Prefeitura registra maior circulação de pessoas em 18 bairros do Rio e Zona Oeste lidera ranking de aglomerações

Rafael Nascimento de Souza
Calçadão da Praia do Recreio lotado em mesmo com resrições para a circulação de pessoas (26-04-2020)

RIO - Com mais de cinco mil pessoas infectadas e quase 500 registros de óbitos em decorrência da Covid-19 no município, dados da Prefeitura do Rio revelam que em muitos bairros a população não está respeitando o isolamento social e evitando aglomerações. O Centro de Operações da Prefeitura registra um aumento gradativo de pessoas em alguns locais há pelo menos duas semanas. Em pelo menos 18 bairros dos 151 monitorados, houve um crescimento substancial de aglomeração em locais públicos. Bairros da Zona Oeste lideram o ranking em desobediência, seguidos por bairros da Zona Norte. Nas últimas semanas, notou-se um aumento de pessoas nas ruas da Zona Sul.

O levantamento de uma única empresa de telefonia móvel, que tem ajudado ao Centro de Operações da Prefeitura do Rio (COR) a identificar pessoas que transitam pelas ruas diariamente, mostra que Campo Grande é o bairro com maior aglomeração de pessoas. Para se ter ideia, na última segunda-feira a empresa registou mais de seis mil pessoas se locomovendo pelo bairro durante todo o dia. O pico foi às 23h. Acredita-se que essas pessoas estavam em festas ou bares.

A mesma empresa registrou aglomeração em São Cristóvão, na Zona Norte; Guaratiba e Santa Cruz, ambos na Zona Oeste e Rocinha, na Zona Sul, onde havia mais de quatro mil pessoas circulando pelas ruas na última segunda. No mesmo dia, Bangu e Anil, também na Zona Oeste, registraram respectivamente mais de três mil pessoas transitando. Já na Barra da Tijuca, bairro que tem o maior numero de pessoas infectadas pela doença, mais de duas mil saíram as ruas.

Dados da plataforma Cyberlabs, que trabalha com inteligência artificial, mostram que houve uma redução do isolamento social em vários bairros da Zona Sul e do Centro do Rio. Usando mais de 400 câmeras de monitoramento da prefeitura, a empresa notou que entre o final de março e meados de abril o isolamento social passou de 85% para 77% na cidade. Para a empresa, esse número é preocupante.

- Contamos a quantidade de pedestres a cada minuto e fazemos uma análise referente à semana anterior. As nossas últimas comparações mostraram que tivemos no mês de março um isolamento maior. Chegou a 85%. No entanto, na semana do dia 20 de abril notamos que esse número caiu para 77% - afirma Felipe Vignoli, sócio fundador da Cyberlabs.

Para o analista, esses dados refletem um relaxamento das pessoas em relação às semanas anteriores.

– Isso é um alerta. Mandamos esses diagnósticos para a autoridades para que elas tomem as providências cabíveis – conta Vignoli.

O relatório da empresa afirma que os bairros da Zona Sul que mais relaxaram no isolamento foram Copacabana e Botafogo.Na Zona Oeste, Jacarepaguá. Aos finais de semana, Leblon e Ipanema, ambos na Zona Sul.

Por conta do aumento de pessoas nas ruas, o secretário estadual de Saúde, Edmar Santos, defendeu um isolamento social mais duro e destacou ainda que discursos diferentes entre governantes podem ter feito com que parte da população tenha resistência à medida.

- Fizemos uma série de medidas para retardar a evolução da epidemia. Agora, houve muito discurso para lados opostos. E é normal que o cidadão ao ver isso não saiba o que fazer, ele acabe desacreditando um pouco do processo, ainda mais quando ele olha para o lado e ainda não morreu ninguém perto dele. Não falo isso com nenhum tipo de acusação. A gente tem um fato real na nossa mão hoje: é o número de infectados que nos trará uma situação de colapso do sistema de saúde.

Edmar citou o lockdown como uma possibilidade para tentar conter o avanço da doença.

- Em algum momento um lockdown teria que ser necessário, até para mais na frente a gente já poder, com adequação de leitos e casos, pensar numa reabertura estruturada e organizada. Não está tudo, do ponto de vista legal, na mão do Estado do Rio de Janeiro. A gerência sobre estabelecimentos é de cada município. Então precisa neste momento da união de todas as esferas em prol de a gente tentar frear de novo essa curva - disse.

Diminuição de pessoas no transporte público

Dados do Monitoramento da Demanda do Sistema de Transportes e Sistema Viário da Prefeitura do Rio durante a pandemia da Covid-19 apontam que houve uma redução significativa de pessoas usando o transporte público na cidade. Nos últimos 46 dias de monitoramento foi registrado uma variação de 20% a 93% de queda no movimento.

Para se ter ideia, no dia 22 de março apenas 23% de pessoas não usavam os ônibus da cidade. No dia 26 de abril, data do último relatório, 69% de passageiros deixaram de embarcar nesse modal. No mesmo período, o metrô registrou uma variação de 35% a 84%. Já o número de pessoas que deixaram de usar os trens passou de 20% no dia 22 de março para 66% no último dia 26 de abril. O documento mostra ainda que a número de pessoas utilizando as barcas também caiu. Passou de 32% para 71%. E o mais significativo foi o bonde de Santa Tereza. A queda foi expressiva. Passando de 32% para 93% de redução de passageiros.

Segundo o Centro de Operações da Prefeitura (COR), boa parte das pessoas que ainda utilizam os transportes públicos são profissionais de serviços essenciais que estão se deslocando para o trabalho.