Prefeitura de SP encerra convênio, e maternidade referência na zona leste será fechada

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Conveniada com a Prefeitura de São Paulo para atender gestantes pelo SUS (Sistema Único de Saúde), a maternidade Beneficência Portuguesa, na Penha (zona leste), encerrará suas atividades no próximo dia 30, deixando de acolher mães e bebês de uma das regiões mais populosas da cidade.

Atualmente, o BP Hospital Filantrópico (unidade Penha) atende gestantes encaminhadas por 23 UBSs (Unidades Básicas de Saúde) --localizadas em bairros carentes, como Guaianases-- além de urgências e emergências obstétricas, uma vez que muitas mulheres buscam a unidade quando já estão em trabalho de parto. Só em 2020, foram registrados mais de 5.000 nascimentos.

Dois grandes avisos colocados na entrada da maternidade alertam para o fechamento no fim deste mês.

"A partir de 30/05/2021, por uma decisão da Prefeitura de São Paulo, os atendimentos diretos aos pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS) no BP Hospital Filantrópico (unidade Penha), incluindo a realização de pastos de baixo, médio e alto risco serão descontinuados."

Em nota enviada ao jornal Folha de S.Paulo, no entanto, Prefeitura e a BP (Beneficência Portuguesa) afirmam que a decisão foi de comum acordo e que os serviços serão "transferidos para outras instituições da rede referenciada do município, sem que a população fique desassistida com a interrupção do serviço".

Sem explicar o motivo do encerramento, a gestão Ricardo Nunes (MDB) destaca que 50% dos atendimentos realizados na unidade são de usuários de outros municípios.

Só em 2020, segundo dados da prefeitura tabulados pela Folha de S.Paulo, foram registrados 5.172 nascidos vivos na unidade. Na rede pública da capital, a marca só foi superada em três maternidades: na também conveniada Amparo Maternal (6.710), no Hospital e Maternidade Vila Nova Cachoeirinha (5.826) e no Hospital Municipal Fernando Pires da Rocha - Campo Limpo (5.225).

Para efeito de comparação, em uma das maternidades privadas mais tradicionais da cidade, a do Hospital São Luiz (unidade Itaim), foram 6.710 nascidos vivos em 2020.

A prefeitura ainda afirma que, em contrapartida, "passa a oferecer procedimentos cardiológicos de alta complexidade contratados junto à BP, direcionados a pacientes do SUS, na sua Unidade Paulista".

O anúncio do encerramento, há três semanas, pegou funcionários e pacientes de surpresa.

"Eu estava contando que teria meu filho aqui. Passei mal duas vezes na gestação e fui muito bem atendida aqui. Os médicos são professores da USP. Tenho vontade de chorar só de pensar para onde vão me mandar agora", diz a auxiliar de limpeza Angelica Pinheiro Rosa, 28, na 30ª semana de gestação.

Ela e o marido souberam do fechamento ao procurarem o local na última quinta (20). "Aqui o atendimento é melhor do que em hospital de convênio. Meu primeiro filho nasceu aqui e só tenho elogios. É um absurdo tirarem de quem mais precisa um serviço bom e que funciona", lamenta Marcos Paulo Joaquim Ferreira da Conceição, 27, marido de Angelica.

Diante da notícia, a autônoma Cícera Sciarretta, 47, estava na torcida para que as dores que a filha sentia --e a levaram à maternidade-- já fossem contrações e ela entrasse em trabalho de parto.

"Pelo menos se nascer hoje, o atendimento está garantido. Se tiver que esperar mais, ela pode ter que fazer o parto em outro lugar, o que a gente não quer."

O fim das atividades da maternidade também preocupa mães de recém-nascidos internados na UTI neonatal. Elas temem que os filhos sejam transferidos para outros hospitais.

A prefeitura e a BP afirmam que as gestantes serão admitidas até o próximo dia 29 e que os internados terão continuidade no atendimento até a alta, mas "eventualmente, mães e bebês poderão ser transferidos para outros serviços, situação que será administrada em conjunto com a Secretaria Municipal da Saúde".

Acompanhando a nora --que visitava na UTI neonatal o filho nascido havia quatro dias--, a assistente administrativa Dagmar Rodrigues dos Santos Silva, 42, disse estar indignada com o fechamento da maternidade.

"Nesse momento de pandemia, com hospitais lotados e um monte de grávidas morrendo de Covid, como a gente vai perder um hospital desses? A prefeitura gasta dinheiro montando e desmontando hospital e agora quer economizar fechando esse lugar que é um centro de excelência? Tive meu filho mais novo aqui e não acredito que vai fechar."

Segundo Dagmar, os funcionários estão desolados e alguns até choram quando falam que não trabalharão mais ali.

Médicos ouvidos pela reportagem sob condição de anonimato dizem que metade dos profissionais deve ser demitida e que alguns já estão cumprindo aviso prévio. Segundo eles, toda a equipe está muito triste com o fechamento do "oásis do SUS", como um deles definiu a maternidade.

A BP informou que atua para recolocar colaboradores "em posições em aberto existentes em outras áreas da instituição, em outras unidades " e que avalia "as possibilidades de uso do espaço até então dedicado à maternidade".

Para Roselane Gonçalves, professora do curso de obstetrícia da USP, o fechamento da maternidade fragiliza ainda mais a rede de assistência a gestantes que dependem do SUS na cidade.

"Há tempos vemos que, mesmo existindo uma tentativa de organização do fluxo pela secretaria municipal de saúde, sempre foi complicado garantir que as mulheres tivessem um sistema de referência e contrarreferência para o atendimento na gestação e no parto e pós-parto", diz ela.

Gonçalves frisa que, embora devessem ser assegurados pré-natal e leito obstétrico a todas as mulheres em sua própria região, "o que ocorre ainda é uma peregrinação por uma maternidade".

Ela também destaca que a capital perdeu temporariamente leitos obstétricos para priorizar o atendimento de pacientes com Covid-19, sufocando ainda mais a rede. Em março, os hospitais Waldomiro de Paula, em Itaquera (zona leste), e Vila Penteado (zona norte) passaram a atender somente pacientes infectados pelo coronavírus. Em 2020, os dois hospitais realizaram juntos mais de 4.700 partos.

Já a doula Erika Sato, que atua como voluntária em maternidades da rede municipal, diz ser difícil outras maternidades absorverem a demanda da unidade fechada, pois "todas estão bem cheias".

"Não há espaço físico nem profissionais que consigam dar conta de cerca de 400 partos por mês", diz.

Ela ainda lamenta a descontinuidade do serviço durante a pandemia, justamente quando as grávidas mais precisam de assistência.

"Somos um dos países campeões em mortes maternas causadas pela Covid-19. Muitos desses casos ocorrem por falta de atendimento adequado e falhas no pré-natal. Qual a lógica de fechar uma maternidade de excelência bem nesse momento?"

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