Prefeitura do Rio recebeu só este ano quase 8 mil reclamações sobre linhas de ônibus no Rio

·5 min de leitura

RIO — A modernização do sistema de arrecadação dos ônibus deixou empresários e o município em rota de colisão. Ao tomar conhecimento da ação judicial movida pelos quatro consórcios de transportes contra a licitação que implantará a bilhetagem digital em ônibus, VLT e BRT, o prefeito Eduardo Paes afirmou que considera natural que toda a reforma estrutural sofra questionamentos. Mas deixou claro que “a prefeitura está preparada para responder a todos eles”. E destacou a necessidade de dar transparência ao sistema.

— Entendemos que esse processo é essencial para a transformação da realidade do sistema de transportes na cidade. Hoje, as empresas alegam que estão deficitárias e que é preciso dar subsídio. Mas, para darmos subsídio, é preciso transparência. Todo este processo tem sido debatido com o setor desde janeiro. Ninguém foi pego de surpresa. E o primeiro passo foi dado com a aprovação unânime da Câmara da nova política tarifária — disse Paes.

O município tem até 72 horas, a partir da notificação, para apresentar esclarecimentos ao Judiciário. Os consórcios Transcarioca, Internorte, Intersul e Santa Cruz alegam que a mudança da administração dos serviços causaria desequilíbrio às empresas e pedem a suspensão imediata da licitação, cujos envelopes serão abertos no próximo dia 7. A prefeitura está escolhendo a empresa ou consórcio que vai controlar a bilhetagem, ou seja, vai saber e informar à prefeitura a arrecadação de cada linha e o número de passageiros transportados. Para evitar conflito de interesses, o vencedor não pode ser ligado aos atuais operadores.

O vereador Luiz Carlos Ramos Filho, membro da Comissão de Transporte da Câmara, criticou a ação dos empresários dizendo que eles buscam manter a “caixa-preta” do sistema:

— Essa atitude das empresas de ônibus só demonstra que eles não querem ter transparência.

outras cidades mudaram

Especialistas em transportes defendem o novo modelo. Para Ronaldo Balassiano, professor de Engenharia de Transportes da Coppe/UFRJ, o controle da arrecadação com passagens em nenhum momento poderia estar com os empresários. Ele lembra que em cidades como São Paulo, Belo Horizonte e Recife a gestão da arrecadação com tarifas é do poder público:

— O papel de controle de receita tem que ser do município. Como você pode deixar quem opera, ou seja quem tem o controle de gastos e de custos, gerir também a bilhetagem, que é exatamente onde entra dinheiro no sistema? Como o município vai saber como está funcionando toda a máquina? Além disso, quanto a Riocard não ganha com a aplicação do dinheiro do vale-transporte? As empresas compram antes do início do mês para repassar a seus empregados, que gastam nos 30 dias seguintes. Hoje os operadores fazem uma festa.

Engenheira de transportes da Politécnica/UFRJ, Eva Vider destaca ainda que os ganhos da bilhetagem eletrônica nas mãos da prefeitura vão além de saber com precisão a arrecadação das empresas de ônibus:

— O poder público vai ter também acesso direto às informações de oferta e demanda em cada linha. Com esses dados em tempo real, vai poder alterar o sistema e melhorar a mobilidade.

Porta-voz do Rio Ônibus (sindicato que representa as empresas), Paulo Valente, no entanto, alega que a prefeitura está descumprindo um contrato assinado em 2010, com prazo de dez anos, prorrogáveis por igual período:

— Quando elaboramos as propostas vencedoras da licitação, e que deram origem aos quatro contratos de concessão, tínhamos uma relação de investimentos que deveriam ser feitos. Entre eles, de treinamento de pessoal, na melhoria da frota e na implantação de GPS nos ônibus. Um dos principais era no sistema de bilhetagem eletrônica. É um equipamento caro, fizemos o investimento. Não pode mudar a regra do jogo com o contrato em andamento.

Valente argumenta ainda que, se a prefeitura tiver alguma dúvida em relação à bilhetagem, pode fazer uma auditoria:

— Podem auditar do que jeito que quiserem. Os dados são transparentes.

Segundo o Rio Ônibus, 90% das empresas que operam na cidade estão em recuperação judicial, e 20% das linhas estão paradas por problemas financeiros. Já a Secretaria municipal de Transportes informa que 40% das 496 linhas regulares estão inoperantes, e que as empresas atuam apenas com 48% da frota determinada pela prefeitura (6.477 veículos). Nos dias úteis, as linhas deveriam circular com no mínimo 80% dessa frota: o descumprimento dessa norma é a infração mais recorrente hoje verificada pela fiscalização no sistema, tendo gerado este ano 1.360 multas. Este ano, foram aplicadas pela prefeitura 3.883 multas aos consórcios, num total de R$ 5,5 milhões, sendo que apenas 1,7% foi pago.

Cartão , qr code e Pix

A Secretaria de Transportes afirma que a Lei 6.848, de março deste ano, dá à prefeitura a responsabilidade pela implantação e pelo gerenciamento do sistema de bilhetagem, por 12 meses prorrogáveis por igual período para fins de transição.

No sistema de bilhetagem digital proposto, serão aceitos vários tipos de pagamento, como cartão bancário, QR Code, celular e pix. O desembolso em dinheiro será abolido gradualmente. Após o anúncio do vencedor, em 7 de dezembro, o contrato será assinado em 45 dias. Depois, segundo a secretaria, terá início um período de seis meses de mobilização (para, por exemplo, comprar equipamentos e formar pessoal). Em seguida, serão mais seis meses de gestão compartilhada com os atuais validadores.

Enquanto isso, passageiros penam nos pontos de ônibus. O serviço 1746, da prefeitura, recebeu este ano 7.918 queixas sobre o transporte. As principais reclamações são intervalo irregular, más condições dos veículos e o sumiço de linhas.

Moradora de Vila Isabel, Maria Tita aguardava ontem pelo 432 na Avenida Professor Manoel de Abreu para ir até a casa da irmã, no Largo do Machado. O ônibus demorou mais de uma hora para passar:

— Só pego esse porque é o único que vai pelo túnel (Santa Bárbara). Já cheguei a esperar uma hora e meia.

Mofar no ponto não é novidade para Célia Regina da Silva, que às quartas-feiras pega a linha 353 (Praça Seca-Rodoviária) na Rua Teodoro da Silva, em Vila Isabel, para chegar à rodoviária. Ela mora em Rio das Ostras e trabalha de diarista no bairro da Zona Norte do Rio.

— Esse ônibus passa de hora em hora e é péssimo: bancos saem do lugar, é sujo, não tem ar-condicionado e o botão de parada às vezes não funciona.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos