Prefeitura reconhece rodas de samba como bem cultural e patrimônio imaterial da cidade

Geraldo Ribeiro
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Foto: Domingos Peixoto / Agência O Globo
Foto: Domingos Peixoto / Agência O Globo

“Negro, forte, destemido. Foi duramente perseguido, na esquina, no botequim, no terreiro”. Assim Nelson Sargento descreve o samba em “Agoniza, mas não morre”, uma de suas composições mais conhecidas. O partido-alto, samba de terreiro e o samba-enredo, pricipais matrizes desse gênero tipicamente nacional, já haviam sido registrados como patrimônio imaterial brasileiro pelo Instituto do Patrimônio Histórico Nacional (Iphan) desde o ano passado. Agora chegou a vez das rodas de samba, uma manifestação tradicionalmente carioca e local de transmissão dessa cultura ser reconhecida como tal, pela prefeitura do Rio.

O reconhecimento foi oficializado pelo Decreto 48.171, publicado na segunda-feira, conforme noticiou o jornalista Ancelmo Gois, de O Globo. Com a medida, a prefeitura anuncia o registro das rodas de samba como bem cultural e patrimônio imaterial da cidade do Rio de Janeiro. A Secretaria municipal de Cultura destaca que o principal efeito prático disso é que agora a atividade passa a contar com um plano de preservação e salvagarda, que envolve duas dinâmicas: interface com a sociedade civil e plano de desenvolvimento econômico para a atividade. Porém, não explicou como isso vai acontecer.

O decreto destaca ainda a importância das rodas de samba para a movimentação da indústria criativa carioca, fomentando a cadeia produtiva. Um levantamento feito pela prefeitursa em 2017, quando foi criado o Calendário Oficial das Rodas de Samba Carioca, apontava para a existência de 213 rodas oficiais em toda a cidade, responsáveis pela geração de trabalho e renda para cerca de 4 mil músicos. As rodas informais, estão fora dessa conta, o que pode aumentar ainda mais esses números.

Silenciadas por sete meses, por conta da pandemia, as rodas de samba voltaram só no começo de outubro, já dentro dos novos protocolos da fase 6B de retomada das atividades, com medidas de segurança e distanciamento social. A tradicional roda, com público interagindo em volta foi desfeita. Em algumas, os músicos foram colocados em cima de um palco, como num show convencional, distantes da plateia isolada em cercadinhos ou mesas reduzidas. Para os organizadores dos principais eventos do gênero, a medida, embora que tardia, serve de alento em um ano especialmente difícil.

— Acho no mínimo curioso e estranho a prefeitura decretar roda de samba como patrimônio imaterial da cidade do Rio de Janeiro quando em menos de um mês praticamente todos os eventos foram liberados, com exceção das rodas de samba. Teve que todo mundo chiar para esses eventos serem incluídos na etapas de flexibilização. Agora, tudo que se refere a samba é importante porque é o que sobrevive de todas as fases e modismo da música brasileira. O samba sempre resiste. Então, ele ser considerado e ser respeitado é sempre uma coisa muito forte —destacou o compositor Moacyr Luz, que comanda o Samba do Trabalhador há 15 anos no Clube Renascença, no Andaraí.

Mário Castilho, do Samba da Feira, roda que acontece na Praça do Trem, no Engenho de Dentro, acha que o decreto dá legitimidade e segurança a esse tipo de manifestação cultural. Ele também acredita que esse reconhecimento é importante por possibilitar a abertura de uma porta importante para o financimento privado desses eventos, sobretudo, aqueles que são realizados em espaços públicos, sem a cobrança de ingresso.

— O mais importante é que esse decreto dá legitmidade às rodas de samba. Isso é muito importante para o movimento. A meu ver isso já deveria ter sido implementado há muito tempo, visto que o samba é raiz da cultura carioca há muitos anos. Mas, de certa forma, traz uma legitimidade e segurança para a gente que faz os eventos. E penso também que com isso possa abranger interesse de empresas privada no patrocínio às rodas de rua que sofrem muito pela questão de não poder cobrar entrada, já que a maioria é realizada em espaços públicos, e a gente precisa de incentivo financeiro não só do estado, mas de empresas privadas. Isso abre um horizonte para que a gente venha conseguir incentivos para os eventos — acredita.

Esse é o caso da Roda de Samba da Pedra do Sal, que acontece na Praça Mauá, Zona Portuária do Rio. Para Jefferson Oliveira,um dos organizadores, o decreto da prefeitura é um divisor de águas, num ano difícil para todos os brasileiros, mas em especial para quem vive desse tipo de evento.

— Antes tarde do que nunca. Já esperávamos por essa posição dos órgãos governamentais há anos. Mas, só agora, em ano de eleição ela veio. Ficamos felizes e estamos em uma crescente evolução desde a liberação. Nós da Roda de Samba da Pedra do Sal agradecemos o decreto e o vemos como um divisor de águas no ano mais difícil do milênio para a categoria.

Na avaliação do historiador e pesquisador Luiz Antônio Simas, o reconhecimento das rodas pela prefeitura era algo natural e esperado, uma vez que o samba já havia sido considerado patrimônio imaterial brasileiro pelo Iphan. Na sua opinião, com o decreto o município reconhece que a cidade é marcada pela presença das culturas africanas e afrodescendentes e, nesse aspecto, essa manifestação cultural ganha um importante instrumento de luta contra a intolerância. Como efeito prático da medida, destaca a movimentação da economia criativa.

— O primeiro efeito prático que a gente tem é ganhar mais um instrumento na luta contra a intolerância, porque a cidade do Rio de Janeiro tem sido muito marcada nos últimos tempos por uma verdadeira guerra caracterizada pela intolerância contra as manifestações das culturas afro-brasileiras e eu não desvinculo a roda de samba do terreiro de macumba e da roda de capoeira. Eu acho que fazem parte de um mesmo complexo cultural. Existe também a questão da economia criativa da cidade. Nas rodas de samba você não tem apenas um registro do patrimônio da história do Rio, mas também um mercado de trabalho muito importante. E. nesses tempos de pandemia e pensando numa perspectiva do futuro eu acho que qualquer tipo de estímulo aos movimentos ligados ao samba e as rodas de samba também está se inserindo na economia criativa da cidade e vai se crucial para que a cidade se recupere de tudo que está acontecento — avalia Simas.