresciam em Pernambuco", disse Keko, citando o complexo portuário localizado entre o Cabo e Ipojuca, no litoral pernambucano.

O prefeito afirmou ainda que definirá seu futuro partidário apenas depois das eleições de 2022.

Em Pernambuco, o PL é presidido por Anderson Ferreira, ex-prefeito de Jaboatão dos Guararapes e candidato a governador com o apoio de Bolsonaro. Ele diz que não pretende abrir processos de expulsão contra dissidentes.

"Não [pretendemos], porque nunca negociamos apoios nem temos a mordaça da velha política e dos coronéis do Sertão. (...) Queremos um compromisso com novas práticas", afirmou em nota.

Um prefeito do PL de uma pequena cidade do interior da Paraíba conversou com a Folha em reserva, por temer retaliações partidárias. A justificativa para apoiar Lula, disse ele, são os investimentos do governo do petista, entre 2003 e 2010, no Nordeste. Além disso, afirmou sentir uma maioria pró-Lula na cidade.

Para esse gestor municipal, um dos pontos frágeis do governo Bolsonaro é a assistência às camadas mais pobres. O prefeito avaliou que o reajuste do Auxílio Brasil para R$ 600 às portas da eleição e com validade apenas até dezembro pode não trazer dividendos eleitorais suficientes na busca pela reeleição.

Há também casos de prefeitos do PL que apoiam candidatos do PT para governos estaduais, mas não fazem menção direta a Lula nas redes sociais.

O prefeito de Baturité (CE), Herberlh Mota, apoia Elmano de Freitas (PT) para o Governo do Ceará e Camilo Santana (PT) para o Senado. Em Assu (RN), o prefeito Doutor Gustavo apoia a reeleição de Fátima Bezerra (PT), sem mencionar apoio explícito a Lula.